testamento_politico
182 pág.

testamento_politico

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e os espíritos possam substituir com facilidade,
do que empreendê-las tão austeras que os mais fortes espíritos e os corpos os mais robustos tenham
dificuldade em suportar-lhes o rigor: as coisas temperadas são de ordinário estáveis e permanentes, mas é
preciso uma graça extraordinária para fazer subsistir o que parece forçar a natureza.

 É ainda de notar que a reforma das religiões neste reino deve ser diferente da dos outros Estados, os
quais estando isentos de heresias, requerem antes uma profunda humildade e uma simplicidade exemplar
nos religiosos, que a doutrina absolutamente necessária neste reino, no qual a ignorância dos mais
virtuosos religiosos do mundo pode ser tão prejudicial a algumas almas que têm necessidade da sua
erudição, como o seu zelo e a sua virtude são úteis a outrem e a eles mesmos.

 Devo dizer de passagem, a este respeito, que no que concerne particularmente à reforma dos
mosteiros de mulheres, é um expediente nem sempre infalível o de remeter as isenções, e particularmente
as trienais ao lugar da nomeação do rei.

 As brigas e as facções que tomam pé na fraqueza deste sexo são tão grandes algumas vezes, que se
tornam insuportáveis; vi por duas vezes V. M. ser obrigado a tirá-las dos lugares onde havia colocado, a
fim de pôr as coisas no seu primitivo estado.

 Como é da piedade de V. M. trabalhar no regulamento das antigas religiões é de sua prudência
impedir o muito grande número de novos mosteiros que se estabelecem todos os dias.

 Isso é preciso; desprezando-se a opinião de certos espíritos, tão fracos quanto devotos e mais zelosos
do que prudentes, que estimam freqüentemente que a salvação das almas e do Estado depende daquilo
que é prejudicial a ambos.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (52 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

 Assim seria preciso ser ou mau ou cego, para não ver e não confessar que as religiões não são
somente úteis mas mesmo necessárias; também é preciso estar prevenido de um zelo excessivamente
indiscreto, para não conhecer que o excesso é incômodo e poderia chegar a um tal ponto que se tornasse
ruinoso.

 O que se faz pelo Estado, fazendo-se por Deus que é dele a base e o fundamento; reformando as casas
já estabelecidas, evitando excesso de novos estabelecimentos, seriam duas obras agradáveis a Deus, que
quer regra em todas as coisas.

SEÇÃO IX
Da obediência que se deve ao papa.

 A ordem que Deus quer que seja observada em todas as coisas, me dá azo a representar aqui a V. M.
que assim como os príncipes são obrigados a reconhecer a autoridade da igreja e se submetem ao seu
santo decreto, mostrando inteira obediência no que concerne ao poder espiritual que Deus lhe pôs em
mãos para salvação dos homens, e que assim como é do seu dever manter a honra dos papas como
sucessores de S. Pedro e vigários de Jesus Cristo, assim também não devem ceder à sua imposição se
querem estender o seu poderio além de tais limites.

 Se os reis são obrigados a respeitar a tiara do Sumo Pontífice eles também o são de conservar o poder
da sua coroa.

 Essa verdade é reconhecida por todos os teólogos, mas não há pouca dificuldade em bem distinguir a
extensão e a subordinação desses dois poderes.

 Em tal matéria não se deve crer nem nos palacianos que medem de ordinário o que diz respeito ao rei,
pela forma da sua coroa, que sendo redonda não tem fim; nem aqueles que por excesso de um zelo
indiscreto tornam-se abertamente partidários de Roma.

 A razão quer que se estenda uma e outra para resolver em seguida as dificuldades por pessoas tão
doutas que não possam enganar-se por ignorância; e tão sinceras que nem os interesses do Estado nem os
de Roma, possam dominar-lhes a razão.

 Posso dizer com verdade ter sempre achado os doutores da faculdade de Paris, e os mais sábios
religiosos de todas as ordens tão razoáveis nesse ponto, que não lhes encontrei nenhuma fraqueza que
lhes impedisse defender os justos direitos deste reino; também nunca notei neles nenhum excesso de
afeição pelo seu país natal que os levasse a querer cortar os verdadeiros sentimentos da religião, diminuir
aqueles da igreja para aumentar os outros.

 Em tais ocasiões as opiniões dos nossos padres, devem ser de grande peso; os historiadores e os mais
célebres autores desprovidos de paixão, que escreveram em cada século, devem ser consultados

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (53 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

cuidadosamente, sobre os assuntos nos quais nada nos pode ser tão contrário quanto a fraqueza ou a
ignorância.

SEÇÃO X
Que esclarece o estado que se deve fazer das letras e mostrar como elas devem ser ensinadas neste
reino.

 A ignorância que venho de representar ser algumas vezes prejudicial ao Estado dá-me lugar a falar
das letras, um dos maiores ornamentos dos Estados; e devo fazer neste lugar, pois que o seu império é
justamente devido à Igreja; em vista de que toda a sorte de verdades têm natural relação com a primeira,
dos sagrados mistérios da qual a sapiência eterna quis que a ordem eclesiástica fosse depositária.

 Como o conhecimento das letras é completamente necessário numa república, é certo que elas não
devem ser indiferentemente ensinadas a todo o mundo.

 Assim como um corpo que tivesse olhos em todas as suas partes seria monstruoso, da mesma forma
um Estado o seria se todos os seus súditos fossem sábios; ver-se-ia aí tão pouca obediência, quanto o
orgulho e a presunção seriam comuns.

 O comércio das letras baniria absolutamente o das mercadorias que cumula os Estados de riquezas;
arruinaria a agricultura, verdadeira mãe dos povos; e faria desertar em pouco tempo as massas de
soldados, que surgem antes na rudeza da ignorância do que na polidez da ciência: enfim, encheria, a
França de chicanistas, mais próprios a arruinar as famílias particulares e a perturbar o repouso público,
do que a conquistar bens para o Estado.

 Se as letras fossem profanadas por toda a sorte de espíritos, ver-se-ia mais gente capaz de formular
dúvidas do que de resolvê-las e muitos seriam mais próprios a opor-se à verdade que a defendê-la.

 É nesta consideração que os políticos num Estado bem regulado querem mais mestres em artes
mecânicas do que mestres em artes liberais, para ensinar as letras.

 Freqüentemente vi, pela mesma razão, o cardeal Du-Perron, desejar ardentemente a supressão de uma
parte dos colégios deste reino; ele desejava fazer estabelecer quatro ou cinco célebres em Paris e dois em
cada cidade metropolitana de províncias.

 Acrescentava a todas as considerações expostas, que era impossível que se achasse, em cada século,
gente suficientemente sábia para encher a multidão de colégios; enquanto que se se contentassem todos
em ter número moderado, eles poderiam ser cheios de dignos cidadãos que conservariam o fogo do
templo na sua pureza e que transmitiriam por sucessão ininterrupta a ciência na sua perfeição.

 Parece com efeito, quando considero o grande número de gente que faz profissão de ensinar as letras e

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (54 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

a multidão de crianças que se faz instruir, que vejo um número infinito de doentes que não tendo outro
destino senão beber água pura e clara para sua cura, estivesse com sede tão desregrada que tomando
indiferentemente todas as águas que se lhes apresentassem, a maior parte beberia linfa impura e
freqüentemente em vasos envenenados, o que aumentaria a sua sede e o seu mal em lugar de aplacá-los.

 Enfim, desse grande número de colégios indiferentemente estabelecidos em todos os lugares, provêm
dois males: um vem da medíocre capacidade dos que são obrigados a ensinar, não sendo possível
encontrar gente eminente para encher as cadeiras; outro pela pouca disposição natural que têm pelas
letras muitos daqueles cujos pais os fazem estudar; por causa da comodidade que encontram sem que o
alcance