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nem a nobreza poderiam suportar o cargo dos oficiais, quando eles
quisessem estar fora do seu lugar.

 A segurança que tenho que V. M. saberá bem conter cada um nos seus limites faz que, sem que me
estenda mais sobre o assunto, passe a duas questões que trato neste capítulo, porque elas dizem respeito
igualmente às três ordens do Estado.

SEÇÃO II
Que examina se vale mais tornar os governos trienais neste reino ou deixá-los perpétuos segundo o
uso que foi praticado até o presente.

 Cada um estimará em primeiro lugar que é melhor torná-los trienais; mas quando se pesam bem as
utilidades que podem provir com os incômodos que se tem a temer, talvez se estime, como já o fiz notar,
que embora a nomeação para os oficiais não seja tão canônica quanto as eleições, seu uso entretanto é
mais útil neste tempo por muitas razões; assim também a supressão da venalidade, sendo coisa a desejar
por diversas razões, não se pode deixar de tolerar o seu uso sem cair em muitos inconvenientes já
expressos anteriormente.

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 Também não se pode tornar o governo das províncias e das praças trienais, sem se expor a muitos
inconvenientes, mais do que aqueles que possam ser temidos pelo estabelecimento da perpetuidade dos
governadores.

 Sei bem que se pode dizer que aquele que não tiver um governo senão por três anos, não terá
provavelmente outro pensamento, senão cair dele com reputação, conduzindo-se com tal moderação, que
sua administração seja preferida àquela do seu predecessor, em lugar que, se estiver assegurado para toda
a vida, a segurança do seu cargo lhe facilita a licença.

 Mas há muito mais segurança de que aquele que souber não estar para sempre num cargo quererá
tirar, em pouco tempo, todo o proveito que poderia esperar para toda a vida, e seria de temer que a
leviandade da nossa nação encontre espíritos tão mal conformados, que, prevendo o fim de uma
administração que lhes fosse agradável, eles se resolvessem a perpetuar-se aí, recebendo por senhores
aqueles que deveriam ter por inimigos.

 Se se apresenta a prática da Espanha que muda constantemente os governadores, depois de ter
respondido que não há nada tão perigoso quanto este governo, acrescentarei que assim como há frutos
cujo uso é bom, excelente num país, pode ser veneno em outro; alguns usos na prática de um Estado são
bons, sendo perniciosos em outros. Dir-se-á talvez para prevenir as objeções que se pode fazer contra o
uso da ordem da Espanha neste reino; que aqueles que se retiram do cargo depois da sua administração,
não terá motivo de estar descontentes, pois que serão empregados em outros que podem ser melhores;
mas encontrar-se-á na prática de uma tal ordem, tais dificuldades, que será impossível sobrepujá-las.

 Um que pode ser próprio para governar a Picardia, por ter nascido nessa província, não será bom para
ser empregado na Bretanha, da qual não conhece os hábitos, e onde o cargo que se lhe quisesse dar talvez
não lhe desse meios suficientes de subsistência. Os governos em França são quase todos tão pouco
rendosos que se não são dados a pessoas que o desejam mais por honra e por comodidade de sua
vizinhança que por outra consideração, poucos se achariam capazes de suportar as despesas. E não há nas
províncias gente suficiente para fazer as mudanças necessárias se os empregos forem trienais.

 Tais mutações são, não somente praticáveis, mas absolutamente necessárias aos grandes cargos da
Espanha, como ao do vice-rei de Nápoles, de Sicília, da Sardenha, ao governo de Milão e outros
empregos de igual consideração; e todos rendem tanto aqueles que os ocupam que quando deixam a
abundância de uns entram na opulência dos outros.

 Os lugares afastados da morada dos príncipes requerem mudança de governadores nos cargos de tanto
poder quanto são aqueles dos quais acabo de falar; porque uma demora mais longa do que de três anos
poderia dar meios de formar tão fortes hábitos como para estabelecimento permanente; visto
principalmente que a ambição dos homens é tão poderosa, que por pouco que um espírito seja
desregrado, não lhe será difícil deixar-se levar o seu pensamento a mudar a sua condição de súdito pela
de senhor.

 Não é da mesma forma em França cujos governos não são suficientemente afastados da morada dos
reis para que se possa temer um tal inconveniente, nem os cargos suficientemente poderosos para dar
tanta autoridade que eles se creiam senhores.

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 Também, enquanto V. M. e seus sucessores se reservarem o poder de mudar os governos como bem
lhes parece, desde que haja um mínimo motivo, o que poderão fazer sempre com justiça, se a venalidade
sendo estabelecida eles dão gratuitamente. Não temo dizer que mais vale ficar neste ponto na prática da
França do que imitar a Espanha; a qual entretanto é tão política e tão razoável, visto a extensão do seu
domínio, que embora não possa ser utilmente praticada neste reino, deve-se a meu ver adotá-la para os
lugares que a França possui na Lorena e na Itália.

SEÇÃO III
Que condena as sobrevivências.

 As sobrevivências de que vamos tratar neste lugar são dadas ou contra a vontade dos possuidores dos
cargos ou com sua aquiescência.

 Não há ninguém que não reconheça que é injusto dar um sucessor a um homem vivo, contra a sua
vontade, visto que por esse meio sua vida fica exposta aos artifícios daquele que deve ter proveito da sua
morte, e o temor que pode justamente dominar o seu espírito lhe é como uma ante-morte.

 Esta prática que era muito freqüente no passado, está agora abolida neste reino. Ela é tão perigosa que
os concílios e diversas constituições dos príncipes temporais a condenam tanto quanto o faz a razão.

 O consentimento dos possuidores não pode melhor justificar este uso, porque por maior que seja a
confiança que possam ter naqueles que lhe são dados para sucessores, são freqüentemente enganados, e
sendo impossível de contentar num Estado a cada um por graças, é importante ao menos deixar a
esperança àqueles aos quais nada melhor se pode dar. O que não se pode fazer se os cargos, ofícios e
benefícios são assegurados freqüentemente aos filhos que, no cúmulo de seu mérito e da sua idade, não
ousariam talvez pensar em chegar às honras e à posição que se lhes deu no berço.

 Tais graças que interessam grandemente ao Estado, não obrigam quase aos particulares. Estes não
pensam que se lhes dê o que vêem nas mãos de seu pai ou de outro parente, e crêem que a segurança que
se lhes quer obter é mais um direito de hereditariedade do que um efeito da bondade do príncipe.

 Ainda que o bem do Estado requeira que na promoção que se faz aos cargos se considere mais o
mérito dos súditos que a eles são elevados do que de toda outra coisa; no que diz respeito à sobrevivência
tem-se mais em vista o serviço daquele que pede um sucessor, do que aquele que pode prestar o que
sucede. O favor de uns tem em geral em tais ocasiões valor de mérito para os outros, que não têm
nenhum título que os recomende além da sua importunação.

 Concluo daí que o menos que se pode dar de tais graças é seguramente o melhor: que seria ainda mais
útil não dar nada, porque qualquer consideração particular que se possa alegar, a conseqüência é perigosa
nos Estados em que os exemplos têm freqüentemente mais força do que razão.

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 Se alguém notar que eu condeno neste artigo uma coisa de que sofri a prática mesmo com relação aos
meus (33) ficará, estou seguro, muito satisfeito se se considera que enquanto uma desordem tem lugar
sem que se possa dar-lhe remédio, a razão quer que se reconheça a ordem; o que pensei fazer
conservando os cargos estabelecidos por meus cuidados aqueles que mais estreitamente eu poderia
obrigar