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de Estado foi mais poderosa nessa ocasião.

 No novo estabelecimento de uma república não se poderia sem crime deixar banir a venalidade
porque em tal caso a razão quer que se estabeleçam as leis as mais perfeitas que a sociedade do homem
pode sofrer. Mas a prudência não permite agir da mesma forma numa antiga monarquia cuja imperfeição
constitui hábito e cuja desordem faz (não sem utilidade) parte das ordens do Estado.

 É preciso nesse caso sucumbir à fraqueza e se contentar antes de uma regra moderada do que do
estabelecimento de uma mais austera e que seria talvez menos conveniente, seu rigor sendo capaz de
causar qualquer perturbação naquilo que se quer firmar.

 Sei bem que se diz comumente que aquele que compra a justiça por atacado pode vendê-la a retalho;
mas é verdade entretanto que um oficial que põe a maior parte dos seus bens num cargo não será pouco
impedido de mal fazer, de medo de perder tudo aquilo que tem como valioso; e em tal caso o preço dos
ofícios não é um mau penhor da fidelidade dos oficiais. As queixas que se fazem da venalidade foram
comuns em todos os tempos da monarquia; mas embora tivessem sido sempre reconhecidas razoáveis em
si mesmas, nunca se deixou de tolerar a desordem que disso era a causa, pressupondo que não somos
capazes da austera perfeição que têm por fim.

 Seria preciso ser ignorante na história, para não saber que alguns que a escreveram, não livrando o
próprio rei S. Luís censuraram seu reino, porque ao seu tempo não se davam os cargos gratuitamente;

Testamento político.

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condenando outros que vieram em seguida, porque o tráfico dos ofícios estava já tão público que se
fixavam os custos que dela provinham, tornando a memória do grande rei Francisco odiosa, porque foi o
primeiro que, empurrado pelas necessidades do seu século, pô-las em comércio regulado que desde aí
sempre continuou.

 Confesso que foi uma desgraça esse grande príncipe ter sido primeiro autor de tão mau
estabelecimento; mas talvez ele não fosse tão condenável se se conhecessem bem as razões que o
constrangeram.

 O conhecimento que ele tinha de que os particulares vendiam sua graça com sua ignorância, e a
importância do grande negócio com o qual ficou acabrunhado, fizeram-no crer que não havia melhor
nem mais pronto expediente para tirar voluntariamente o bem dos seus súditos senão dar-lhes honra por
dinheiro.

 O falecido rei assistido de um bom conselho numa paz profunda e num reino isento de necessidade
acrescentou o estabelecimento anual à venalidade introduzida por esse grande príncipe.

 Não é de presumir que ele tenha feito sem alguma consideração e sem ter previsto tanto quanto a
prudência humana pode permitir, as conseqüências; e é coisa segura que aquilo que é feito pelos
príncipes cuja condenação foi judicial não pode ser mudado com razão se a experiência não faz conhecer
o prejuízo e se não se vir claramente que melhor pode ser feito.

 As desordens que foram estabelecidas pela necessidade pública e que se fortificaram pela razão de
Estado não podem ser reformadas senão com o tempo. É preciso levar o espírito docemente não o
fazendo passar de uma extremidade a outra.

 Um arquiteto que pela excelência de sua arte corrige os defeitos de uma antiga construção e que sem
abatê-la torna-a de simetria suportável, merece muito mais louvor do que aquele que arruina tudo para
fazer um novo edifício perfeito e completo.

 Dificilmente poder-se-ia mudar a ordem estabelecida para a disposição dos ofícios, sem alterar o
coração daqueles que possuem, em cujo caso seria de temer que em lugar de, como aconteceu no
passado, não servisse pouco a manter os povos nos seus deveres, contribuíssem para o futuro mais do que
qualquer outro aos seus desregramentos. É algumas vezes da prudência enfraquecer os remédios para que
eles façam mais efeito. E as ordens as mais conformes à razão não são sempre as melhores porque não
são algumas vezes proporcionais ao alcance daqueles que as devem praticar.

 Em lugar que a supressão da venalidade e da hereditariedade dos ofícios deveria abrir a porta à
virtude, ela abriria a brigas e a facções, enchendo os cargos de oficiais de baixa extração freqüentemente
mais carregados de latim do que de bens, advindo daí muitos inconvenientes. Se se pudesse entrar nos
cargos sem dinheiro, o comércio se acharia abandonado por muita gente que, fascinada pelo esplendor da
dignidade, correria antes aos ofícios e à sua ruína, tudo junto, do que seriam levados ao tráfico que
produz a fortuna das famílias.

 De resto não há ninguém que não saiba que a fraqueza do nosso século é tal que a gente se deixa levar
antes pela importunação, do que conduzir pela razão e em lugar de ser guiado pela justiça geralmente se

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é levado pelo favor.

 A experiência do passado nos deve fazer temer o futuro tanto porque nos faz ver que os mais
poderosos em crédito ganham freqüentemente a sua causa com prejuízo da virtude quanto porque o
príncipe e seus confidentes não podendo conhecer o mérito das pessoas senão pelo julgamento de um
terceiro e quarto não poderiam impedir de tomar freqüentemente a sombra pelo corpo.

 Um baixo nascimento produz raramente as partes necessárias ao magistrado e é certo que a virtude de
uma pessoa de bem logo tem qualquer coisa de mais nobre do que aquela que se acha num homem de
baixa extração. Os espíritos de tal gente são de ordinário difíceis de manejar e muitos têm uma
austeridade tão espinhosa que não é somente incômoda mas prejudicial.

 Os primeiros com relação aos segundos são como as árvores que plantadas numa boa terra produzem
frutos muito mais bonitos e melhores que aquelas plantadas em terra má; e daí só faltaria que se
condenasse a venalidade porque exclui do cargo e dos ofícios gente de baixa condição; ao contrário seria
um dos motivos de a tornar mais tolerável.

 Os bens são um grande ornato para a dignidade e são de tal forma elevados pelo lustre exterior que se
pode dizer com audácia que de duas pessoas que têm mérito igual, aquela que tem mais facilidade nos
seus negócios é preferível à outra, sendo certo que um pobre magistrado deve ter uma alma bem forte
para não se deixar algumas vezes amolecer pelos seus interesses; também a experiência nos ensina que os
ricos são menos sujeitos a concussão do que os outros, e que a pobreza constrange um oficial a ser muito
escrupuloso da sua renda.

 Dir-se-á talvez que se esses inconvenientes bastam para que se sofra a venalidade, pelo menos é
verdade que o direito anual devia ser suprimido porque põe os ofícios fora de preço e impede que as
pessoas de virtude possam chegar a eles mesmo com dinheiro.

 O falecido rei prevendo este mal tinha inserido num édito feito a este respeito, precauções capazes de
o prevenir, excetuando não somente do direito anual o cargo dos primeiros presidentes, dos procuradores
e advogados gerais; mas reservando-se além disso o poder de dispor dos ofícios que nisto estão
compreendidos quando vagassem, pagando previamente aos herdeiros daqueles que o tinham, o preço de
avaliação.

 Estas precauções eram tão prejudiciais quanto necessárias e, dizendo a verdade, o mal que causa o
direito anual no Estado não procede tanto do vício do seu natural, quanto da imprudência com a qual se
puseram corretivos que esse grande princípio havia trazido. Se o édito continuasse na pureza do seu
primeiro estabelecimento, os ofícios jamais teriam chegado aos excessos de preço a que chegaram agora.
As mudanças que se introduzem tornaram o uso tão prejudicial quanto seria inocente se se o tivesse
deixado nos termos antigos; seria antes preciso corrigir abusos do que mudar o estabelecido.

 A revogação do direito anual obrigará os velhos oficiais a se retirarem dos seus cargos, quando a
experiência e a madureza os tornassem