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justiça nesse reino; ela toma um cuidado particular preenchendo não com gente cuja pretensão e
importunação sejam os principais títulos a apresentar para obter seus fins, mas pessoas escolhidas pelo
seu puro mérito em toda a extensão do reino; terá o contentamento de ver que aqueles que não quiserem
conter-se nos limites do seu dever pela razão, seriam obrigados pela força da justiça e isso não durará
muito tempo sem que se veja claramente que aquilo que foi forçado de começo se tornará enfim
voluntário.

SEÇÃO III
Dos casos privilegiados e dos meios de os regular

 As pessoas que se consagram a Deus, ligando-se à sua igreja são tão absolutamente isentas da
jurisdição temporal dos príncipes, que elas não podem ser julgadas senão pelos seus superiores
eclesiásticos.

 O direito divino e o das gentes estabelecem claramente esta imunidade. O direito das gentes no que
ele tem de reconhecido por todas as nações. O de Deus pela confissão de todos os autores que
escreveram antes e a jurisprudência moderna do último século.

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 A igreja ficou nesta posse até que a má ordem produzida na administração da justiça eclesiástica deu
lugar à ambição dos oficiais dos príncipes temporais, de tomarem a si tal assunto.

 Ela mesma reconhecendo que a desgraça dos tempos a impediu pudesse reprimir por sua própria
força, muitas desordens que haviam tido lugar entre os que estavam submetidos à sua jurisdição,
resolveu-se, para tirar todo o motivo de queixa, e em razão da impunidade dos crimes que se cometiam à
sombra da sua autoridade, dar poder aos juizes seculares de tomar conhecimento do assunto em alguns
casos chamados privilegiados (7) porque eles não podiam tomar conhecimento senão em virtude do
privilégio que lhes era particularmente concedido para tal efeito.

 É preciso notar a este respeito que outros são os casos julgados privilegiados em todos os Estados, e
aqueles julgados tais particularmente em França.

 Os primeiros se podem reduzir a dois, que são os de homicídio voluntário, cometido com propósito
deliberado, e a apostasia manifesta, como induzir os padres a desprezar e abandonar a vida eclesiástica,
abandonar a batina, vivendo em vida escandalosa no mundo; seja levando armas, seja fazendo alguma
outra ação contrária à sua profissão. Os segundos eram de começo em pequeno número. Quando a
pragmática foi estabelecida não havia senão dois: o porte de armas e a infração da salvaguarda do rei,
mas, pouco a pouco sua extensão se tornou maior.

 Toda a contravenção da pragmática foi julgada caso privilegiado.

 A de concordatas foi posta em seguida na mesma categoria.

 O reconhecimento de cédula ante o juiz real, também se julgou do mesmo gênero.

 Os raptos, os roubos feitos nos caminhos, o falso testemunho, a moeda falsa, o crime de
lesa-majestade, e todos os casos enormes foram julgados da mesma natureza pelos parlamentos.

 Enfim, a dar-se-lhes crédito, todas as faltas dos eclesiásticos; mesmo as simples injúrias, se
encontrarão como casos privilegiados, não havendo mais delito comum.

 Os crimes reconhecidos privilegiados em todos os Estados são pelo consentimento e por opinião
comum de toda a igreja, e muitos daqueles assim julgados neste reino, são por abuso ou por decisão dos
oficiais reais.

 Eles se atribuíram tanto mais audaciosamente o direito de intervenção em todos os casos dos clérigos,
segundo a ordem dos cânones, que requer três sentenças conformes para condenação de seus delitos; é
muito difícil punir mesmo os mais notáveis e impossível fazê-lo em pouco tempo. (8) Embora este
pretexto seja plausível, e obrigue à reforma das formalidades observadas na administração da justiça da
igreja; os antigos jurisconsultos não puderam ver tal empreitada sem jogar-se contra ela abertamente.

 De nada serve dizer que esses crimes tornam os eclesiásticos indignos da sua imunidade, pois que por
semelhante raciocínio se infeririam muitas conclusões tão falsas quanto prejudiciais àqueles mesmos que
tiram tais conseqüências.

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 A única conseqüência que se pode inferir da demora e dos desregramentos que se notam na
administração da justiça da igreja, é que é preciso levar aí a ordem requerida, e assim como os
eclesiásticos são obrigados a ela os reis também são a mantê-la na imunidade que Deus deu à sua igreja.

 Para satisfazer a estas duas obrigações a igreja deve remediar pelos meios que proporemos aqui, as
insuportáveis demoras das três sentenças requeridas pelos antigos cânones, tornando-se tão exata na
punição dos crimes cometidos por aqueles submetidos ao seu poder, que ninguém se aperceba de um
escândalo sem que veja ao mesmo tempo uma punição exemplar.

 E o rei fazendo uma declaração que compreenda todos os casos privilegiados, que podem ser
reduzidos àqueles que podem ser cometidos por tais, em todos os Estados, e em toda a ordem, e além
disso o porte de armas; a infração da salvaguarda do rei, o reconhecimento das cédulas, a apostasia
manifesta, assim como acima foi explicado, o roubo nos caminhos, a moeda falsa, e todos os outros
crimes de lesa-majestade, deve-se absolutamente proibir a seus oficiais tomar conhecimento de todos os
outros casos, até que os acusados lhes sejam enviados pelos juizes da igreja; pois que se eles contravêm a
esta ordem é preciso que se saiba, quase ao mesmo tempo, da sua punição e do seu delito.

 Ora, porque a justiça quer que se tome um exato conhecimento de uma falta antes que se pense no seu
castigo, e que ao rei não é possível distribuir justiça a todos os seus súditos, S. M. satisfará à sua
obrigação se ela ordenar ao seu conselho privado de receber a queixa das contravenções que seus oficiais
de quaisquer qualidades fizerem a um tal regulamento, punindo severamente a tais ações. Nesse caso a
igreja ficará contente com tal ordem e se tornará tão cuidadosa em distribuir a justiça, quanto ficará com
recebê-la do seu príncipe.

SEÇÃO IV
Que faz ver de que conseqüência é a "regale" pretendida pela Santa Capela de Paris sobre os bispos
de França mostrando os meios de as suprimir.

 Ainda que os cônegos da Santa Capela de Paris (9) sustentem que a "regale" lhes foi dada por São
Luís, seu fundador, é verdadeiro que a primeira cessão que se encontra é de Carlos VII que lhes dá por
três anos somente e direito de gozar da renda temporal dos bispados vagos aos quais a regale se liga. O
termo desta graça tendo expirado, ele lha concedeu por mais três anos, e por quatro seguintes; tudo sob
condição de que a metade dos dinheiros que daí proviessem, seria empregada na manutenção dos
chantres, que deviam fazer o serviço; e a outra nas reparações, nos vitrais, nos ornatos, e na nutrição dos
meninos do coro, assim como seria ordenado pela câmara das contas de Paris. Carlos VII tendo morrido,
seu filho Luís XI conservou essa mesma graça à Santa Capela, por todo o tempo de sua vida, o que
pareceu então tão extraordinário, que a câmara das contas não quis verificar as cartas senão por nove
anos. Em seguida ao reino de Luís XI, seus sucessores Carlos VIII, Francisco I e Henrique II
continuaram esta mesma graça, cada um durante a sua vida.

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 Carlos IX passou além (10) e concedeu perpetuamente à Santa Capela o que seus predecessores não
lhe tinham concedido senão temporariamente.

 A intenção que tiveram estes príncipes é digna de louvor, pois que levaram a bom fim um direito que
lhes pertencia. Mas a maneira pela qual aqueles da Santa Capela usaram, não poderia ser suficientemente
recriminada, em vista de que em lugar de contentarem-se do que se lhes dera, quiseram sob tal pretexto
subordinar todos os bispados de França, à "regale".

 O parlamento de Paris que pretende