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tarefa de esclarecer a origem das apelações e dos abusos, em vista de
serem coisas cujo conhecimento não é absolutamente necessário, desde que se saiba dar remédio ao mal,
pouco importando saber quando ele começou. Sei bem quanto é difícil descobrir a verdadeira fonte desta
prática; o advogado geral Servien costumava dizer que se ele conhecesse o autor de um regulamento tão
bom, ter-lhe-ia erigido uma estátua.

 Entretanto podemos acreditar que o primeiro fundamento deste costume vem da confiança que os

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eclesiásticos tiveram sempre na autoridade real quando maltratados pelos antipapas Clemente VII,
Benedito XIII e João XXIII. Refugiados em Avinhão recorreram ao rei Carlos VI que então reinava, para
se descarregarem das anuidades, das pensões e dos subsídios extraordinários que eles lhes impunham
comumente.

 As reclamações do clero de França levaram este rei a fazer uma ordenança que proibia a execução de
ordens, mandatos e bulas que os papas pudessem dar daí por diante, com prejuízos das franquias e
liberdades que a igreja galicana gozava.

 Esta ordem deu lugar à primeira empresa dos oficiais do rei sobre a jurisdição eclesiástica.

 Entretanto não foi isto feito sem que o temor com que ficaram de ser prejudicados em lugar das
vantagens que esperavam levasse o rei a sustar a execução durante alguns anos. Em seguida, a
continuação dos vexames produzidos pelos benefícios fê-los executar durante alguns anos, depois dos
quais a ordenação foi suspensa pelo rei Carlos VII no começo do seu reinado, por causa dos diversos
abusos que eram cometidos na sua prática.

 A experiência do mau uso de uma tal ordem obrigou o clero a suportar com paciência por algum
tempo os maus tratos que recebia dos oficiais da corte de Roma.

 Mas enfim o redobramento das exações que se faziam sobre eles os constrangeu a se unirem em
Bourges em 1438 para combinarem os meios de se libertarem desse mal.

 Esta assembléia, célebre pelo número e o mérito dos prelados que aí se achavam, eliminou
cuidadosamente os diversos males pelos quais a igreja andava aflita, e julgou que o melhor remédio que
se poderia dar era o de receber os decretos do conselho da Basiléia que reduzindo quase todas as causas a
condição do direito comum e canônico tirava todos os meios aos oficiais da corte de Roma de algo
empreender contra o clero.

 Em seguida formou uma pragmática dos decretos desse conselho resolvendo a execução sob a sanção
do rei que ficou como o protetor. O rei aderente à suplicação do seu clero determinou por ordenança,
expressa aos seus juizes reais (2) de fazer observar religiosamente a pragmática que tinha resolvido; e é
daí que a igreja sofre o mal neste reino; por intromissão dos oficiais do rei, retomou nova força depois do
começo que tinha tido sob o reino de Carlos VI. E é daí que os parlamentos têm ocasião de tomar a si a
maior parte dos assuntos que não pertencem senão ao tribunal da igreja de Deus.

 Foi-lhes muito fácil atribuírem-se exclusões dos juizes subalternos, o que antes tinha sido encargo
somente deles, estendendo sob tal pretexto seu poder além dos justos limites, visto que neste ponto não
tinham a combater senão inferiores.

 Nos estabelecimentos de primeira ordem, feitos para remediar as infrações da pragmática sanção, as
apelações (3) não tinham lugar. Castigavam-se somente aqueles que obtinham rescritos ou mandatos da
corte de Roma, contra o direito comum, sobre a sua queixa que era feita e averiguada no sentido de ser
tomado conhecimento do fundo da causa.

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 Depois, o tempo que muda todas as coisas, junto ao poderio, que como o fogo chama tudo a si, fez
que de uma tal ordem estabelecida para a conservação do direito comum, e das franquezas da igreja
galicana, contra as empresas de Roma, se passassem às apelações como de abusos, cujo desregramento
anulou completamente a jurisdição dos prelados franceses e também a da Santa Sé.

 Sei bem que os mais sutis partidários dos parlamentos, para autorizar a sua prática podem dizer que os
prelados reunidos em Bourges, tendo suplicado ao rei que impedisse por seus oficiais que a Santa Sé não
contraviesse à pragmática, deram-lhe tacitamente direito a se oporem às contravenções que poderiam aí
ser feitas por eles mesmos. Isto dá lugar a tomar conhecimento das sentenças que se dão todos os dias no
seu tribunal.

 Mas neste lugar se pode alegar o provérbio verdadeiro, que não há no mercado senão aquilo que no
mercado se põe, e é uma coisa tão certa quanto evidente que a igreja galicana reunida em Bourges nunca
pensou, no que pretendem esses senhores, e nunca teve ocasião de o fazer.

 Recorreu ao rei contra a empresa de Roma porque a Santa Sé não tinha tribunal superior na terra; os
príncipes temporais como protetores da igreja podem fazer parar o curso dos desregramentos dos oficiais
de Roma, enquanto que as ações dos bispos podem ser reprimidas por seus superiores aos quais se deve
recorrer.

 Enfim, aquele que dá armas ao seu amigo para defendê-lo não deve nunca ser acusado de dar-lhe
armas se ele se matar. Os parlamentos não poderiam pretender que a proteção que prelados reunidos em
Bourges pediram ao rei, desse direito aos seus oficiais a oprimirem a sua jurisdição.

 Entretanto, como os males são maiores no seu progresso e nos seus períodos, do que no seu começo, o
desígnio do parlamento coberto por diversos véus, em certo tempo, começou a aparecer sem máscara no
século procedente (4) sob o rei Francisco I, que foi aquele que primeiro se serviu do nome de apelação
(5) contra abusos nessas ordenações.

 Vários conhecendo o mau fundamento deste uso, do qual a igreja se queixa agora, pensarão, talvez,
que podendo ser abolida com justiça seria a propósito fazê-lo assim; mas estimo que uma tal mudança
faria mais mal do que aquele que se quer evitar, e que não há senão o abuso de uma tal ordem que seja
maléfico.

 Qualquer fundamento que possa ter o uso que está agora em prática, é certo que, quando se quis
estabelecer abertamente, não se pretendeu que ele servisse senão para parar o curso das empresas que os
juizes eclesiásticos poderiam levar a efeito contra a jurisdição real.

 Depois não se contentaram em servir-se dela contra as contravenções feitas nas ordenanças do reino,
que abraçam muitas matérias além das que dizem respeito à jurisdição, mas ainda se estendeu àquelas
dos santos cânones e dos decretos da igreja e da Santa Sé, e enfim por excesso de abusos a toda a sorte de
matérias, em que os laicos pretendem lesão de polícia que sustentam pertencer aos oficiais do príncipe.

 Poder-se-ia pedir com razão que o efeito desse remédio se restringisse nestes primeiros termos, que
não tinham outra extensão senão a empresa da jurisdição real, suficientemente regulada pelo artigo

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primeiro da ordenança de 1539. Mas para tirar todo pretexto de lesão aos oficiais do príncipe, e fazer que
eles não possam com aparência pretender que lhes é impossível fazer observar a ordenança por causa da
empresa da igreja; estimo que ela pode consentir que haja lugar para apelações como de abusos, quando
os juizes pronunciarem diretamente contra a ordenança como é o caso em que Carlos IX e Henrique III
pelo artigo 59 da ordenança de Blois querem que sejam admitidos. Contanto que sob este pretexto não
sejam estendidas às contravenções feitas aos cânones e aos decretos, embora muitas ordenanças,
particularmente as capitulares de Carlos Magno, repitam constantemente o mesmo teor daquelas da
igreja.

 Sei bem que será incômodo fazer a indicação tão exata das ordenações para os fins que pretendo, a
fim de que não aconteça, como algumas vezes, surgir-nos embaraço nas próprias regras