testamento_politico
182 pág.

testamento_politico


DisciplinaFilosofia e Ética2.555 materiais75.805 seguidores
Pré-visualização50 páginas
homem
privado de vista encontra algumas vezes o bom caminho, é maravilha que não se transvie, e se não cai de
cheio, não poderia isentar-se várias vezes de tropeçar, senão por uma facilidade extraordinária.
 Tantos males advieram aos príncipes e aos seus Estados, quando antes seguiram os seus sentimentos
do que a razão, e que em lugar de se conduzirem pela consideração dos interesses públicos, suas paixões
foram seus guias é impossível que eu não suplique a V. M. de refletir, a fim de que se confirme, cada vez
mais, naquilo que sempre praticou em contrário.
 Suplico que repasse freqüentemente na memória aquilo que várias vezes lhe representei, que não há
príncipe em tão mau estado quanto aquele que não podendo sempre fazer, por si mesmo, as coisas a que
está obrigado, custa a sofrer que elas sejam feitas por outrem, e que ser capaz de se deixar servir não é
das menores qualidades que possa ter um grande rei; pois que sem isso as ocasiões passam antes que se
possa dispor a tomá-las e por esse meio se perdem ocasiões favoráveis ao progresso do Estado, por
assuntos de nenhuma consideração.
 O falecido rei seu pai estando em uma extrema necessidade, pagava aos seus servidores com boas
palavras, e fazia-os realizar por suas carícias, as coisas que a necessidade não lhe permitia conseguir por
outro meio.
 V. M. não tendo gênio para isso, tem uma secura natural, puxada da rainha mãe, como ela mesma
Testamento político.
file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (80 of 182) [17/8/2001 16:48:57]
disse várias vezes na minha presença, o que impede de seguir a este respeito a inclinação do falecido rei.
Não posso deixar de lhe pôr diante dos olhos que o real serviço requer que faça o bem àqueles que lhe
servem e é razoável que ao menos tome um cuidado particular em nada dizer que os possa desgostar.
 Desde que trato agora da liberalidade que devem ter os príncipes, nada mais direi neste lugar;
estender-me-ei porém, sobre os males que acontecem aqueles que falam muito livremente dos seus
súditos.
 Os golpes de espada curam-se facilmente, mas o mesmo não se dá com os da língua, particularmente
vindos dos reis, cuja autoridade torna os golpes quase sem remédio, se este não vem deles mesmos.
 Mais uma pedra é jogada de alto, mais impressão faz onde cai; tal não se incomodaria de ser
atravessado pelas armas dos inimigos do seu senhor, e não pode suportar o menor arranhão de sua mão.
 Assim como a mosca não é pasto para águia, e o leão despreza os animais que não são da sua força;
um homem que atacasse a uma criança seria censurado por todo mundo; também ouso dizer que os
grandes reis não devem nunca maltratar com palavras os particulares que não têm grandeza proporcional
à sua.
 A história está cheia de maus acontecimentos provindos da liberdade que, os grandes antigamente
davam à sua língua, com prejuízo da pessoa que eles estimavam de nenhuma consideração.
 Deus fez essa graça a V. M. que de seu natural não é levado a fazer o mal, mas é justo que regule de
tal forma as suas palavras que não causem nenhum prejuízo.
 Posso assegurar que de propósito deliberado não cairá nesse inconveniente; mas sendo difícil de reter
os seus primeiros impulsos e súbitas agitações de espírito, que o dominam algumas vezes, eu não seria
seu servidor se não advertisse de que a sua reputação e interesses requerem que tenha um cuidado
particular, visto mesmo que tal liberdade de linguagem que não poderá ferir sua consciência, não deixará
de fazer grande mal a todos os reais negócios.
 Assim como falar bem dos seus inimigos é uma virtude heróica, um príncipe não pode falar
licenciosamente daqueles que desejariam ter mil vidas, para pô-las a seu serviço, sem cometer uma falta
notável, contra a lei dos cristãos, e contra a de toda a boa política.
 Um rei que tem as mãos livres o coração puro, e a língua inocente não tem pouca virtude, e quem
tenha as duas primeiras qualidades eminentes, como V. M., pode com muita facilidade adquirir a terceira.
 Se é grandeza dos reis ser prudentes nas suas palavras de maneira que nada saia de sua boca que possa
ofender aos particulares; é não somente sua prudência nada dizer que desagrade às principais companhias
do seu Estado; devem além disso falar de sorte que tenham ocasião de acreditar serem seus afeiçoados;
os mais importantes negócios do Estado obrigam tão freqüentemente ao choque pelo bem público que a
prudência quer sejam contentados com as coisas que não são desta natureza.
 Não é suficiente aos grandes príncipes nunca abrirem a boca para mal falar seja de que for, mas a
razão requer que fechem os ouvidos às maledicências e às intrigas, banindo e expulsando aqueles que são
Testamento político.
file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (81 of 182) [17/8/2001 16:48:57]
autores, como pestes perigosas que envenenam as cortes e o coração dos príncipes, e o espírito de todos
aqueles que dele se aproximam. Se aqueles que têm livre acesso aos ouvidos do rei, sem o merecer, são
perigosos, aqueles que possuem o coração por puro favor o são bem mais, pois que para conservar um tal
tesouro é preciso por necessidade que a arte e a malícia supram a falta de virtude, que neles não se
encontra.
 Não posso deixar de dizer a propósito, que muito mais temi o poder de tal gente por V. M., do que o
poder dos maiores reis do mundo, V. M. devendo mais guardar-se do artifício de um criado, que o quer
surpreender, do que de todas as facções que os grandes poderiam formar no seu Estado, quando mesmo
convergissem para um mesmo fim.
 Quando entrei para os negócios, aqueles que tinham tido a honra de servir antes, julgavam que, entre
fazer um relatório em seu prejuízo, e persuadir a V. M. não havia diferença, e sob tal fundamento o
principal cuidado era ter sempre confidentes seus perto de V. M. para se garantirem do mal que tinham a
temer.
 Embora a experiência que tenho, da firmeza de V. M. relativamente à minha pessoa me obrigue a
reconhecer, ou que os julgamentos que eles faziam era mal fundado, ou que as reflexões que o tempo
obrigou a fazer a seu respeito, tiraram essa facilidade da sua primeira mocidade, não deixo de conjurar a
que se firme de tal sorte na conduta que tem usado relativamente a mim, que ninguém possa temer uma
contrária.
 Em seguida devo dizer que assim como os ouvidos dos príncipes devem ser fechados às calúnias,
também devem ser abertos às verdades úteis ao Estado, e como a língua deve ser imóvel para nada dizer
em prejuízo da reputação de outrem, também deve ser livre e franca para falar quando seja questão dos
interesses públicos.
 Noto esses dois pontos porque várias vezes observei que não era uma pequena cruz a V. M. ter
paciência de escutar o que lhe era mais importante; e quando o bem dos seus negócios obrigava a fazer
conhecer as suas vontades, não somente aos grandes, mas ainda aos pequenos, e às pessoas de medíocre
condição, ela não tinha pouca pena a resolver-se quando previa o desagrado. Confesso que esse temor é
um testemunho de bondade; mas para não mentir não posso deixar de dizer que é também um efeito de
alguma fraqueza, que podendo ser tolerável num particular, não o pode ser em um grande rei; visto os
inconvenientes que daí podem sobrevir.
 Não levo em consideração que um tal procedimento rejeitaria toda a inveja e o ódio das resoluções
sobre o conselho de V. M. porque seria pouca coisa, se os negócios pudessem ir bem assim, mas o que é
a considerar é que freqüentemente qualquer que seja a autoridade do ministro, ela não pode ser
suficientemente grande para produzir certos efeitos que requerem a voz de um soberano e um poder
absoluto.
 Entretanto se uma vez grandes se persuadem de que uma má vergonha impede um rei de preencher o
ofício de rei, comandando absolutamente, pretenderão sempre obter por importunação o contrário
daquilo que teria sido ordenado pela razão, e enfim sua audácia poderia chegar a tal ponto, que
conhecendo-se que o príncipe