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mais capazes de servirem ao público. Entretanto é necessário que
se tenham velhos e moços porque a prudência dos primeiros pode servir a conduzir os outros e o vigor
dos moços é necessário para acordar e animar os velhos.

Testamento político.

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 Se o meu fim fosse somente adquirir com esta obra a complacência do povo antes do que merecer-lhe
a benevolência tornando-me útil ao Estado, eu sustentaria que seria preciso suprimir a venalidade e o
direito anual tudo junto; cada um de tal forma se persuadiu que essas duas fontes de desregramento do
reino constituem erro que a voz pública me daria coroa de louros sem examinar se eu a merecia ou não.

 Mas sabendo que aquele que tenta adquirir reputação por meio de reforma mais conforme com o rigor
das leis, do que proporcional à força do Estado, não procura senão o seu interesse, não pude escusar-me
de um cuidado não somente condenável, mas ainda criminoso e tão prejudicial ao público, quanto a
negligência e malícia de um outro qualquer.

 Jamais eu agiria assim. Muitos são os inconvenientes na supressão desses dois éditos para ousar
concluir que o propósito seria o fazê-lo.

 Se eles abrissem a porta à negligência e ao vício como de ordinário se supõe, eu não regatearia em
dizer que não se devia sofrê-lo. Mas quando considero que só entram nos ofícios pessoas destituídas das
qualidades que deviam ter, é isto por culpa somente dos procuradores gerais, que informam de sua vida e
de seus costumes e pela da companhia que como juizes da sua capacidade e da sua virtude devem
recusá-los quando não tenham condições requeridas. Não posso deixar de dizer que o remédio deste mal
consiste mais em fazer observar a ordenança do que em abolir a venalidade e o direito inútil que são
causa dele. Dir-se-á talvez que se os ofícios de judicatura não se vendessem poder-se-ia exercer a justiça
gratuitamente, mas desde que os cultos sejam regulados eles não devem ser considerados como um mal,
de que a gente se queixe. Sei bem que tomando as coisas com rigor o único preço que se deve pela
administração da justiça é pago pela privação da liberdade daqueles que voluntariamente se submetem à
observação das leis; e que, assim, obrigar àqueles que recorrem à justiça a gastarem mais dinheiro, é
obrigá-los a comprar uma segunda vez aquilo que caramente já foi pago pela sua sujeição; tal costume
porém de tal forma ficou fortalecido, que embora as especiarias sejam picantes pela sua natureza,
ninguém se queixaria delas nos palácios e quem propusesse abolir o seu uso expor-se-ia às risotas do
mundo.

 Há abusos que é preciso sofrer de medo de cair em conseqüências mais perigosas; o tempo e as
ocasiões abrirão os olhos àqueles que vierem num outro século, para que façam utilmente aquilo que não
se ousaria empreender neste sem que se expusesse imprudentemente o Estado a alguma desordem.

 Todas as razões expostas acima e muitas outras maduramente consideradas, embora a venalidade e a
hereditariedade dos cargos não sejam canônicas; embora fosse de desejar que o mérito tivesse sempre o
único preço dos ofícios, e a virtude o único título que pudesse transmitir a sucessão aos herdeiros dos
ofícios, em lugar de concluir que se devia mudar isso que está estabelecido, a constituição presente do
Estado me obriga a dizer determinadamente três coisas.

 A primeira é que se a venalidade fosse abolida, a desordem que proviria das lutas e dos conchavos,
pelos quais são providos os ofícios, seria maior do que aquela que nasce da liberdade de os comprar ou
vender.

 A segunda, que somente a hereditariedade fosse abolida além da moderação que viessem a vagar,
tornaria as partes casuais quase infrutíferas, e por esse meio se introduziria um sujo comércio que daria
lugar a que muita gente de pouco mérito partilhasse secretamente as graças que os reis pensariam fazer

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aos oficiais, caindo no mal de que o falecido rei quis garantir este Estado quando estabeleceu a "Paulette"
privando os grandes do reino dos meios de adquirir, à sua custa, criaturas que pudessem servi-los em
tempo e lugar com prejuízo dos interesses públicos.

 A terceira é que desde que a virtude dos homens não é suficientemente forte para levá-los a preferir
sempre o mérito ao favor, vale mais deixar a venalidade e o direito anual, do que abolir estes dois
costumes difíceis de mudar de repente sem prejudicar o Estado.

 Acrescento que é absolutamente necessário moderar o preço dos ofícios, que chegou a tal ponto que é
impossível suportar-lhes o excesso.

 Se os conselhos são tanto mais excelentes quanto mais úteis e fáceis de executar, deve-se fazer caso
deste cujo fruto é evidente e cuja prática é muito mais fácil, pois que sua execução não requer outra coisa
além da reposição do édito de direito anual, nos primeiros termos estabelecidos.

 Neste caso os ofícios sendo reduzidos a um preço razoável, que não excederá à metade daquele ao
qual o desregramento os eleva agora; sendo livre e fácil ao rei pagá-lo aos herdeiros, para dispor dos
cargos novos à sua vontade; é preciso que o Estado fique com esse encargo mas, contudo, ouso repetir,
ainda ganhará. No resto, pode-se reduzir as coisas a este ponto, sem dar lugar a queixas às partes
interessadas, pois que é fácil de as livrar do mal que se fizeram por diversos meios que não especifico
agora porque, se eles fossem descobertos, perderiam sua força antes que se quisesse pô-los em prática.

SEÇÃO II
Que propõe os meios gerais que se podem praticar para evitar o curso das desordens da justiça.

 Depois daquilo que disse não me resta outra coisa a dizer antes de acabar este capítulo, senão o que
representei a V. M. sobre o assunto da primeira ordem do seu reino.

 Se ela faz grande caso dos oficiais da justiça, cuja reputação seja excelente, se não vê com bons olhos
os que, não tendo tido outro meio senão o do dinheiro para chegar à magistratura, achar-se-ão destituídos
de todo o mérito; se priva inteiramente de sua graça e faz castigar àqueles que abusando do seu dever,
venderem a justiça com prejuízo dos seus súditos, fará absolutamente tudo o que pode ser praticado para
a reforma deste corpo, a qual depende tão bem quanto a ordem eclesiástica, mais daqueles que têm a
administração, do que das leis e dos regulamentos que ficam inúteis se aqueles que têm o encargo de
fazê-la observar, não têm vontade de fazê-lo.

 Quando mesmo as leis fossem defeituosas, se os oficiais são pessoas de bem, sua probidade será
capaz de suprir essa falta, e por boas que elas pudessem ser, são por completo infrutíferas, se os
magistrados negligenciam a execução; muito mais se eles são maus para perverter o uso segundo suas
paixões e desregramentos, sendo difícil ser jovem e juiz ao mesmo tempo. Não posso deixar de marcar,
em seguida daquilo que disse, senão que, para reformar a justiça, não é coisa de pequena conseqüência,

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fazer observar cuidadosamente as ordenanças sobre o assunto da idade com a qual os funcionários podem
ser recebidos.

 Não se poderia a meu ver ser muito exato, nem por conseqüência muito severo com relação aos
procuradores gerais que faltarem ao seu dever nas obrigações que têm, de ter olho vivo para que os
interessados não possam surpreender os juizes nesse assunto, sem iludir por suposição e fraude as boas
intenções do príncipe.

 Além de que por este justo rigor garantir-se-á do mal da juventude, que não é pequeno, preservar-se-á
também daquele da ignorância, que é fonte de muitos outros.

 Os oficiais não se podendo precipitar como fazem no presente na sua recepção, estudariam mais, pois
que de outra forma seria preciso que eles ficassem sem fazer nada, o que não acontece àqueles que
estudaram somente depois