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a seguir minhas intenções e minhas diretrizes; se na perturbação de um reino agitado por diversas
tempestades eu tivesse podido fazer estabelecer o regulamento que proponho, teria sido dele um religioso
observador.

CAPÍTULO VI
Que representa ao rei o que se estima como devendo considerar em relação à sua pessoa.

 Deus sendo o princípio de todas as coisas, o soberano mestre dos reis e aquele que os faz reinar
felizmente, se a devoção de V. M. não fosse conhecida por todo o mundo, eu começaria este capítulo que
concerne sua pessoa, representando-lhe, que se não segue a vontade do seu criador, e não se submete às
suas leis, não deve esperar fazer observar as suas, vendo os súditos obedientes às suas ordens.

 Mas seria uma coisa supérflua exortar V. M. à devoção; ela é tão levada pela sua própria inclinação e
tão confirmada pelo hábito de sua virtude, que não é de temer haja nunca descaminho.

 É o que faz que em lugar de lhe representar a vantagem que os príncipes religiosos têm sobre todos os
outros, contento-me em pôr-lhe diante dos olhos, que a devoção, que é necessária aos reis deve ser isenta
de escrúpulos, e isto, é, Senhor, porque a delicadeza da consciência de V. M. lhe faz freqüentemente
temer ofender a Deus fazendo certas coisas, das quais seguramente não se absteria sem pecado.

 Se bem que os defeitos dos príncipes, que são desta natureza, são muito menos perigosos para os
Estados que aqueles que se inclinam à presunção e ao desprezo daquilo que devem reverenciar.

 Mas desde que levam o nome de defeitos, é preciso corrigi-los, principalmente se são verdadeiros, e é
certo que podem advir muitos inconvenientes prejudiciais ao Estado.

 Suplico nesta consideração a V. M. que queira fortificar-se cada vez mais contra os escrúpulos, pondo
diante dos olhos que não pode ser culpado diante de Deus se segue (nas ocasiões que se apresentarem de
difícil discussão, no que diz respeito à sua consciência) outras opiniões do seu conselho, confirmadas por
aquelas de alguns teólogos não suspeitos, relativas aos fatos de que se trate.

 Este primeiro fundamento posto, nada sendo mais necessário ao bem dos negócios de V. M. do que a
conservação da sua saúde, é-me impossível não voltar a um assunto de tal importância.

 As cuidadosas e diligentes observações que fiz de tudo que lhe toca fazem-me dizer freqüentemente
que nada é necessário a um fim tão importante, quanto a sua própria vontade, que entretanto é o mais

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poderoso inimigo que possa ter a este respeito; porque comumente não custa pouco fazer querer aos
príncipes o que lhes é não somente útil mas de todo necessário.

 O espírito de V. M. doma tão absolutamente o seu corpo, que a menor das suas paixões toma conta do
seu coração, e perturba toda a economia da sua pessoa. Várias experiências me fizeram conhecer esta
verdade tão certa, que não a vi doente por outra causa.

 Deus fez esta graça a V. M. de dar-lhe a força de suportar com firmeza o que a poderia mais interessar
nos negócios de maior importância; mas por contrapeso dessa maior qualidade, foi permitido que V. M.
fosse tão sensível no que toca aos seus mais humildes súditos, que coisas que não parecem de primeira
vista poder desgostar, alteram-na de tal sorte que é impossível em tais ocasiões aconselhá-la e aliviá-la
como se desejaria: o tempo que dá lugar ao fumo, que surpreende os sentidos, na evaporação, foi até
agora o único remédio a tais males em V. M. que jamais foi presa de um aborrecimento sem que se
seguisse uma indisposição corporal.

 V. M. é nisso semelhante àqueles que desprezando os golpes de espada pela grandeza de sua coragem
não podem por uma certa antipatia natural, suportar a picada da agulha para uma sangria.

 Se fosse impossível a todos os homens prevenir pela razão as surpresas que recebem de suas paixões,
eu não estimaria que isto se referisse a V. M. que tem muitas excelentes qualidades que os outros não
têm.

 Creio que os primeiros ardores da sua mocidade tendo passado, a fleugma de uma idade madura lhe
dará algo com que se garantir para o futuro, pelo raciocínio, de um inimigo tanto mais perigoso, quanto é
interno e doméstico, e que lhe fez tanto mal, particularmente duas ou três vezes, de tal sorte que pouco
faltou para que lhe tirasse a vida.

 Como é uma coisa importante a saúde, também é para reputação, e sua glória, que não pode sofrer
senão aquilo que não é nada na razão, mas muito nos sentimentos que devem segui-la em todas as coisas.

 Não passo ainda, sem reiterar a propósito, uma súplica que várias vezes fiz a V. M. conjurando a
aplicar o seu espírito às grandes coisas do Estado, desprezando as pequenas como indignas dos seus
cuidados e dos seus pensamentos. Ser-lhe-á útil e glorioso repassar freqüentemente pelo espírito os
projetos mais consideráveis, que o curso dos negócios puser em marcha; não há vantagem na
preocupação do detalhe, ao contrário prejuízo somente, e não só porque tais ocupações distraem de
outras melhores, mas porque também os pequenos espinhos sendo mais capazes de fazer mal do que os
grandes, que se percebem mais facilmente, ser-lhe-ia impossível garantir-se de muitos desgostos, inúteis
aos negócios, e contrários à sua saúde.

 A grande agitação, de que vi o seu espírito agitado em diversas ocasiões, obrigam-me a representar
neste lugar o que fiz em várias ocasiões, pois que cuidados são necessários para bem se realizarem os
negócios; alguns não podem produzir outro efeito, senão alterarem a boa disposição daquele que os toma
com muito calor, e provocam tal espanto àqueles que servem, que a perturbação do seu espírito os torna
menos próprios a fazer aquilo que deles se deseja.

 A experiência que 25 anos de reino e de governo, dão a V. M. não permite ignorar que nos grandes

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negócios, os efeitos não respondem nunca ao que se ordenou no ponto desejado; a experiência ensina
também que deve antes tornar-se compatível com aqueles a quem cometem a execução de suas vontades,
se seu trabalho não suceder a contento, antes do que imputar-lhe os maus acontecimentos de que não são
culpados.

 Não há senão Deus que possa tomar resolução infalível, e entretanto sua bondade é tal, que deixando
agir o homem segundo sua fraqueza, sofre a diferença que há entre seus acontecimentos e suas
disposições; o que ensina os reis a sofrer pela razão, com paciência, o que seu criador não sofre senão por
sua bondade.

 V. M. sendo de uma natureza delicada, de uma saúde fraca, e de um humor inquieto e impaciente,
como é por constituição natural, especialmente quando está no exército a conduzi-lo, eu pensaria cometer
um crime se não suplicasse que evitasse para o futuro a guerra, tanto quanto lhe fosse possível; o que
faço sobre este fundamento, de que a leviandade e a inconstância dos franceses não pode ser vencida
senão pela presença do seu senhor e que V. M. não pode, sem se expor a sua perda, submeter-se a uma
empresa de longa duração, nem por conseguinte esperar daí bom sucesso.

 Demasiado fez conhecer o seu valor e a sua força pelas armas, para não pensar para o futuro senão em
gozar do repouso conquistado para o reino pelos seus trabalhos passados, ficando em estado de o
defender de todos aqueles que contra a fé pública, de novo quisessem ofendê-lo.

 Sendo coisa ordinária a muitos homens, não terem ação, senão sob o impulso de uma paixão, o que o
faz considerar como o incenso que nunca cheira bem senão estando ao fogo, não posso deixar de dizer a
V. M. que esta constituição, perigosa a toda a sorte de pessoas, o é particularmente aos reis, que devem,
mais do que todos os outros, agir pela razão. E com efeito se a paixão leva uma vez ao bem, não é senão
por acaso; pois que por sua natureza ela desvia tanto que cega aqueles em que está, como um