testamento_politico
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que se quer
fazer; mas é verdade que se não se achar dificuldade na vontade dos oficiais do rei, que estão
encarregados de executar as suas, a ordem que o rei lhes der servirá de regra.

 A pretensão que têm os parlamentos de, quando os juizes eclesiásticos julgam contra os cânones e os
decretos, dos quais os reis são executores e protetores, de corrigirem os abusos de suas sentenças; é com
efeito uma empresa tão destituída de toda a esperança de justiça que por si mesma ela se faz insuportável.

 Se toda a igreja julgasse contra cânones e decretos poder-se-ia dizer que o rei, que delas é protetor,
poderia e deveria sustentá-las por uma via extraordinária emanada da sua autoridade; mas posto que
quando um juiz pronuncia contra o seu teor, a sentença pode ser reformada e corrigida por seu superior;
os oficiais do príncipe não podem, sem pôr a mão no turíbulo, e sem um abuso manifesto, querer fazer o
que não pertence senão àqueles que são particularmente consagrados a Deus. E quando eles usam assim,
antes que a última sentença da igreja seja dada, sua ação não é somente destituída de justiça, mas mesmo
destituída de toda a aparência dela.

 São desígnios que têm ainda os parlamentos de trazer toda a jurisdição espiritual e eclesiástica ao
tribunal dos príncipes, sob pretexto de que a justiça temporal não é menos destituída de fundamento e de
aparência; entretanto não há juiz ordinário nem juiz real, que não queira ordenar ao tempo das procissões
a hora das grandes missas e várias outras cerimônias, sob pretexto de comodidade pública; assim o
acessório prejudica o principal, e no lugar que o culto de Deus deve marchar primeiro e dar as regras a
todas as ações civis, ele não tem lugar senão depois que os oficiais temporais dos príncipes dão
permissão.

 Sei bem que a má justiça que se distribui algumas vezes, por aqueles que exercem a jurisdição
eclesiástica, o tempo gasto e as formalidades prescritas pelos cânones, dão pretextos especiosos às
tentativas dos oficiais do rei, mas isto não é com razão, visto que um inconveniente não estabelece outro,
mas obriga a corrigi-los ambos, coisa que pretendo agora fazer.

 Passaria em silêncio a pretensão que têm ainda os parlamentos de tornar abusivo tudo aquilo que se
julgar contra os seus editais, aos quais por esse meio querem dar a mesma força que às ordenanças, se
não estivesse obrigado a fazer ver que este abuso é tanto menos suportável quanto por um tal meio eles
querem igualar sua autoridade àquela de seu senhor e do seu rei.

 O mal que a igreja recebe de tais tentativas é tanto mais insuportável, quanto impede absolutamente os
prelados de atenderem a seus cargos. Se um bispo quer punir um eclesiástico, ele se subtrai

Testamento político.

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imediatamente à sua jurisdição por uma apelação contra abuso; se fazendo uma visita ele determina uma
ordenança o efeito é imediatamente impedido, porque embora em matéria de disciplina os apelos sejam
somente devolutivos, os parlamentos os tornam suspensivos contra toda a razão.

 Enfim pode-se dizer com verdade que a igreja está sob ferros, e que se seus ministros têm os olhos
abertos, têm as mãos ligadas, de sorte que conhecendo os males não está em seu poder dar-lhes remédio.

 O que me consola nesta extremidade é que isto que a respeito é impossível à igreja, será fácil a V. M.
de cuja vontade depende o remédio a tais desregramentos.

 A primeira coisa que é preciso fazer para garantir-se é ordenar que, de futuro, as apelações como de
abusos, não sejam mais admitidas senão em caso de uma manifesta empresa sobre a jurisdição real, e de
uma evidente contravenção às ordenanças puramente emanadas da autoridade temporal dos reis, e não da
experiência da igreja.

 Essa ordenança pressuposta, para fazê-la religiosamente observar, V. M. a regulamentará de sorte que
contenha seis pontos principais. O primeiro ponto desse regulamento deve obrigar a fazer que de futuro
todas as apelações de abusos sejam seladas do grande selo pelo parlamento de Paris, e em todos os outros
que o afastamento da corte obriga, sirvam-se dos pequenos selos, não podendo ser seladas senão depois
da selagem prévia dos três antigos advogados com seus selos especiais, porque aí há lugar a abusos;
submetendo-se à multa se for de outra forma.

 O segundo deve declarar que todos os apelos lançados em matéria de disciplina serão somente (6)
devolutivos e não suspensivos.

 O terceiro ponto deve fazer que o abuso do qual alguém se queixar, seja especificado na razão de
apelação e na sentença que cair sobre ele: o que é tanto mais necessário, quanto foi freqüente acontecer
em casos do passado; embora não houvesse abuso senão por falta de formalidade, ou em um só ponto da
sentença, que contaria vários, - quando o parlamento julgou ter havido abuso, a sentença seria desprezada
em todos os pontos, embora ela não devesse ser senão em uma só das circunstâncias que de ordinário não
era importante. O quarto, deve adstringir os parlamentos a porem a causa das apelações como dos
abusos, as primeiras no rol, fazendo-as chamar e julgar preferencialmente a todas as outras sem
especificá-las, para evitar demora; que é freqüentemente desejada por aqueles que não tendo outro fim
senão iludir a punição dos seus crimes, não têm outro fito senão cansar, seus juizes ordinários, aos quais
apelam: não sendo razoável privar o público da administração da justiça eclesiástica, tornando aqueles
que são principais oficiais, simples solicitadores ante um tribunal inferior ao seu.

 O quinto, imporá a necessidade, aos parlamentos, de condenar sempre a multa e a custas aqueles que
mal apelaram, sem possibilidade de dispensa por causa alguma e pretexto algum, voltando aos mesmos
juizes aos quais apelaram sem razão. Isto é tanto mais necessário quanto sem este remédio haveria
liberdade a todos os criminosos de se subtraírem à jurisdição ordinária interpondo um apelo por abuso,
sem razão.

 Ora; porque as melhores ordenanças e os mais justos regulamentos são em geral desprezados por
aqueles que os devem mais religiosamente observar, com a licença das cortes soberanas fazem

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freqüentemente até este ponto, violando ou reformando as ordens de V. M., como bem lhes parece; para
tornar efetiva a real vontade, fazendo que V. M. seja obedecido em ponto tão importante, a razão quer
que a estes cinco primeiros pontos, se junte um sexto, que será remédio tão poderoso para constranger
seus oficiais a cumprirem o seu dever a este respeito, como o das apelações de abusos é excelente para
impedir os juizes eclesiásticos a faltarem ao seu, no exercício da sua jurisdição.

 Este remédio não requer outra coisa senão a permissão que lhe pede todo o clero de apelar da justiça a
V. M. mesma, valendo-se do conselho quando os parlamentos faltam às observações da real ordem e dos
reais regulamentos.

 Isto é tanto mais razoável quanto em lugar de reprimir as empreitadas da igreja, valendo-se diante dos
juizes como se se valessem de um tribunal de ordem diferente e inferior, por sua natureza, - recorrerão ao
real conselho para impedir o curso da ordem dos parlamentos, valendo-se de premonição de uma ordem
da mesma espécie. E sem contradição aqueles mesmos que enviam franquias da igreja não poderiam
achar do que criticar, pois que em lugar de torná-la independente da jurisdição temporal, aumentam de
um grau a sua sujeição.

 Enfim será tanto mais vantajoso para V. M. quanto contendo o poder da igreja nos seus próprios
limites, restringirá também o poder dos parlamentos em extensão justa que lhes é prescrita pela razão e
pelas leis.

 Além disso, o comando de V. M. em relação ao seu conselho, usando nesse sentido do poder que tem
de impedir pela real autoridade as ações de todos os reais súditos e particularmente as dos oficiais que
exercem