testamento_politico
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Foi tão
hábil que conseguiu conquistar Henrique IX, que o chamava “mon éveque” (o meu bispo). Richelieu,
contudo, era inteligente demais para não compreender que a sua presença na corte, naquele momento,
não tinha maior sentido. Melhor voltar a Luçon, ser simplesmente bispo.

 O bispado de Luçon era um dos mais pobres da França. Graças à proteção do soberano, Richelieu
conseguiu torná-lo próspero, criando até uma biblioteca. Naqueles anos - que podem ser definidos como
de voluntário exílio - travou conhecimento com François Le Clerc du Tremblay, que passou para a
história sob o simples nome de “padre José”. Foi esse o início de uma amizade que se tornaria preciosa
para Richelieu, pois o padre José, que será mais tarde, chamado a “Eminência Parda”, tornou-se
indispensável a Richelieu, durante os 18 anos de poder do futuro cardeal. Por outro lado, o padre José,
tendo compreendido a inteligência do jovem bispo e desejando permanecer um simples capuchinho,
transferiu para ele ambições e desígnios.

 Em 1610 o rei Henrique IV morreu, assassinado por Ravaillac. Sua esposa, Maria de Médicis,
tornou-se regente, sendo seu filho, o futuro Luís XIII, ainda menor. O bispo de Luçon considerou que
uma mulher poderia ser conquistada mais facilmente do que um homem. Voltou para a corte, em Paris,
com intenções bem definidas. Conseguiu desde logo agradar a Maria de Médicis. A rainha, porém, tinha
junto de si duas pessoas poderosas e temíveis: Concini, marechal de Ancre, e sua esposa, Leonora
Galigai. Eram, ambos, florentinos como Maria, e haviam acompanhado a soberana até o dia de seu
casamento com Henrique IV. Leonora Galigai, inteligente e astuciosa, após ter sido companheira de
infância de Maria de Médicis, tinha-se transformado na sua conselheira principal. Concini era o favorito
da coroa. Um casal hábil e ávido: haviam conseguido poder e acumulado títulos e riquezas. Mas toda a
corte e toda Paris os detestavam. Armand du Plessis não hesitou em curvar-se perante Concini, ao qual
ofereceu, por carta, os seus serviços. Foi mal sucedido: o marechal era um vaidoso que se acreditava
invulnerável. Parece estranho que um homem inteligente como Richelieu não tivesse compreendido que

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seria mais fácil aproximar-se do jovem rei. Luís XIII era menosprezado pela mãe e pelos dois Concini,
que haviam prejudicado sua formação, tirando-lhe a oportunidade de instruir-se e de entrar em contato
com pessoas influentes e cultas. O pequeno Luís vivia isolado, mal nutrido, mal vestido: seus
passatempos eram a mecânica e a caça. Sua timidez natural, aumentada pela consciência de ser
propositalmente ignorado, chegava às raias da hipocondria. Amava a mãe, mas nunca a teve. E isso o
marcou profundamente.

 Richelieu compreendeu que adular Concini era tempo perdido. Abandonou a corte e voltou a Luçon:
outro exílio voluntário que padeceu cerrando os dentes, assaltado por depressões terríveis e acessos de
febre. Em 1615, porém, após o casamento do rei de 14 anos com Ana da Áustria, foi chamado novamente
à corte, na qualidade de confessor da jovem rainha. E em 1616 recebeu o primeiro cargo político: foi
nomeado secretário de Estado para os negócios exteriores. Era o início da escalada.

 Sua vida na corte não foi fácil. Apesar de toda sua habilidade, não conseguia agradar Ana da Áustria.
E continuava a adular Maria de Médicis e a confidente Leonora Galigai. Estava na flor da idade: alto,
elegante, o rosto triangular iluminado por belos olhos negros. Com seu longo hábito roxo, suas maneiras
decididas, mais de soldado que de bispo, agradava às mulheres. E não era, com certeza, uma época em
que a condição de religioso impedisse relações amorosas. Muitos historiadores afirmam que Armand du
Plessis foi amante tanto de Maria de Médicis, quanto de Leonora Galigai. A acusação é plausível.
Richelieu sabia aproveitar as oportunidades. E quando o seu interesse assim o aconselhou, abandonou a
menos importante das duas mulheres, embora ela fosse, devido à sua inteligência, a mais perigosa:
Leonora Galigai. Maria de Médicis era inconstante, teimosa e violenta. Mas era a rainha-mãe. Richelieu
não a deixou nem no momento mais difícil da sua vida, quando o marechal de Ancre foi condenado à
morte por ordem de Luís XIII. n O jovem rei sofria vendo que ninguém lhe dava importância. O favorito
da mãe governava com arrogância; os cortesãos, odiando-o, obedeciam, pois não tinham o menor
respeito pelo rei de 16 anos. Em abril de 1617, Luís XIII tornou uma decisão: se queria ser o rei, devia
derrubar Concini. Mas como? Não tinha ao seu lado homens de confiança: seu conselheiro e favorito, o
homem do qual gostava mais do que de sua jovem a esposa, o duque de Luynes - belo, efeminado, fraco
e sem idéias - não seria capaz de grandes gestos. O rei teve uma crise atormentada de dúvidas, mas
depois, como todos os tímidos, tomou a atitude mais drástica: matar Concini, pois nem o exílio, nem o
cárcere, seriam suficientes para torná-lo inofensivo. Chamou o comandante da sua guarda, Vitry, e
deu-lhe ordem de prender o marechal. Vitry odiava Concini. Perguntou: “E se ele o se rebelar?” Luís
XIII respondeu: “Capitão, não conheceis vosso dever?”

 No dia estabelecido para a operação, Vitry, com uma escolta de oficiais armados, esperou que Concini
o atravessasse, como era seu costume, a ponte do palácio do Louvre que levava aos aposentos de Maria
de Médicis. Aproximou-se então dele. O marechal, atrevido, elegante, coberto de jóias, vinha lendo uma
carta. Levantou os olhos e observou distraidamente Vitry. Este, agarrando-o pelo braço, falou: “Em nome
do rei, devo prendê-lo”. Concini, espantado, esqueceu o francês e exclamou em italiano: “A me?”

 Mal tinha terminado quando os oficiais sacaram suas pistolas e atiraram a queima-roupa no rosto do
favorito, atravessando-o depois com suas espadas.

 Luís XIII havia acompanhado a cena de uma janela. Virou-se para os presentes e bradou: “Agora sou
o rei de verdade!...” Uma aclamação explodiu: “Viva o rei!” A multidão que se formara perto das portas
do Louvre entrou, apoderou-se do corpo de Concini e arrastou-o pelas ruas de Paris, despedaçando-o.

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 Leonora Galigai foi surpreendida em seus aposentos pelos homens armados. Compreendendo o que se
passava, teve um ataque histérico. Os olhos revirados, a boca espumando, contorcia-se na cama, debaixo
da qual escondia suas jóias, muitas delas pertencentes à coroa. As contorções, os gritos, confirmaram a
suspeita de que fosse bruxa. E como bruxa foi processada e queimada em praça pública.

 Maria de Médicis viu-se exilada pelo filho. Richelieu seguiu-a. Por conselho do duque de Luynes,
recebeu esta missão de Luís XIII, que pouco o apreciava, mas conhecia seu talento. Em Blois, o castelo
em que Maria foi presa, Richelieu fez duplo jogo: espionava a rainha e mantinha Luynes a par de todos
os seus movimentos. Na sombra, o padre José tramava para desfazer as desconfianças de Luís XIII que,
embora apegado à mãe, temia-a e queria mantê-la afastada do trono. Richelieu deveria ser o seu agente.
Maria de Médicis já próxima da idade crítica, ainda bela, gorducha e corada, não era insensível aos
encantos do bispo, mas não esquecia que era uma Médicis. Ao seu lado, amargando frustrações, pois
devia tratar com uma mulher teimosa e violenta, Richelieu procurava ganhar os ouvidos de Luís XIII,
denunciando os complôs da rainha-mãe. Não conseguia vencer as resistências nem a antipatia do rei
porque Luynes, que ambicionava ser o homem mais poderoso da França, tornou-se seu inimigo. Apesar
de sua pouca inteligência, Luynes havia avaliado a força intelectual e a ambição de Richelieu.

 Combateu-o e, de acordo com o rei, impediu que, a pedido de Maria de Médicis, fosse nomeado
cardeal. Richelieu, de fato, só conseguiu vestir a púrpura cardinalícia após o falecimento