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de obterem o fim a que se propõem.

 Não devo omitir a este propósito que seria ainda a desejar que se afastasse absolutamente a prática de
certos doutores que falando como jovens papagaios aprendem freqüentemente a dizer aquilo que não
compreendem, tornando-se hábeis somente em enganar o público enganando-se a si próprios.

 Tal gente é semelhante aos atiradores que não são bons senão para instruir os homens para sua própria
ruína, impedindo-os de saber os verdadeiros exercícios da gente de guerra, que não se aprendem senão
nos exércitos com tempo e fadiga.

 O banimento de uns e dos outros não seria de pequena utilidade embora na prática fosse tão difícil
quanto esta proposta é fácil. Prefiro contentar-me com condenar os pais que suportam que seus filhos
sejam instruídos dessa maneira, e os convidar para o futuro a não cometer mais uma tal falta contra o seu
próprio sangue, do que suplicar a V. M. prescrever sobre esse assunto novas leis, que não seriam feitas
sem que se achassem mil meios de iludir-lhes o efeito, e evitar a prática.

 A experiência que 20 anos de contínua ocupação na administração dos negócios públicos dão-me,
obriga-me a notar que embora fosse para desejar que as companhias sedentárias que são absolutamente
estabelecidas para distribuírem a justiça a cada um e prevenir e regular todas as desordens do reino,
cumprissem tão bem o seu dever que não houvesse necessidade de recorrer a comissões extraordinárias
para as manter, é entretanto tão difícil esperar o que se deve desejar neste assunto, que ouso avançar que
para ter este grande Estado com a polícia e na disciplina sem as quais ele não pode ser florescente, nada
se poderia fazer mais a propósito do que enviar de tempos em tempos às províncias, câmaras de justiça
compostas de conselheiros de Estado e de mestres de suplicação, bem escolhidos, para evitar os espinhos
do parlamento, que fomenta dificuldades sobre todas as coisas a fim de que essa companhia recebendo as
queixas que poderiam ser feitas contra toda a sorte de pessoas sem exceção de qualidade, ela a tudo
proveja em devido tempo.

 Sei bem que as cortes soberanas sofrerão de má vontade um tal estabelecimento, mas sendo
impossível que não reconheçam que um soberano não é obrigado a sofrer a sua negligência, e que a razão
quer que supra a sua falta, não temo dizer que vale mais nesta ocasião adquirir sua estima
correspondendo a sua obrigação, do que conservar a sua boa vontade faltando ao que é devido aos
interesses públicos. Ora porque é impossível enviar tais companhias ao mesmo tempo a todas as

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províncias, é que será suficiente que uma, dessa natureza, composta dos mesmos oficiais ou de
diferentes, faça a volta da França em 6 anos; creio que será muito útil enviar freqüentemente às
províncias, conselheiros de Estado, ou mestres de suplicação bem escolhidos, não somente para fazer as
vezes de intendentes de justiça nas capitais, o que pode mais servir à sua vaidade do que à utilidade do
público; mas para ir a todos os lugares das províncias indagando dos costumes dos oficiais da justiça e
das finanças; vendo se as imposições são executadas conforme a ordenança; se os recebedores não
cometem injustiças vexando os povos, descobrindo a maneira pela qual exercem os seus cargos,
ensinando como se governa a nobreza, e impedindo que tenha curso toda a sorte de desordens e
especialmente as violências daqueles que sendo poderosos e ricos, oprimem os fracos e pobres súditos do
rei.

SEÇÃO III
Que representa quanto é importante impedir que os oficiais da justiça não usurpem a autoridade do rei.

 Após ter representado o que deve ser praticado e o que pode ser, com facilidade, para tornar os
oficiais da justiça tais como devem ser em face dos particulares, não poderia abster-me, sem crime, de
propor o que é preciso fazer para impedir que um corpo tão poderoso, como é aquele que compõem, não
seja prejudicial ao Estado todo.

 Parece que há muito a dizer sobre este assunto, e no entretanto direi suficientemente em três palavras
declarando que não há outra coisa tão necessária quanto a restrição aos oficiais da justiça, a fim de que
não se metam no que diz respeito aos súditos do rei senão para dar-lhes justiça, fim para que foram
criados.

 Os mais sábios dos vossos predecessores tiveram um cuidado singular recomendando com muita
razão, no que V. M. lhes seguiu o exemplo, enquanto eu tenho tido a honra de estar sob suas ordens; com
efeito é uma coisa tão importante, que se se deixasse seguir à rédea solta essa companhia poderosa,
depois ela não poderia ser detida nos limites do seu dever.

 Seria impossível impedir a ruína da autoridade real, se se seguissem os sentimentos daqueles que,
sendo tão ignorantes na prática do governo dos Estados, quanto se presumem sábios na teoria da sua
administração, não são nem capazes de julgar solidamente a sua conduta, nem próprios a dar parecer
sobre o curso dos negócios públicos, que excedem a sua capacidade.

 Também, como não se deve sofrer poderosas companhias, nada que possa ferir a autoridade soberana,
é prudência tolerar alguns dos seus defeitos em outros assuntos.

 É preciso competir com as imperfeições de um corpo que tendo várias cabeças não pode ter um
mesmo espírito, e que sendo agitado por tantos movimentos, quantos assuntos o compõe, não pode
freqüentemente ser levado nem a conhecer nem a sofrer o seu próprio bem.

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 Não há ninguém que não deva desaprovar o seu procedimento, ao qual são levados por alguns
desregramentos, mas condenando-os, e com razão, é difícil de achar remédio para isso: porque, nas
grandes companhias, o numero de maus sobrepuja sempre ao numero de bons, e quando eles fossem
todos sábios, não seria coisa segura, que os melhores sentimentos se achassem na maior parte, tão
diversos são os julgamentos naqueles mesmos que, não tendo outro desígnio senão de bem fazer, são
diferentes nas suas intenções e nos seus fins.

 É coisa tão ordinária, a tais companhias, olhar e achar o que dizer no governo dos Estados que isto
não deve parecer estranho.

 Toda a autoridade subalterna olha sempre com inveja àquela que lhe é superior, e como não ousa
disputar o poder, dá-se a liberdade de desacreditar-lhe a conduta.

 Não há espíritos tão regulados aos quais o domínio mais doce do mundo não seja de qualquer maneira
odioso: também por essa consideração é que um antigo disse com razão que dos homens que são iguais
por natureza, poucos são os que não sofrem com desgosto a diferença que a fortuna entre eles põe, e que
sendo constrangidos a ceder, não reclamem contra os que os comandam, para mostrar que se eles lhes
são inferiores no poder, sobrepujam-nos em mérito.

SEÇÃO IV
Dos oficiais das finanças.

 Os financeiros e seus auxiliares são uma classe separada, prejudicial ao Estado embora necessária.
Este gênero de funcionários é um mal sem o qual não se poderia passar mas que é preciso reduzir a
termos suportáveis.

 Seus excessos e o desregramento que se insinuou entre eles veio a tal ponto que não se pode mais
suportá-los.

 Eles não poderiam crescer mais sem arruinar o Estado e sem que se percam, dando lugar a que se
tomem os seus bens pelo simples conhecimento da sua excessiva riqueza conseguida em pouco tempo,
vendo-se a diferença verificada entre aquilo que eles tinham quando entraram para o cargo, e aquilo que
possuíram depois.

 Sei bem que um tal processo está sujeito a grandes enganos e que poderia servir de pretexto a
violências bem injustas; também não toco este ponto de passagem para aconselhar a prática sujeita a
muitos abusos; mas sustento que ninguém se poderia queixar com justiça se se governasse com tal
circunspeção, que castigando àqueles que enriquecessem em pouco tempo pela indústria só de suas mãos,
não se