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temia fazer-se de senhor, eles deixariam também de fazer-se súditos.

Testamento político.

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 É preciso ter uma virtude máscula, e fazer todas as coisas pela razão sem se deixar arrastar pelo
declive das inclinações, que levam freqüentemente os príncipes pelos grandes precipícios, se aquelas que
lhes cobrindo os olhos os levam cegamente a fazer o que lhes agrada, são capazes de produzir o mal
desde que o sigam sem prudência; a aversão natural que têm algumas vezes sem motivo podem causar
maiores males, se a razão não tempera, como é para desejar.

 Em algumas ocasiões V. M. teve necessidade da sua prudência para se reter na inclinação dessas duas
paixões; mas mais ainda em relação à ultima do que à primeira; porque é mais fácil fazer o mal, segundo
a sua aversão, o que não requer outra coisa num rei senão o comando, do que fazer o bem segundo a sua
inclinação, o que não se pode sem despojar-se do que é próprio, para o que muitas pessoas não têm pouca
dificuldade em tomar resoluções.

 Estes dois impulsos são contrários ao espírito dos reis, principalmente se, refletindo pouco a seu
respeito, seguem mais ao seu instinto do que ao seu raciocínio.

 Eles os levam algumas vezes a tomar partido nas divisões que de ordinário existem nas cortes entre os
particulares, do que vi acontecerem muitos inconvenientes; sua dignidade os obriga a se reservar para o
da razão, que é o único que deve desposar em toda sorte de encontros; não podem usar de outra maneira
sem se despojarem da qualidade de juizes e de soberanos, para tomar atitude de partidários,
rebaixando-se de alguma maneira à condição de particulares.

 Expõem por esse meio seu Estado a muitas cabalas e facções, que em seguida se formam; aqueles que
têm de defender-se do poder de um rei, conhecem muito bem que não o podem fazer pela força, e para
terem outros recursos com que se garantam, por intrigas, por artifícios e por manobras, causam
freqüentemente grandes perturbações nos Estados.

 A sinceridade que deve ter um homem que faz um testamento não permite à minha pena de acabar
esta seção sem fazer uma confissão tanto mais verdadeira quanto vantajosa para a glória de V. M. pois
que fará fé a todo mundo, que a lei de Deus foi sempre limite capaz da parar a violência de qualquer
inclinação ou aversão que possa ter surpreendido seu espírito, que, sujeito aos mais leves defeitos dos
homens, foi sempre, graças a Deus, isento das mais notáveis imperfeições dos príncipes.

CAPÍTULO VII
Que faz ver o estado presente da casa do rei e declara o que parece necessário para pô-la no estado
em que deve estar

 A ordem das artes e de toda a boa disciplina quer se comece sempre o seu trabalho por aquilo que se
acha mais fácil.

 Sob este fundamento a primeira coisa que faz um arquiteto que quer empreender a construção de um
grande edifício é fazer um modelo onde as proporções sejam tão bem observadas, que lhe sirvam de

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medida e de pé para o seu grande projeto; e se ele não pode levar a termo com o projeto fracassa da sua
empresa; o sentido comum fazendo conhecer aos mais grosseiros que aquele a quem o menos não foi
possível, é inteiramente incapaz do mais.

 Nesta consideração os espíritos mesmos medíocres resumo do mundo, também a famílias particulares
são verdadeiros modelos dos Estados e das Repúblicas, cada um tendo por coisa muito certa que aquele
que não pode ou não quer regular a sua casa, não é capaz de regular um Estado; a razão quer que para se
chegar à reforma deste reino se comece pela casa de V. M.

 Entretanto confesso que nunca tentei empreender isso porque a bondade de V. M. tendo tido sempre
aversão pela ordem que estimava de pequena conseqüência, porque o interessasse a particulares, não se
podia propor um tal efeito, sem chocar abertamente a sua inclinação e o interesse de muita gente que
estando continuamente perto de V. M. com grande familiaridade, teria podido evitar as ordens mais
necessárias ao seu Estado, para impedir as desordens daqueles de sua casa, cujos desregramentos lhe
fossem úteis.

 Mas como um testamento põe a claro muitas intenções, que o testador não tinha ousado divulgar
durante sua vida, este convidará V. M. à reforma de sua casa, que foi omitida, tanto porque lhe pareceu
bem mais fácil do que aquela do Estado, sendo de fato mais difícil; como porque também a prudência
obriga a sofrer em certas ocasiões pequenas perdas para ganhar em outras coisas

 Como é assunto conhecido de toda a gente, que nunca houve rei que tenha levado mais alto a
dignidade do seu Estado do que V. M., também não se pode negar que nunca houve quem deixasse ir tão
baixo o lustre da sua casa.

 Os estrangeiros que vieram à França no meu tempo, muitos se espantaram de ver num Estado
poderoso, uma casa tão insignificante.

 Com efeito, ela insensivelmente declinou a tal ponto que alguns chegam a possuir os primeiros
cargos, quando no reino dos seus predecessores não teriam sequer ousado pensar nos mais medíocres;
tudo isto foi confusão que dominou desde a cozinha até o gabinete.

 Em lugar de, como no tempo em que o rei seu pai, os príncipes, os oficiais da coroa e todos os
grandes do reino comiam de ordinário à real mesa; agora ela parece ter sido posta para criados ou simples
cavaleiros ou gente de armas; e também tem sido tão mal servida, que alguns senhores desprezam-na em
lugar de a procurar avidamente.

 No que diz respeito à sua pessoa os estrangeiros algo acharam em que falar, visto que sua mesa era
servida por simples e sujos "marmitões" em lugar de o serem como as dos outros reis, por gentis-homens.

 Sei bem que esse costume não foi introduzido em seu tempo, mas por ser antigo não é mais tolerável,
afastado como está da dignidade e da grandeza de um tão grande príncipe.

 Sei bem ainda que essa prática foi sofrida até agora sob pretexto da segurança dos reis, dizendo que é
impossível aos oficiais responder pelo que fizerem, se eles mesmos não são responsáveis pelo transporte
até V. M.

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 Mas essa razão parece-me pouco considerável, não parecendo que um "marmitão" seja mais fiel ao
seu senhor do que um gentil-homem que em diversas outras ocasiões poderia trair se quisesse.

 Oitenta jovens fidalgos que V. M. mantém, pagens ou de sua câmara ou das suas cavalariças, serão
bem melhor empregados neste serviço do que deixando-os simplesmente a cargo dos maiores fidalgos ou
escudeiros que os comandam, se mais eles não gostassem de aproveitá-los o que fariam com dignidade
servindo a V. M. com não menos fidelidade.

 A limpeza e a ordem em todos os lugares é requerida com mais forte razão na casa dos reis. A
opulência dos móveis é tanto mais necessária quanto os estrangeiros não concebem a grandeza dos
príncipes senão pelo que aparece no exterior; e entretanto embora V. M. tenha numerosos móveis bonitos
e ricos, que se perdem nos lugares em que deviam ser conservados; freqüentemente se vêem na sua
câmara tais, que aqueles que devem aproveitar quando ela os abandona, deles não querem mais servir-se.

 A entrada de seu gabinete foi permitida a todo mundo não somente com prejuízo da real dignidade,
mas ainda mais com prejuízo da real segurança.

 Os embaixadores muitas vezes ficaram mais apertados por pagens e outros oficiais menores do que
por grandes do Estado nas suas audiências; e entretanto a real dignidade e o antigo costume do reino
querem que em tais ocasiões V. M. seja acompanhada de príncipes, duques e pares, de oficiais da sua
coroa e outros grandes do Estado.

 Sei que diversos reinos têm diversos costumes; que na Espanha os grandes vêem seu rei mais
freqüentemente do que na Inglaterra; a ordem aí está tão bem estabelecida a esse respeito