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eles
estavam tão estreitamente ligados e unidos aos seus bispos, que nada podiam fazer sem a sua permissão;
e subtrair-se à sua obediência, seria o maior crime que nesse tempo poderia ser cometido.

 Vários julgaram que toda a sua isenção vinha dos antipapas, ou que elas fossem manifestamente
sub-reptícias ou simplesmente fundadas sobre a posse em tempo imemorial; mas é coisa certa, que há
algumas mais antigas do que os cismas, e mais autorizadas que aquelas que recebem sua força e sua
virtude dos antipapas.

 Os mais legítimos concederam algumas (18) ou em seguida às concessões dos bispos, por transações
feitas com eles; ou de moto próprio, sob pretexto de garantir os cônegos do mau tratamento recebido
deles.

 Para penetrar esta matéria até ao fundo e distinguir claramente as boas isenções das más é preciso
considerar de maneira diferente as bulas que as autorizam.

 Outras são aquelas que foram concedidas pelos papas antes da desgraça dos cismas.

 E outras aquelas que foram dadas depois da extinção dos mesmos.

 Aquelas do primeiro gênero devem ser tidas como boas e válidas; mas tais bulas sendo uma isenção
do direito comum que é sempre odioso, é preciso examiná-las com cuidado, a fim de que não haja
engano quanto ao seu teor; sendo certo que muitas podem ser levadas adiante como bulas de isenção, que
sejam simples bulas de proteção que antigamente se obtinham, e bulas que concedem alguns privilégios
particulares, mas não uma isenção da jurisdição ordinária, ou bulas que dão somente poder aos capítulos,
de exercer uma jurisdição subalterna à dos bispos, semelhante à dos arquidiáconos, que em certas igrejas
têm direito de excomungar, interdizer e ordenar penitências públicas, embora estejam sempre submetidos
à jurisdição dos bispos.

 Quanto às bulas do segundo gênero, sendo elas nulas de pleno direito, por falta de poder legítimo
naqueles que a outorgaram, particularmente pela constituição do Papa Martinho V (19), a qual quebra

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todas as bulas obtidas durante os cismas; não se pode sem malícia ou sem ignorância querer que
prevaleçam com prejuízo do direito comum.

 Aquelas do terceiro gênero foram acordadas ou para servirem de nova isenção, ou para confirmar
precedentes.

 As primeiras devem ser reputadas nulas, ou porque sejam diretamente contrárias ao decreto de que
falou Martinho V, ou porque tivessem sido subrepticiamente obtidas, assim como foi julgado pelos
parlamentos de Paris e Toulouse, contra os capítulos de Angers e de Cahors.

 As segundas não tendo sido concedidas senão para confirmar um direito antigo, que não se acha
nunca estabelecido em vão, devem segundo julgamento de todas as pessoas desprovidas de paixão, ficar
sem efeito.

 Resta a ver se as isenções (20) fundadas sob simples concessões feitas pelos bispos, ou em transações
e sentenças arbitrais dadas nesse sentido contra eles e seus capítulos; nesse caso são boas e válidas.

 Se não é nunca permitido aos bispos alienar o seu temporal sem uma vantagem e um ganho manifesto,
menos podem eles renunciar à sua autoridade espiritual, com prejuízo da igreja, que vê por esse meio a
divisão dos seus membros em face do seu chefe, e mudar-se a regra que a faz subsistir, em confusão que
a perde e a arruina.

 A nulidade de transações dos compromissos ou das sentenças arbitrais é por esse princípio, evidente;
aquele não pode comprometer nem transigir com aquilo cuja disposição não lhe é facultada; e se se
encontram autores que estimam que se pode transigir com as coisas espirituais, todos isentam algumas,
entre as quais a sujeição dessa natureza tem primeiro lugar; e com efeito essa sorte de títulos é tão
inválida para o fato de que se trata, que quando mesmo fosse confirmada pelos papas, não teriam eles
suficiente força para privar do seu direito os sucessores dos bispos que se tivessem despojado de sua
autoridade de uma das três maneiras especificadas acima.

 A razão faz conhecer que nenhuma destas maneiras pode valer contra o direito comum; ela faz ver
também que as bulas simplesmente confirmativas das concessões, transações ou sentenças arbitrais, não
dão nenhum direito àqueles que dela se querem servir porque não podem ter mais força do que os
fundamentos que supõe.

 Um tal ponto fica sujeito a exame, isto é, a saber se o costume e as antigas posses nas quais se acham
os capítulos contra a autoridade de seus bispos, são títulos suficientemente válido para fazer sofrer à
igreja o mal que lhe trazem as isenções.

 O costume (21) é uma regra enganosa; os maus costumes embora muito antigos são universalmente
condenados e todos aqueles que são contra o direito comum e que destroem uma ordem estabelecida por
constituições eclesiásticas, devem ser tidos por tais, e não podem ter o justo fundamento de prescrição
muito menos ainda no que diz respeito ao direito canônico, do que ao civil, visto que os estabelecimentos
da igreja tiram sua origem de um princípio mais seguro; e por tudo deve-se decidir a dificuldade
proposta, dizendo que o costume deve servir de título em tudo aquilo que pode ser possuído por direito

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comum, porém nunca naquilo cuja posse o viola, em cujo caso é inútil se não acompanhado de um título
tão autêntico que seja isento de toda suspeita. Daí resulta que o direito comum sujeitando todos os curas
aos seus bispos, não há costume suficientemente poderoso para os isentar de tal sujeição.

 É impossível de se imaginar os diversos males em que as isenções têm origem e causa. Elas
perturbam a ordem que a igreja estabeleceu de conformidade com a razão, que quer que os inferiores
sejam submetidos aos seus superiores.

 Elas arruinam a concórdia que deve existir entre o chefe e os seus membros, autorizam toda a sorte de
violências e tornam vários crimes impunes tanto na pessoa dos privilegiados quanto naquelas de muitos
libertinos que procuraram cobrir-se com a sua sombra.

 Pode-se remediar a este mal por dois meios, ou abolindo absolutamente todas estas isenções ou
tratando-se de as regular.

 Sei bem que o primeiro expediente, como o mais absoluto é mais difícil; mas não impossível; não o
deixo de propor a V. M. que sempre teve prazer em fazer aquilo que os seus predecessores não ousaram
sequer tentar.

 Não estimo entretanto a propósito lançar mão desse recurso no que diz respeito às isenções, das quais
gozam os religiosos e seus monastérios. Esparsos em diversas dioceses: a uniformidade do espírito que
deve regê-las, requer um lugar de governo por diversos bispos, cujos espíritos são diferentes, que sejam
governados por um só chefe regular, e nesse fundamento sustento audaciosamente que é tão necessário
deixá-lo na posse da legítima isenção de que goza, como é justo reconhecer a validade pelo exame da
bula, embora a estendam algumas vezes além do limite não permitido pela razão.

 Mas digo mais, que se pode abolir as outras isenções com tanto proveito para a igreja quanto este
motivo universal é suficiente para fazer desprezar os interesses particulares nesta ocasião.

 Basta que uma coisa seja justa, para que a gente seja levado a empreendê-la, e nesse caminho nos
obrigamos quando a coisa é necessária.

 A igreja tendo subsistido até o presente sem a mudança que proponho, não suponho que haja essa
última qualidade, mas digo que seria extremamente útil no que diz respeito a se tirar todo motivo que
escusa aos bispos se falhassem no preenchimento do seu cargo.

 Para se servir desse primeiro meio não seria necessário outra coisa senão uma revogação, feita por S.
Santidade, das isenções e privilégios de que tratamos, e um poder aos bispos de exercer a sua jurisdição
sobre seus capítulos e todos os isentos, com exceção daqueles que acima falei.

 Uma bula deste teor acompanhada de uma declaração de