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duvidar desse direito. (27)

 O concílio de Basiléia (28) e a concordata que foi passada em seguida ao concílio de Latrão entre
Leão X e Francisco I o estabelecem muito claramente para que haja este pensamento; seria preciso ser
muito contrário à justiça e à razão, para não se querer corrigir abusos tão grandes pelas permutas
fraudulentas, pela resignação suposta, pelos artifícios dos coletores e pela autoridade dos indultários,
mais poderosos do que os graduados e pela indústria daqueles que não devem o seu grau senão à sua
bolsa. Pois que é o que falta, seja agora esse privilégio prêmio da virtude, quando é somente do artifício e
da má fé daqueles que sendo ignorantes em letras, são doutos e sábios em chicana.

 O verdadeiro remédio deste mal consiste em fazer que conformemente aos santos cânones, os
doutores e licenciados em teologia, sejam preferidos a todos aqueles que tiverem o mesmo grau em
outras faculdades.

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 Que entre os teólogos iguais em grau àqueles que tiverem pregado por muito tempo a palavra de Deus
ou a teologia, sejam providos antes dos outros.

 Que os doutores e licenciados em direito tenham a mesma vantagem sobre os simples mestres em
artes e que entre estes últimos se prefiram aqueles que tiverem regido muito tempo.

 Que nenhum possa receber essas cartas de mestres em artes nem seu grau em direito civil e canônico,
senão na universidade onde tiverem estudado.

 Que não se dê carta de mestrança, senão àqueles que tiverem atualmente feito seu curso inteiro de
filosofia; em nenhum grau em direito civil e canônico, senão àqueles que tiverem estudado três anos na
escola de direito e que tiverem realizado publicamente seus atos com os intervalos de tempo requeridos.
Se forem observadas cuidadosamente estas ordens, ver-se-á seguramente o mérito das letras ter prêmio e
a ignorância não poderá mais cobrir-se com seu manto, para receber sob sua capa aquilo que não lhe é
devido.

 Se em seguida V. M. livrar aqueles que se tiverem tornado célebres nas letras, pela perseguição dos
indultários, ela fará que muitos redobrem os seus trabalhos para receber o fruto que merecem.

SEÇÃO XII
Do direito de indulto.

 O direito de indulto tem sua força e sua origem numa bula do papa Eugênio (29) que não se encontra;
e quem a quisesse examinar com rigor, acharia que o fundamento não é sólido, pois a razão quer que se
ponham as coisas que não podem ser verificadas e aquelas que não tem fundamento em igual categoria.

 Sei bem que Paulo III querendo obrigar os presidentes e conselheiros do parlamento de Paris (30) que
se opunham à verificação da concordata, deu-lhes poder de nomear para os benefícios, tanto regulares,
quanto seculares. Sei ainda, bem, que o chanceler de França, como chefe dessa companhia, recebeu igual
privilégio, pela mesma bula. Mas se se considera que essa bula aufere suas virtudes daquela que seu
predecessor tinha e que não se encontra, essa consideração não terá força, pois que os jurisconsultos
ensinam claramente que uma relação não pode fazer fé se a coisa relatada não é clara e evidente (31).

 Menos o fundamento desse privilégio é certo, mais os abusos que se cometem são insuportáveis.

 Embora esse direito seja pessoal; não tendo sido concedido senão à pessoa dos oficiais especificados
pela bula do papa Paulo II, passa agora à viúva e aos herdeiros como se fosse uma herança temporal; e
ainda que essa graça não lhes tivesse sido feita, a fim de gratificar legitimamente seus filhos, ou alguns
dos seus parentes ou de seus amigos, capazes dos benefícios aos quais seriam nomeados, eles
freqüentemente forçam contra as leis divinas e humanas àqueles que obtêm benefícios em virtude dos

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seus indultos, de os resignar em quem bom lhes parecer, abusando até tal ponto deste privilégio, que
freqüentemente aqueles que não querem ser delatores não podem evitar este crime, senão por outro que
os torna culpados de simonia diante de Deus.

 A fraqueza do fundamento desta graça e a quantidade (32) de abusos que se cometem, poderão dar
lugar legítimo a V. M. de a abolir, o que seria tanto mais fácil quanto não precisaria outra coisa para esse
fim, senão recusar para o futuro aos indultários suas cartas de nomeação, sem as quais não pudessem
pretender nenhum benefício; mas a experiência nos fazendo conhecer que um mal a que se está
acostumado é freqüentemente mais suportável do que um bem cuja novidade incomoda, V. M. deve se
contentar com fazer um tão bom regulamento, que aqueles que devem gozar desta graça, não possam
abusar dela para o futuro, como o fizeram no passado.

 Se impede que um mesmo oficial possa ter sua nomeação sobre vários benefícios, faz que aquele
apresentado para ser nomeado não o possa ser, senão após um bom exame feito pelas ordenações, sem
favor.

 Se ela ordena que as cartas de nomeação tragam termos expressos; que os benefícios aos quais são
nomeados sejam realmente para eles; como eles não podem ser constrangidos a resignar em favor de
ninguém, e que se forem descobertos, ficarão como criminosos; além do que eles ficam, por um tal
crime, incapazes de receber nunca mais, benefícios, ficando sujeitos a castigos.

 Se em seguida se impede que este direito que não é pessoal seja transmitido aos herdeiros, a
observação de um tal regulamento fará que vossos oficiais não sendo privados da graça que vossos
predecessores lhes fizeram obter, os intelectuais receberão uma grande vantagem sob vosso reino e
estarão livres de um grande vexame.

 Poder-se-ia ainda não permitir aos oficiais que tiverem nomeado um homem para um indulto, que o
substitua pondo outro no lugar, se morrer antes do preenchimento.

CAPÍTULO III
DA NOBREZA

SEÇÃO I
Diversos meios de elevar a nobreza e fazê-la subsistir com dignidade

 Depois de ter representado o que estimo absolutamente necessário para o restabelecimento da
primeira ordem do reino, passo à segunda e digo que é preciso considerar a nobreza como um dos
principais nervos do Estado, capaz de contribuir muito para sua conservação e seu estabelecimento. Ela
foi desde algum tempo tão rebaixada pelo grande número de oficiais que a desgraça do século elevou
para seu prejuízo que tem agora grande necessidade de ser mantida contra as ações de tal gente.

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 A opulência e o orgulho de uns amargam a necessidade dos outros que não são ricos senão em
coragem, o que os leva a empregar livremente a sua vida para o Estado do qual os oficiais tiram os seus
meios de existência.

 Como precisam se manter contra aqueles que os oprimem é preciso haver um cuidado particular de
impedir que não tratem aos que estão abaixo deles como são tratados pelos outros.

 É um defeito muito freqüente naqueles que são nascidos nesta ordem usar de violência contra o povo
a que Deus parece mais ter dado braços para ganhar a sua vida, do que para defendê-la.

 É muito importante impedir o curso de tais desordens por uma severidade contínua, que faça crer que
os que são fracos, embora desarmados tenham à sombra das leis tanta segurança quanto aqueles que têm
armas nas mãos.

 A nobreza tendo testemunhado na guerra, felizmente terminada pela paz, que era herdeira da virtude
dos seus antepassados, o que deu lugar a César de preferi-la a todas as outras; há necessidade de
discipliná-la de sorte que possa adquirir de novo e conservar sua primeira reputação, e que o Estado seja
utilmente servido.

 Aqueles que sendo prejudiciais ao público não lhe são úteis, é certo que a nobreza não lhe servindo na
guerra não é somente inútil, mas uma carga ao Estado, que nesse caso pode ser comparado ao corpo que
suporta o braço político, ou com um fardo que o carrega em lugar