testamento_politico
182 pág.

testamento_politico

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
tocasse sob este pretexto no bem daqueles que se tornaram ricos e poderosos: ou pelo seu
patrimônio, um dos mais inocentes meios que os homens têm de enriquecer, ou por gratificação emanada
do puro favor de seus senhores o que os isenta de crime, ou por puras recompensas que foram dadas em

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (72 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

virtude de serviços, o que é não somente justo e honesto, mas o mais legítimo que possa ser, pois que
sendo útil aos particulares, é vantajoso ao Estado que assim será melhor servido, quando aqueles que o
servem utilmente forem melhor tratados.

 É absolutamente necessário remediar os desregramentos dos funcionários de finanças, porque de outra
forma eles causariam a ruína do reino que muda de tal forma de aspecto por seus roubos, que se não se
impedisse o seu curso, em pouco tempo o reino não seria reconhecível.

 O ouro e a prata, que têm em abundância, dá-lhes aliança com as melhores casas do reino, que se
abastardam por esse meio, e não produzem mais, com isso, senão motivos tão afastados da generosidade
dos seus ancestrais, quanto o são, em geral, pela semelhança da sua fisionomia; posso dizer por ter visto,
que em muitas ocasiões sua negligência ou malícia muito prejudicou os negócios públicos.

 Depois de ter bem pensado em todos os remédios para tais males, de que são causa, ouso dizer que
não há melhor do que reduzi-los ao menor número que seja possível, e fazê-los servir por comissão nas
ocasiões importantes, gente de bem, própria para os empregos que lhes forem dados, e não pessoas que
sendo providas por título, pensam ter um que seja suficiente para roubar impunemente.

 Será muito fácil, com uma profunda paz suprimir muitos dos oficiais dessa natureza e por esse meio
livrar o Estado daqueles que sem produzir nenhum serviço, tiram toda a sua subsistência em pouco
tempo.

 Sei bem que, de ordinário, são tratadas como sanguessugas, a que freqüentemente com um grão de sal
se faz vomitar todo o sangue que sugaram, ou como as esponjas que se deixa encher, porque com uma
pequena pressão se faz devolver o que antes haviam tirado.

 Mas é um mau expediente a meu ver, e creio que os tratados e as composições feitas às vezes com os
financistas são um remédio pior do que o mal, pois que propriamente falando é dar-lhes um título para
roubar de novo, na esperança de uma nova graça, e que se por esse meio se tira alguma coisa de sua
bolsa, eles recobram não somente o principal que deram, mas ainda o interesse, taxa mais alta do que
aquela que permite a ordenança. O que me faz concluir que, além de certos oficiais necessários como um
tesoureiro de economia, um recebedor geral, dois ou três tesoureiros de França, em cada repartição geral,
e tantos eleitos quantos sejam necessários, não será prestar pequeno serviço ao Estado, desinteressando
os particulares que de boa fé deram o seu dinheiro para que com tal emprego, segundo o curso dos
tempos, se lhes suprima todo o resto. Sem este remédio, qualquer que seja a regra que se possa fazer, será
completamente impossível conservar o dinheiro do rei, não havendo cruzes nem suplícios
suficientemente grandes para impedir que muitos dos oficiais desse gênero não se apropriem de uma
parte daquilo que por suas mãos passa.

SEÇÃO V
Do povo

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (73 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

 Todos os políticos estão de acordo em que, se os povos vivessem muito à vontade seria impossível de
os conter nas regras do seu dever; seu fundamento é que tendo menos conhecimento que as outras ordens
do Estado, muito mais cultivadas ou mais instruídas, se não fossem obrigados sem alguma necessidade,
dificilmente se manteriam nas regras que lhes são prescritas pela razão e pelas leis.

 A razão não permite de os isentar de todos os cargos, porque perdendo a marca da sua sujeição
perderiam também a memória da sua condição, e se estivessem livres de tributo pensariam estar também
da obediência.

 É preciso compará-los às mulas que, estando acostumadas à carga, estragam-se por um longo repouso
muito mais do que com o trabalho; mas assim como o serviço deve ser moderado, como a carga desses
animais deve ser proporcional à sua força, também é o mesmo quanto aos subsídios com relação aos
povos; se não fossem moderados, quando mesmo fossem úteis ao público não deixariam de ser injustos.

 Sei bem que quando os reis empreendem trabalhos públicos, diz-se com verdade que, o que o povo
ganha lhes volta pelo pagamento de taxas; da mesma maneira pode-se sustentar que o que os reis tiram
do povo ao povo volta, não havendo adiantamento senão para retirar pelo gozo do seu repouso e do seu
bem, que não lhe pode ser conservado, se não contribui para a manutenção do Estado.

 Sei, além disso, que vários príncipes perderam seus Estados e seus súditos por não manterem a força
necessária à sua conservação, de medo de os sobrecarregar; e vários súditos caíram em servidão de seus
inimigos por quererem demasiada liberdade sob seu soberano natural; mas há um certo ponto que não
pode ser ultrapassado sem injustiça; o sentido comum ensina a cada um que deve haver proporção entre o
fardo e a força daqueles que o suportam.

 Essa proporção deve ser tão religiosamente observada, que assim como um príncipe não pode ser
considerado bom, se tira mais do que é preciso dos seus súditos, os melhores não são sempre aqueles que
tiram senão aquilo que é preciso.

 De resto, como quando o homem está ferido, o coração que se enfraquece pela perda de sangue não
chama em seu socorro o sangue das partes baixas, senão depois que a maior parte do sangue da parte alta
está esgotado; assim também nas grandes necessidades do Estado os soberanos devem, tanto quanto
podem, prevalecer-se da abundância dos ricos, antes de sangrar os pobres além do ordinário.

 É o melhor conselho que posso dar a V. M. que o praticará facilmente, podendo tirar para o futuro a
principal subsistência do seu Estado das suas fazendas gerais, que interessam mais aos ricos do que aos
pobres, no que estas gastando menos não contribuem tanto para aquilo que lhes volta.

CAPÍTULO V
QUE CONSIDERA O ESTADO EM SI MESMO

SEÇÃO I

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (74 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

Que representa quanto é importante que as diversas partes do Estado fiquem cada uma na extensão
dos seus limites

 Depois de ter falado separadamente das diversas ordens de que o Estado se compõe, não me resta
quase nada a dizer em linhas gerais senão que, assim como um todo não subsiste senão pela união das
partes em sua ordem e no seu lugar natural, também este grande reino não pode ser florescente, se V. M.
não faz subsistirem os corpos de que é composto em sua ordem; a igreja tendo o primeiro lugar, a
nobreza o segundo, e os oficiais que marcham à frente do povo, o terceiro.

 Digo sem temor porque é tão importante quanto justo impedir o curso das tentativas de certos
funcionários que, cheios de orgulho, seja por causa dos seus grandes bens ou pela autoridade que lhes dá
o emprego e seus cargos, ficam presunçosos a tal ponto, que querem ter o primeiro lugar naquilo que não
podem ter senão terceiro. O que é de tal forma contra a razão e contra o bem do real serviço que é
absolutamente necessário impedi-los continuar pois que de outra forma a França não seria mais o que foi,
e o que deve ser; mas somente um corpo monstruoso, que como tal não poderia ter subsistência nem
duração.

 Como é uma coisa muito certa que os elementos que são capazes de peso não têm peso senão quando
estão no seu lugar; é coisa muito certa também que nenhuma das ordens do Estado terá peso para as
outras senão quando cada uma fique no lugar que lhe compete em virtude do seu nascimento.

 E como o fogo, o ar e a água não podem sustentar um corpo terrestre porque ele pesa fora do seu
lugar, é certo que nem a igreja