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ser o único a ter conhecimento da "regale", ficou a tal ponto cego
com relação ao seu próprio interesse que não temeu sujeitar a uma tal servitude (11) todos os bispados,
mesmo os que no nosso tempo foram unidos à coroa, ordenando em termos expressos aos advogados de
não porem duvida que a extensão da "regale" não fosse tão grande, quanto a do reino.

 Esta empreitada demasiado ampla para ter efeito, deu lugar às igrejas que se acham isentas desse
direito de não quererem mais conhecer este tribunal como julgador e aos reis de avocar todas as
instâncias desta natureza ao seu conselho.

 A extensão deste direito sobre todos os bispados do reino é uma pretensão tão mal fundada que para
dele se conhecer a injustiça, basta ler um título (12) cujo original está na câmara das contas; e que o
presidente Lemaitre fez imprimir, enumerando os bispados sujeitos à "regale" e os isentos.

 Outrora a opinião comum era de que além do Loire, não havia "regale"; (13) os reis Luiz o Gordo e
Luiz o Jovem isentaram o arcebispado de Bordeaux e seus sufragantes.

 Raimundo, conde de Toulouse, concedeu como graça a bispos de Languedoc e da Provença aquilo
que depois lhes foi confirmado por Filipe, o Belo; e São Luiz (14) cedeu a "regale" de toda a Bretanha
aos duques da região, pelo tratado feito com Pedro Mauclerc; o que mostra bem que ele não a deu à
Santa Capela quando a fundou.

 Vários outros bispados, como Lion, Autun, Auxerre e diversos outros estão certamente isentos desta
sujeição que ninguém põe em dúvida.

 As ordenações feitas em diversas épocas dão claramente a conhecer que jamais os reis pretenderam
que a "regale" tivesse lugar sobre todos os bispados; e essa verdade é tão evidente, que Pasquier,
advogado do rei na câmara das contas, foi obrigado a confessar que sustentar esta doutrina é antes de um
"bajulador da coroa, do que será de um jurisconsulto francês"; tais são os seus termos.

 A ignorância, ou por melhor dizer, a covardia e o interesse de alguns bispos não contribuiu pouco para
o vexame que sofrem presentemente os prelados deste reino, que para se livrarem da perseguição que
sofrem no que lhes diz respeito, não temem receber da Santa Capela quitação daquilo que com efeito não
lhe pagam.

 A segurança em que ficaram de que disputando seu direito diante dos juizes que eram seus partidários,
eles seriam condenados, fê-los estimar que poderiam inocentemente cometer uma tal falta, cujo
seguimento seria de muito perigosas conseqüências se a bondade de V. M. não reparasse o mal de sua

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fraqueza.

 O direito comum querendo que a disposição dos frutos de um benefício vago seja reservada ao futuro
sucessor; não se pode usar de outra maneira sem título autêntico que lhe dê poder.

 Entretanto não se encontra ponto que estabeleça tão claramente a pretensão que têm os reis de
disporem assim como bem lhes parece, e para justificar é preciso recorrer ao costume.

 Esta verdade é tão certa que todas as ordenanças feitas neste sentido não fazem menção senão da
antiga posse.

 Ora; porque é fácil às potências soberanas atribuírem-se sob diversos pretextos aquilo que não lhes
pertence; e que por esse meio uma usurpação injusta na sua origem, pode ser em qualquer tempo julgada
legítima em virtude da sua posse, parece que se poderia pôr em dúvida com razão, que o costume pode
ter força de título autêntico em relação aos soberanos.

 Mas não tendo resolvido disputar o direito de V. M. mas somente lembrar a necessidade de regulá-lo;
de sorte que não haja conseqüências prejudiciais, à salvação das almas, e sem querer aprofundar mais a
origem e o fundamento da "regales" que suponho válidas; não pretendo outra coisa senão esclarecer o
que a Santa Capela pode pretender em virtude da concessão recebida de seus reais predecessores, e
propor o remédio que é preciso dar aos abusos que se cometem no gozo de uma tal graça.

 Acontece freqüentemente que um bispo rico em todas as qualidades que lhe dão os cânones, e que a
piedade das gentes de bem pode desejar; mas pobre por sua nascença, fica dois ou três anos na
impossibilidade de regularizar o seu cargo, tanto pelo pagamento das bulas a que a concordata obriga,
que importa freqüentemente em um ano inteiro de renda, quanto porque este novo direito lhe subtrai
outro. De sorte que, se se junta a estas duas despesas aquela que é preciso que ele faça para comprar os
ornamentos de que tem necessidade, e para de tudo se prover segundo a sua dignidade, ele se encontrará
freqüentemente em situações tais que três anos se passam antes que possa tirar algo para seu sustento, o
que faz com que muitos não cheguem aos seus bispados, escusando-se com a sua necessidade; ou
furtando-se à montagem de casa a que são obrigados, e privam-se da reputação de que devem gozar
como pastores ante seu rebanho, como também ficam incapazes de várias ações de caridade senão por
palavras.

 Acontece também algumas vezes que para evitar estes inconvenientes eles se comprometem de tal
sorte que alguns são levados a praticar más ações para livrarem-se das dívidas; e aqueles que não caem
nessa extremidade, vivem em perpétua miséria, e frustam enfim os seus credores daquilo que lhes é
devido, pela impossibilidade de pagar-lhes.

 O remédio a este mal é tão fácil quanto necessário, pois que ele não consiste senão em anexar à Santa
Capela uma abadia de renda igual àquela que pode tirar de tal estabelecimento. Dir-se-á talvez que não
será fácil esclarecer convenientemente este ponto, por causa da dificuldade que a companhia oporá em
pôr a limpo aquilo que ela quer ter escondido. Mas se V. M. ordena que em dois meses justifique pelos
atos do seu registro aquilo de que gozava antes da concessão perpétua que lhe fez Carlos IX, e isto sob
pena de perda de direito, este processo muito jurídico fará ver justamente o pé que é preciso tomar para
recompensar os benefícios que ela recebeu de seus reais predecessores. Sei bem que esse capítulo

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pretenderá que se deva considerar a renda recebida da "regales" tal como dela se goza presentemente mas
é certo que ao terem assegurada a perpetuidade desta graça ele a estendeu sobre diversos bispados que
são isentos; é claro que o tempo que proponho é aquele dentro do qual se pode justamente tomar tais
medidas.

 Se V. M. assim determinar, com poucos gastos garantirá um bem indizível à sua igreja, por meio da
qual as almas poderão mais facilmente receber o pão que lhes é tão necessário e que devem esperar de
seus pastores.

 Se em seguida continuar na resolução tomada e que continua de há muito tempo, de não dar pensão
sobre os bispados, o que é absolutamente necessário, não omitirá coisa alguma do que está em seu poder,
para impedir que a necessidade dos bispos ponha-os fora dos meios de cumprirem o seu dever.

SEÇÃO V
Da necessidade que há de encurtar as demoras que se observam na justiça eclesiástica, do que advém
ficarem três crimes impunes.

 Não há ninguém que não saiba que as ordens que são da pura polícia na igreja podem e devem
freqüentemente ser mudadas segundo a mudança dos tempos. Na pureza dos primeiros séculos do
cristianismo, este uso foi bom, mas agora seria prejudicial.

 O tempo, que é pai de toda a corrupção, tendo tornado os costumes dos eclesiásticos diferentes
daqueles que tinham no fervor do seu primitivo zelo; é certo que em lugar do que, durante o curso de
vários inocentes anos da igreja, nos quais o zelo dos prelados os tornavam tão severos na punição dos
crimes quanto são presentemente covardes e negligentes, é certo, digo eu, que se bem nesse tempo as
demoras das formalidades da jurisdição eclesiástica não deviam ser temidas, elas são agora muito
prejudiciais e a razão não permite que continuem.

 Esta consideração faz que seja necessário abolir a antiga