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ordem prescrita pelos cânones, que requerem
três sentenças conformes para convicção dos clérigos.
 O mau uso que durante muito tempo se fez de uma tal ordem, autor de toda a impunidade e por
conseguinte da desordem na igreja, obriga a se fazer justiça neste ponto, para tirar todo o pretexto aos
juizes temporais de seguir a opinião de certos teólogos que não temeram dizer que mais vale que a ordem
seja produzida por um juiz incompetente do que deixar que a desordem reine.
 E impossível tirar o direito de jurisdição dos arcebispados dos primados da Santa Sé, do que acontece
muito freqüentemente serem dadas seis ou sete sentenças antes que três estejam conformes; pode-se
remediar a este inconveniente ordenando que a sentença dos juizes delegados do Papa, por apelação do
primado ou do arcebispado seja definitiva e soberana; e, a fim de que este julgamento possa ser obtido
prontamente, e que o zelo da igreja apareça na boa administração da justiça, é preciso que o rei se junte
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ao seu clero para obter da Santa Sé de que em lugar de recorrer em todos os casos particulares que é
preciso julgar, haja por bem delegar em todas as províncias do reino, em pessoas de capacidade e
probidade requeridas, que sem novas formalidades possam julgar soberanamente todas as apelações que
se fizerem em seu tribunal.
 Esta proposição não pode ser odiosa para Roma pois que a concordata obriga os Papas a delegar "in
partibus" para a decisão das causas que se apresentarem; somente aí haverá diferença que no lugar em
que agora é preciso em cada causa, se dirigir a Roma para delegação dos ditos juizes, eles se acharão
todos nomeados para a decisão de todas as causas do reino; o que facilitando a punição dos crimes dos
eclesiásticos criminosos deve tirar todo pretexto aos parlamentos de empreender como fazem contra a
justiça da igreja e aos eclesiásticos tirando todo o motivo de que se possam queixar.
 Também aqueles que são inimigos declarados da igreja ou que invejam a sua imunidade terão de
futuro a boca fechada contra ela: e os melhores dos seus filhos que até a presente data não quiseram falar
a este respeito para sustentar a sua causa, falarão audaciosamente, de cabeça levantada, defendendo a sua
autoridade contra aqueles que quereriam oprimi-la sem razão.
 Sei bem que a Santa Sé apreenderá com seus delegados estabelecidos como eu o proponho, podendo
tomar com o tempo uma ditadura perpétua; mas mudando-se de tempos em tempos, como julgo a
propósito e necessário, este inconveniente não deve ser temido e se se costumar obter de Roma apelações
em cada causa, como deve ser, os direitos de Roma ficarão inteiros e sem diminuição. Dir-se-á talvez que
não havia necessidade de mais tempo para obter de Roma nova delegação de juizes para cada crime
cometido, do que para enviar os casos aos delegados; mas há muita diferença, sendo certo que um dos
principais abusos que impedem a punição dos crimes dos clérigos consiste em que o apelante obtém de
ordinário de Roma a sua devolução ao juiz que deseja, em França, por conivência com os banqueiros,
que por dinheiro servem aos seus partidários como eles querem.
 
SEÇÃO VI
Que representa o mal que recebe a igreja das quatro isenções de que gozam diversas igrejas com
prejuízo do direito comum e propõe os meios de os remediar.
 A isenção é uma dispensa ou relaxação da obrigação que se tem de obedecer a seu superior. Ela
comporta diferentes espécies; umas são de direito, outras são de fato.
 As isenções de direito são aquelas de que se goza pela concessão de um superior legítimo que as dá
com conhecimento de causa.
 A isenção de fato é aquela de que se toma posse sem título (15) mas somente pelo uso de um tempo
imemorial.
 Enquanto o primeiro gênero de isenção é aprovado pelos casuístas como fato de legítima autoridade, o
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último que de si mesmo não é legítimo não é sempre condenado por eles; porque, aqueles que gozam de
tempos imemoriais de um privilégio tiveram outrora bulas, que lhas acordavam, embora não possam
mostra-las.
 Há três espécies de isenções de lugar; a primeira é aquela do monastério dos mendicantes, que o bispo
não visita, embora seja recebido solenemente quando aí aparece, podendo ter sua ordem e fazer exercer
todas as funções episcopais que se lhe antolham.
 A segunda é de muitos outros lugares, nos quais eles não são recebidos, e não podem exercer
nenhuma função episcopal, sem darem uma declaração de que seja sem prejuízo dos direitos e privilégios
dos ditos lugares: abadia de Marmoutier, a de Vendome, e várias outras estão neste caso.
 A terceira é de certos territórios na extensão dos quais os bispos não exercem nenhuma jurisdição,
nem mesmo sobre os laicos, sobre os quais aqueles que gozam de uma tal isenção têm, só eles, a
jurisdição e o poder chamado comumente de lex diocoesana: As abadias de São Germano des Prés, de
Corbia, de São Florêncio de Vieil de Fescamp e várias outras são neste caso, em toda a extensão do seu
território, os únicos religiosos exercendo toda a jurisdição episcopal.
 Dão dispensa de "bandos", concedem monitórios, publicam os jubileus, assinam a extensão em
seguida à provisão de Roma; vistos se expedem em seus nomes; pretendendo mesmo ter o direito de
escolher os bispos que bons lhes pareçam, para dar as ordens sem permissão do seu chefe diocesano.
 Enfim eles dão as demissórias para receber as ordens de tal bispo que seja seu preferido.
 Tal é a isenção do capítulo de Chartres, em virtude da qual o bispo não pode fazer sua entrada na
igreja, sem dar o ato pelo qual promete conservar todos os privilégios da igreja; sem isso não pode fazer
nenhuma visita, nem a do santo sacramento, nem dos santos óleos.
 Essas pessoas são de tal forma isentas da jurisdição dos bispos que quando um cura se torna
delinqüente, o capítulo lhe dá juizes para o processarem e sem a apelação do julgamento ela se provê em
Roma para ter juizes in partibus porque essa igreja "ad sanctam romanam ecclesiam admisso nullo
medio, pertinet".
 Publicam indulgências; têm cento e tantas paróquias; exercem toda a jurisdição diocesana, e a
apelação de todas as suas sentenças vai a Roma ordenando eles, todas as procissões gerais.
 Dessa mesma natureza é São Martinho de Tours.
 Quatro sortes de pessoas se encontram principalmente isentas na igreja! Os bispos dos primazes, os
bispos dos arcebispos; os monge e os religiosos, dos bispos; e os cônegos dos bispos e arcebispos.
 Tais isenções são diferentes em várias circunstâncias; umas somente isentam pessoas e outras isentam
também os lugares de sua morada e todas de formas diferentes.
 Antigamente os arcebispos estavam sujeitos aos primazes (16) aos quais o Papa mandou o "pallium"
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para exercer poder e autoridade sobre os metropolitanos.
 Desde esse tempo aqueles de França com isenção dos de Tours, de Sens, e de Paris, obtiveram ou por
bula ou por prescrição, licença de não relevar os primazes.
 Alguns bispos (17) isentaram-se também pelo Papa da sujeição aos seus arcebispos.
 Os monges são quase todos isentos da jurisdição ordinária, e seu direito está fundado na própria
concessão dos bispos ou na dos Papas; suas isenções as mais antigas, como são aquelas que lhes foram
concedidas há 700 ou 800 anos, vêm dos bispos e arcebispos; mas todas aquelas que foram obtidas desde
esse tempo, lhes foram dadas pelos Papas com o fito ou de impedir que a reunião dos bispos perturbasse
a sua solidão ou para garanti-los do rigor de alguns, pelos quais eles eram ou se pressupunham ir ser
rudemente tratados.
 Os últimos que se isentaram de seus superiores foram os cônegos. Em sua primeira instituição