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dos seus talentos seja examinado, daí vem que quase todos aqueles que estudam ficam com uma
medíocre tintura de letras; uns por não serem capazes de mais e outros por mal instruídos.
 Embora este mal seja de grandes conseqüências, o remédio não é difícil, pois que não é preciso outra
coisa senão reduzir todos os colégios das cidades que não são metropolitanas a duas ou três classes
suficientes para tirar a juventude de uma ignorância grosseira tão prejudicial àqueles mesmos que
destinam sua vida às armas ou que querem empregá-la no comércio.
 Por esse meio, antes que os meninos sejam determinados a alguma condição, dois ou três anos farão
conhecer o alcance do seu espírito: em seguida os que são bons, sendo remetidos para as grandes cidades,
terão resultados tanto melhores quanto mais gênio tiverem para as letras e sendo instruídos pelas
melhores mãos.
 Tendo sido evitado esse mal muito maior do que parece, é preciso ainda garantir-se de um outro, no
qual a França cairia sem dúvida, se todos os colégios que estão estabelecidos estivessem numa mesma
mão.
 As faculdades pretendem que ficam prejudicadas não se lhes deixando privativamente a faculdade de
ensinar à mocidade.
 Os jesuítas de outro lado não ficariam aborrecidos se ficassem com o monopólio desta função.
 A razão que deve decidir de toda a sorte de disputas não permite frustar um antigo possuidor daquilo
que possui com bom título: e o interesse público não pode sofrer que uma companhia não somente
recomendável por sua piedade, mas célebre por sua doutrina, como é a dos jesuítas, seja privada de uma
função da qual pode encarregar-se com grande utilidade para o público.
 Se as universidades ensinassem sós, seria de temer que com o tempo elas voltassem ao orgulho que
tiveram antigamente e que poderia ser para o futuro tão prejudicial, quanto o foi para o passado.
 Se de outro lado os jesuítas não tivessem companheiros na instrução da mocidade, além de que se
poderia temer o mesmo inconveniente, ter-se-ia justo motivo de temer vários outros.
 Uma companhia que se governa mais do que nenhuma outra pelas leis da prudência e que dando-se a
Deus sem se privar do conhecimento das coisas do mundo vive numa tão perfeita correspondência, que
parece que o mesmo espírito anima a todos os corpos: uma companhia que está submetida por um voto
de obediência cega a um chefe perpétuo não pode, segundo as leis de uma boa política, receber muita
Testamento político.
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autoridade num Estado, no qual uma comunidade poderosa deve ser temível.
 Se é verdade como é coisa certa, que é agradável contribuir para o progresso daqueles dos quais se
recebe a primeira instrução e que os pais têm sempre particular afeição por aqueles que ensinam aos seus
filhos, também é verdade que não se poderia dar aos jesuítas o encargo da educação completa dos
meninos sem expor-se a dar-lhes um poder tanto mais suspeito ao Estado quanto todos os cargos e os
graus de que se lhe desse o manejo, seriam enfim cheios da sua disciplina e aqueles que desde cedo
tivessem ascendente sobre os seus espíritos por certo continuariam a tê-los por toda a vida.
 Se se acrescenta que a administração do sacramento da penitência dá a essa companhia autoridade
sobre toda a sorte de pessoas, o que não é de menos peso do que a primeira instrução; se se considera que
por esses dois caminhos eles penetram o mais secreto movimento dos corações e das famílias, será
impossível não concluir que eles não devem ficar sós no ensino e no ministério de que se trata.
 Estas razões foram tão poderosas em todos os Estados, que não vemos nenhum que tivesse querido até
o presente, deixar o império das letras, e toda a instrução de sua mocidade somente a essa companhia.
 Essa sociedade, boa e simples em si mesma, deu tanto ciúme ao arquiduque Alberto, príncipe dos
mais piedosos da casa d'Áustria, e que não agia senão por instigação do conselho de Espanha, que ele não
temeu excluí-la de certa universidade em que se havia estabelecido na Flandres, e de opor-se aos
estabelecimentos novos que quis realizar na mesma região.
 Se ela deu lugar a certa república de afastá-la por completo de seu domínio embora com rigor
excessivo, o menos que se pode fazer neste reino será dar-lhe alguma coisa, visto que ela é não somente
submissa a um chefe perpétuo estrangeiro, mas que além disso está sujeita e sempre dependente de
príncipes que parecem não ter nada em maior recomendação do que o rebaixamento e a ruína desta
coroa.
 Assim como em matéria de fé todos os católicos do mundo não têm senão uma doutrina no que não
lhes concerne, há muitas diferentes cujas máximas fundamentais têm origem naquela; isto faz que,
havendo necessidade de teólogos que possam em certas ocasiões defender corajosamente as opiniões que
em todos os tempos foram aí recebidas e conservadas por transmissão não interrompida, é preciso que
seja destacada de todo o poder suspeito e que não tenha dependência que o prive de liberdade quanto às
coisas quais a fé a todo o mundo.
 A história nos ensina que a ordem de S. Benedito foi tão absolutamente senhora das escolas que em
nenhum outro lugar se ensinava e isto fez decrescer tão completamente a ciência e a piedade no X século
da igreja que foi chamado desgraçado quanto a este assunto. Ela nos ensina ainda que os dominicanos
tiveram em seguida as mesmas vantagens que esses bons padres primeiro possuíram e que o tempo lhes
privou como aos outros com grande prejuízo da igreja, que se encontrou então infestada de muitas
heresias: da mesma forma ela nos ensina que com as letras se deve agir como com as aves de arribação:
não se deve sempre parar num mesmo lugar. A prudência política quer que se previnam tais
inconvenientes que, tendo sobrevindo duas vezes, devem ser temidos com justa razão para terceira que
provavelmente não virá se essa companhia tiver companheiros na posse das letras.
 Todo o partido é perigoso em matéria de doutrina e nada é tão fácil quanto formar um sob pretexto de
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piedade quando uma companhia pensa estar obrigada a ele por interesse de sua subsistência.
 A história do papa Benedito XI, contra o qual os Cordeliers espicaçados quanto ao motivo da
perfeição da pobreza, isto é, da renda S. Francisco, animaram-se a tal ponto que não somente eles lhes
fizeram abertamente a guerra pelos livros mas pelas armas do império, à sombra das quais um antipapa
se elevou, constituiu grande prejuízo para a igreja, sendo este um exemplo muito poderoso para que se
diga alguma coisa mais.
 Mais uma companhia é fiel ao seu chefe, mais ela deve ser temida, particularmente por aqueles aos
quais ela não é favorável.
 Pois que a prudência não obriga somente a impedir que se perturbe ao Estado, mas também que se lhe
possa perturbar; porque muitas vezes ter o poder faz nascer a vontade.
 Pois que também, a fraqueza da nossa condição humana requer um contrapeso em todas as coisas, o
que é o fundamento da justiça. É mais razoável que a universidade e os jesuítas ensinem cada um do seu
lado, a fim de que a emulação aumente a sua virtude e que as ciências sejam tanto mais asseguradas no
Estado, quanto, sendo depositadas nas mãos dos seus guardadores, se uns perderem um tão sagrado
depósito, o mesmo estará a salvo em outras mãos.
 
SEÇÃO XI
Meios de regular os abusos que cometem os graduados na obtenção dos benefícios.
 Porque assim como é de temer que toda a sorte de espíritos sejam levados às letras, é de se desejar que
os bons por elas sejam atraídos. V. M. não poderia fazer uma coisa mais útil para este fim do que impedir
os abusos que se cometem na distribuição dos benefícios que devem ser feitos àqueles aos quais são
devidos como recompensa dos seus trabalhos.
 Seria preciso ser inimigo das letras e da virtude para