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de Luynes, em
1621. Luís XIII achou-se então sozinho. Olhando à volta, só via cortesãos ávidos de poder, senhores
de renome que o desprezavam e, através de inúmeras intrigas, procuravam tomar o seu lugar. Tinha no
íntimo uma força secreta: a consciência da própria posição. Compreendeu que devia ter perto do trono
um homem decidido, inteligente, audacioso: Richelieu. Vencendo sua antipatia - que se transformou
depois cio sincera afeição - nomeou-o ministro. Corria o ano 1624. Somente em 1629, porém, Richelieu
conseguiu ser primeiro-ministro. Começou então seu verdadeiro poder e a longa colaboração com Luís
XIII, essa extraordinária amizade que uniu durante 8 anos dois homens igualmente doentios, recalcados,
misteriosos, mas animados por uma paixão: realizar a unidade da França. O historiador Philippe Erlanger
escreve: “Os dois homens custaram a unir-se. Luís, adolescente, feminino, detestava o padre político, o
conselheiro demasiadamente íntimo da mãe. Mas afinal reconheceu aquela inteligência dominadora. Não
foi para ganhar o coração da mãe, nem devido às condições deploráveis dos negócios do Estado, que
convidou o cardeal. Foi porque compreendeu que Richelieu era homem de ampla visão e, também, de
ação. Os ministros anteriores acreditavam chegar ao poder explorando as conhecidas fraquezas do rei. O
cardeal, ao contrário, resolveu encorajar a atracão do enigmático Luís XIII pela grandeur, a grandeza. E
foi bem sucedido. O rei convenceu-se de que contava com um homem de gênio.

 O resto tornou-se secundário. Agora o rei não podia mais dispensar o “maior servidor que a França
teve”. E isto é verdade. Richelieu foi um grande servidor da França e encontrou, como ele próprio
escreveu, “ o melhor senhor do mundo”. Desde o momento em que subiu ao poder não teve mais
maneiras hipócritas, objetivos dissimulados, nem foi mais o grande premiado pelo papa. Foi um homem
decidido, muitas vezes cruel, de vistas abertas e voltadas para tornar absoluto o poder do soberano.

AVISO DO EDITOR (de 1709)

Testamento político.

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 Seria surpreendente que este Testamento Político do Cardeal de Richelieu tivesse podido ficar
escondido durante tanto tempo, se sua importância e o uso a que ele o havia destinado não dessem a
conhecer que não tinha a intenção de torná-lo manifesto.

 Mas como os Mistérios não vivem ordinariamente senão período curto, e como não é possível que
escritos dessa natureza não cheguem às mãos de gente pouco discreta, não há de que se espantar se caem
enfim em mãos liberais que de boa mente transmitem a todo o mundo.

 Seria fazer mau juízo do julgamento público, pensar que pudesse desconhecer esta obra e que não se
pudesse ser circunspecto para prevenir-se contra falsidades: É impossível depois da leitura deste livro
que não se percebam todas as características espirituais desse Grande Homem. A elevação e a beleza do
seu gênio, o mais extenso que se viu desde longo tempo, juntas à nobreza de suas expressões
encontram-se inteiramente aqui; mas além disso, que diversidade de assuntos não encontramos? Eles são
todos tratados com tanta solidez que se vê bem que os conhecia por uma profunda meditação e por
experiência consumada, sendo só ele capaz de os esclarecer.

 Se temos prazer lendo nos melhores autores as Reflexões e os preceitos políticos que exornam sobre
os principais acontecimentos que relatam, o prazer diminui quando se considera que a maior parte só
raciocina depois do feito e no gabinete e que teria dificuldade de desvencilhar-se de negociações
insignificantes ou da menor intriga espinhosa.

 Mas isso não aconteceu com este Testamento Político. É um favorito e um primeiro-ministro de
Estado que governou mais de 25 anos um dos mais consideráveis remos da Europa; que o guiou e por
assim dizer teve-o na mão nos primeiros passos do seu desenvolvimento; que não prescreve nenhum
conselho sem tê-lo posto em prática várias vezes e que enfim, por sua firmeza e sua coragem venceu uma
infinidade de obstáculos e intrigas que teriam acabrunhado outro que não ele.

 Não houve pois, jamais, obra mais útil aos que são chamados para o manejo dos grandes negócios. Os
reis, os príncipes, os favoritos, os ministros, os conselheiros de Estado, os eclesiásticos, os nobres, os
magistrados, os cortesãos, enfim todas as espécies de pessoas acham aqui uma quantidade de instruções
de valor inestimável.

 Esta obra não está como estaria sem dúvida se ele tivesse tido tempo de revê-la com descanso; mas
embora se encontrem algumas negligências e expressões menos felizes que outras, todas as partes
compõem um tão belo corpo que os pequenos defeitos não devem ser considerados senão como
passagens dos lindos quadros que embora descuidados fazem conhecer a habilidade do artista.

 Seria temeridade extraordinária, querer por palavras exaltar a excelência de uma obra que se sustenta
por si própria, e que está muitíssimo acima de todos os elogios que se lhe quisesse dar. A leitura de um
único capítulo dará melhor idéia dessa verdade, do que tudo o que se pudesse dizer.

 A primeira edição deste livro e as que lhe seguiram de perto, foram todas calcadas sobre um
manuscrito, que terá pelo menos trinta anos, escrito por duas pessoas e com muita precipitação; sem
rasuras mas com muitos erros. Os mais essenciais foram corrigidos nesta 6a. reimpressão, mas os erros
secundários ficaram, pelo receio de se modificar o sentido.

Testamento político.

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 Como não é possível que a cópia de que nos servimos seja única que exista, suplicamos àqueles que
tenham outra melhor e que perceberem erros capitais, que nos avisem para correção, na próxima edição.

 Até mesmo o quadro parece ter sido feito pelo próprio Cardeal de Richelieu. Como ele era
extremamente metódico talvez tivesse começado a sua obra por esse quadro, a fim de que o que tinha a
dizer não se embrulhasse quanto aos tempos.

 Talvez cause surpresa o título do primeiro capítulo, que fala da Paz Geral, e da qual ele queria marcar
o ano que deixou em branco porque até então não houve paz geral. Mas também nisso quis seguir o
manuscrito e era aparentemente seu desejo obtê-la; concluindo então com a descrição das grandes ações
do rei a que servia.

 Para o tempo em que esta obra foi feita, presume-se que ele tivesse trabalhado em diversas ocasiões.
No primeiro capítulo ele conduz a descrição das ações do rei até 1638.

 Entretanto, em outros lugares parece que ele descreve as coisas estando em 1635, pois que dá ao rei
25 anos de reinado. Pode-se duvidar também se o que escreveu sobre os jesuítas, diga respeito a tempo
anterior ou posterior às intrigas que o padre Caussin, confessor do rei, e o padre Manod, confessor da
duquesa de Savóia, armaram para afastá-lo da Corte, pensando conseguir. Se escreveu o capítulo após
haver dissipado a intriga, é admirável a moderação que teve falando com tanta sobriedade; e se escreveu
antes, ainda mais louvável o ter legado a obra no estado primitivo, sem deixar transparecer novas marcas
de ressentimento.

 O que parecerá mais surpreendente é que todo o Testamento Político não fale do nascimento do rei
que hoje reina; donde se infere que o livro estivesse escrito antes desse acontecimento, demasiado
notável para ser esquecido.

 É preciso considerar também, que muito antes da sua morte o Cardeal não escrevia mais por causa do
incômodo que tinha no braço, sendo obrigado a ditar todos os despachos e como aparentemente não quis
escrever o Testamento Político por outra mão, encontrou-se impossibilitado de escrevê-lo ele mesmo, e
daí a omissão.

 Todas as notas que se encontram nas primeiras edições são do manuscrito; mas as observações
históricas sobre o capítulo I do primeiro livro, foram-me comunicadas há pouco e são das últimas
edições. Se há obra que mereça ser enriquecida de notas, pode-se dizer que