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duelos.

Testamento político.

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 O primeiro é permitido porque a natureza nos ensina que as partes devem expor-se pelo todo, e que a
razão quer que o particular se arrisque pelo geral; porque além de que esse expediente foi praticado em
todos os tempos, encontram-se exemplos na santa escritura, e seu efeito é são e certo, seja qual for o
desfecho de um duelo, permitido neste caso, ele salva a vida a um grande número de pessoas que podem
servir o público em outras ocasiões.

 Mas não se dá o mesmo do segundo, que é ilícito por sua natureza, pois que em lugar de salvar
certamente o geral, com risco de alguns particulares, e assim garantir de um maior mal por um menor, ele
expõe determinadamente os particulares à sua perda, imaginando uma utilidade pública que não tem
fundamento certo; esse meio é tanto menos recomendável quanto, em lugar de impedir a continuação dos
duelos, ele é capaz de aumentar-lhes a licença; porque a cegueira da nobreza é tão grande que muitos
estimam que, pedir o combate por tal jeito, seria procurar o meio de não se bater, excitando a vaidade a
tomar um caminho mais curto para tirar razão de suas injúrias dando provas de coragem.

 O rei defunto quis em 1609 recorrer a este expediente com todas as circunstâncias que ele podia fazer
valer: privava dos bens, dos cargos e da vida aqueles que se batiam sem ter obtido prévia licença; mas
tudo foi inútil: e foi o que obrigou a V. M. depois da mesma experiência, no começo do seu reino, a
recorrer pelo seu édito do mês de março de 1626 a um outro remédio que teve tanto mais efeito quanto as
penas, por serem mais moderadas, são mais apreciáveis para aqueles que fazem menos caso da sua vida
do que dos seus bens e de sua liberdade.

 Sendo as melhores leis do mundo inúteis se não se faz que sejam observadas inviolavelmente,
freqüentemente aqueles que caem nesse gênero de falta usam tantos artifícios para evitar as provas que é
coisa sempre impossível de os tornar convictos.

 Não temo dizer a V. M. que não é suficiente punir os apelos e os duelos averiguados com o rigor dos
seus éditos, mas quando houver notoriedade sem provas, deveis tomar os delinqüentes, e pô-los
prisioneiros a suas expensas por mais ou menos tempo segundo as diversas circunstâncias de suas faltas;
de outra forma a negligência de que usam os procuradores gerais a informar, a indulgência do
parlamento, e a corrupção do século é tal, que cada um estima tanto a honra de ajudar a esconder os
crimes dos que se bateram, quanta vergonha teria um gentil-homem de encobrir o roubo de um ladrão,
tornando reais éditos e seus cuidados inúteis. É um tal caso, onde somente a via de fato pode fazer
observar as leis e as ordenanças, é nessa ocasião que a real autoridade deve passar por cima da forma
para manter a regra e a disciplina, sem a qual um Estado não pode subsistir, e dar meio aos oficiais para
castigar os crimes pela forma; tendo nisso grande aparência achar-se-á mais facilmente a causa e a prova
de um delito, cujos culpados serão presos, do que estando em plena liberdade se poderá fazer toda a sorte
de diligências para que não se espalhe o conhecimento. Se em seguida V. M. ordenar que os encontros
passem por duelos e como tais sejam punidos até que aqueles que forem culpados voluntariamente se
apresentem prisioneiros e sejam absolvidos por sentença, V. M. terá feito tudo o que pode,
provavelmente, para impedir o curso desse frenesi, e o cuidado que tomar para conservar a vida da
nobreza tornar-la-á senhora do seu coração e obrigará a tanta fidelidade que ela com usura pagará além
da expectativa, os empregos com que seja gratificada.

CAPÍTULO IV

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DA TERCEIRA ORDEM DO REINO

 Para tratar com método da terceira ordem do reino e ver claramente o que é necessário para fazê-la
subsistir, no estado em que deve estar dividirei em três partes.

 A primeira conterá o corpo dos oficiais de justiça.

 A segunda, aqueles que manejam as suas finanças.

 A terceira o povo, que suporta quase sempre os encargos do Estado.

SEÇÃO I
Que toca de perto a desordem da justiça e mostra, particularmente, se a supressão da venalidade e da
hereditariedade seria bom remédio a tais males.

 É mais fácil reconhecer os defeitos da justiça do que conseguir-lhes remédio; não há pessoa que não
veja que aqueles que se estabelecem com desejo de ter a balança justa em todas as coisas, carregam um
prato de tal forma, segundo o seu interesse, que não há mais contrapeso.

 Os desregramentos da justiça chegaram a tal ponto, que não podem passar adiante; entraria nos
detalhes desta desordem e naqueles dos remédios que se lhes pode dar, se o conhecimento que tenho
daquele que preenche presentemente o primeiro cargo da justiça e do desejo que tem de a tornar tão pura
que a corrupção dos homens a possa sofrer, não me obrigassem a me contentar com propor somente a V.
M. certos remédios gerais para impedir a continuação das principais desordens.

 No julgamento da maior parte do mundo, o meio maior consiste em suprimir a venalidade e extinguir
a hereditariedade dos ofícios, dando-os gratuitamente a pessoas de uma capacidade e de uma probidade
tão conhecidas que o seu mérito não possa ser contestado pela própria inveja.

 Mas como não é coisa que se possa fazer em pouco tempo, sendo difícil praticar esse expediente ou
qualquer outro, seria agora inútil propor os meios para chegar a esse fim.

 Quando se quiser empreender tal objeto, achar-se-ão sem dúvida outros que não se podem prever
agora, e aqueles que se quisesse prescrever não estariam mais em época quando se pusesse mão à obra.

 Entretanto embora seja quase sempre perigoso estar-se sozinho numa opinião, ouso dizer que no
estado presente dos negócios, e naquele que se pode prever para o futuro, vale mais, segundo a minha
opinião, continuar a hereditariedade dos ofícios do que mudar o que está estabelecido.

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 Há tantos inconvenientes a temer numa tal mudança, que embora as eleições para os benefícios sejam
mais antigas e mais canônicas do que a nomeação dos reis, elas causarão grandes abusos sendo
impossível evitá-los, o que torna o uso da nomeação mais suportável como sujeito a menor número de
más conseqüências.

 Também, embora a supressão da venalidade e da hereditariedade dos ofícios seja conforme à razão, e
a todas as constituições do direito os abusos inevitáveis, que se cometeriam na distribuição dos cargos,
tão dependentes da simples vontade dos reis, dependeriam por conseqüência do favor e do artifício
daqueles que se encontrassem mais poderosos junto deles, tornando a maneira pela qual os cargos se
provém, agora, mais tolerável do que aquela de que a gente se servia no passado por causa dos grandes
inconvenientes que sempre o acompanharam.

 Seria preciso estar cego para não ver a diferença que há entre esses dois partidos e não desejar de todo
o coração a supressão da venalidade e da hereditariedade dos ofícios suposto que neste caso os cargos
fossem distribuídos pela pura consideração da virtude.

 Também é impossível não reconhecer que em tal caso os artifícios da corte poderiam mais do que a
razão, e mais do que o mérito.

 Nada deu tantos meios ao duque de Guise para se tornar poderoso na liga contra o rei e seu Estado do
que o grande número de oficiais que tinha introduzido sua influência nos principais cargos do reino.

 Aprendi do duque de Sully que essa consideração foi o motivo mais poderoso que levou o falecido rei
ao estabelecimento do direito anual; esse grande príncipe não tinha tanto em vista a renda que poderia
tirar, quanto o desejo de se garantir para o futuro de tais inconvenientes, e que embora o fisco pudesse
muito sobre ele, a razão