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de aliviá-lo.

 Como os fidalgos merecem ser bem tratados quando fazem o bem, é preciso ter com eles severidade,
se faltam àquilo que o seu nascimento os obriga; e eu não ponho nenhuma dificuldade em dizer que
aqueles que degeneram da virtude de seus avós, não servem a coroa com sua espada e sua vida, com a
constância e firmeza que as leis do Estado requerem, careceriam ser privados das vantagens do seu
nascimento e reduzidos a carregar uma parte do fardo do povo.

 A honra lhes devendo ser mais cara do que a vida, valeria a pena castigá-los com a privação de uma
antes do que da outra.

 Tirar a vida a pessoas que a expõem todos os dias, por pura imaginação de honra, é muito menos do
que tirar-lhes a honra deixando a vida, que neste caso lhes seria um suplício perpétuo.

 Se é preciso nada esquecer para manter a nobreza na verdadeira virtude dos seus pais, nada se deve
omitir para conservá-la na posse dos bens que aqueles lhes deixaram, e também se deve dar-lhes meios
para que possam adquirir novos.

 Assim como é impossível achar um remédio a todos os males, assim também é muito difícil de
encontrar um expediente geral aos fins a que me proponho.

 Os diversos casamentos que se fazem neste reino em cada família, em lugar de que sejam como em
outros Estados, não há aqui senão o mais velho que se casa; essa é uma das verdadeiras razões porque as
mais poderosas famílias se arruinam em pouco tempo. Mas se esse costume empobrece as famílias

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particulares, enriquece de tal forma o Estado cuja força consiste na multidão de gente de trabalho, que
em lugar de se queixar, dever-se-ia louvar e em lugar de trocar esse costume devia o Estado dar meios de
subsistência, decente e corajosa àqueles que põem no mundo.

 Neste assunto devem ser distinguidas a nobreza que está na corte daquela que está na campanha.

 Aquela que está na corte será notavelmente aliviada se se cortar o luxo e as insuportáveis despesas
que se introduziram pouco a pouco, sendo certo que uma tal disciplina será mais útil do que todas as
pensões que se lhes dá.

 Quanto à nobreza de campanha, embora ela não receba tanta ajuda nesse sentido porque a sua miséria
não lhe permite fazer despesas supérfluas, não deixará de ressentir o efeito desse remédio tão necessário
a todo o Estado que só ele pode evitar a sua ruína.

 Se V. M. acrescenta nas regras com que deseja pôr fim a tal desordem, o estabelecimento de 50
companhias de gendarmes, e de igual número de cavaleiros, pagos nas províncias, nas condições que são
especificadas adiante, não dará poucos meios com que a subsistência da nobreza seja suprida sem
dificuldade.

 Se em seguida ela suprime a venalidade dos governos do reino e de todos os cargos militares, que essa
ordem paga suficientemente com o preço do seu sangue; se pratica da mesma forma no que concerne aos
cargos da sua casa; se ela faz com que a entrada seja interdita aos que não são de nascimento nobre em
lugar de fazer como hoje que todas as pessoas nela sejam recebidas por suja transação de dinheiro; se ela
não estiver mais aberta àqueles mesmos que tiverem essa vantagem senão por escolha que V. M. fizer em
consideração do seu mérito, toda nobreza receberá utilidade e honra, tudo junto, de regras tão boas.

 Em lugar de como agora os fidalgos não poderem elevar-se aos cargos e dignidades senão ao preço da
sua ruína, sua fidelidade ficará tanto mais assegurada para o futuro, que, quanto mais eles forem
gratificados, menos eles se acreditarão credores das honras que devem às suas bolsas e àquelas dos seus
credores, que não lhes fazem lembrar nunca daquilo que se lhes deve, sem que tenham desgosto de serem
elevados por esse meio.

 Se além disso, sua bondade se estende até a querer cuidadosamente gratificar aos seus filhos, (que
merecem a real piedade) com uma parte dos benefícios que são da sua bolsa, essa ordem lhe será tanto
mais obrigada, quanto descarregando-a de uma parte que a esmaga, se lhe daria o verdadeiro meio de
manter as suas casas, pois que o sustento e a conservação das melhores, depende freqüentemente
daqueles que tomando a vida eclesiástica, consideram voluntariamente seus sobrinhos como seus filhos,
e não têm maior contentamento do que fazê-los educar, alguns nas letras e outros na virtude, para
poderem tornar-se capazes de encarregar-se daquilo que possuem.

 Poder-se-ia adiantar muitas outras coisas para o alívio da nobreza; mas deixo de esclarecer tais
pensamentos; considero que assim como é muito fácil escrevê-los, seria difícil, talvez impossível de os
pôr em prática.

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SEÇÃO II
Que trata dos meios de evitar os duelos.

 Foram feitos vários editais para impedir os duelos, sem que até o presente se tivesse qualquer fruto
como se esperava, e se desejava; tanto é difícil encontrar um meio seguro para impedir a continuação
desse flagelo.

 Os franceses desprezam de tal forma suas vidas que a experiência nos mostra que as penas mais
rigorosas nunca foram as melhores para fazer parar o seu frenesi.

 Várias vezes estimaram que havia mais glória em violar os editais, quanto faziam ver por uma tal
extravagância, que a honra lhes era um bem mais recomendável do que a vida, sendo menos capazes de
expor-se a perder as suas comodidades sem as quais não podem viver felizes neste mundo, do que morrer
sem a graça de Deus, sem a qual serão desgraçados no outro; o temor de perder seus cargos, seus bens, e
sua liberdade, faz mais efeito sobre seus espíritos do que o de perderem a vida.

 Nada esqueci do que me foi possível para encontrar algum remédio próprio à cura deste perigoso mal.
Freqüentemente consultei para saber, se assim como é permitido aos reis, fazer que dois particulares se
batam para evitar uma batalha, e decidir por esse meio a contenda que lhes pôs as armas nas mãos, não
poderiam também dar licença para alguns combates para evitar a multidão de duelos que têm lugar todos
os dias: dizia que havia grande esperança de que se pudesse por esse meio garantir a França desse frenesi
que lhe causa tanto mal, visto que a espera da licença de combate àqueles que tivessem justo motivo de a
pretender, cada um se submeteria voluntariamente aos juizes deputados para conhecerem a qualidade de
suas ofensas; o que impediria aparentemente a desgraça dos duelos, visto que poucas querelas haveria
que não pudessem ser terminadas por um bom acordo.

 Acrescentava para favorecer a esse pensamento, que outrora se haviam permitido vários duelos neste
reino, o que era praticado também em outros Estados.

 Estimava ainda que se poderia por esse meio abolir o uso da barbaria que quer que todo homem
ofendido se faça justiça por si mesmo, e encontre a sua satisfação no sangue do seu inimigo. Mas depois
de ter lido e relido o que outros autores mais autênticos dizem sobre esse importante assunto e pensado
várias vezes sobre esta matéria tão importante, achei, pelo critério dos menos escrupulosos e mais
resolutos teólogos do tempo, que os reis sendo estabelecidos para conservar os seus súditos e não para os
perder, não podem expor suas vidas sem alguma utilidade pública ou necessidade particular; como eles
não podiam permitir os combates particulares sem expor o inocente a receber a pena dos culpados, visto
que Deus não se tendo obrigado a tornar a razão sempre vitoriosa, a sorte das armas é incerta; e que
embora tais permissões tenham algumas vezes sido autorizadas pelo menos em diversos Estados, e
mesmo do consentimento de algumas igrejas particulares, elas sempre foram abusivas; o que parece bem
evidente, pois que enfim a igreja universal as proibiu e condenou sob grandes penas; reconheci que havia
grande diferença entre fazer-se bater a dois particulares para evitar uma batalha e acabar uma guerra, e
fazê-los bater-se para evitar os