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sabedoria, e sua providência não impedem que ele se sirva, embora
pudesse fazer por seu simples querer, do ministério das causas segundas, e por conseguinte os reis, cujas
perfeições têm limites, em lugar de ser infinitos cometeriam uma falta notável se não seguissem o seu
exemplo.

 Mas enquanto não está no seu poder, como no poder de Deus, suprir a falta daqueles de que se
servem; devem ser extremamente cuidadosos, escolhendo os mais perfeitos e completos para seus
servidores.

 Muitas qualidades são requeridas para fazer um conselho perfeito; podem ser reduzidas entretanto a
quatro a saber, capacidade, fidelidade, coragem e aplicação que compreendem várias outras.

SEÇÃO II
Que representa qual deve ser a capacidade de um bom conselheiro.

 A capacidade dos conselheiros não requer uma suficiência pedantesca; nada há mais perigoso para o
Estado do que aqueles que querem governar os reinos por máximas tiradas dos livros. Eles os arruinam
de todo por esse meio, porque o passado não se integra no presente, e a constituição dos tempos, dos
lugares, e das pessoas é diferente. Ela requer somente bondade e firmeza de espírito, sólido julgamento,
verdadeira fonte da prudência, tintura razoável das letras, conhecimento geral de história e da
constituição presente dos Estados do Mundo, e particularmente deste.

 Duas coisas são principalmente a considerar a este respeito.

 A primeira, que os maiores espíritos são mais perigosos do que úteis no manejo dos negócios; se não
têm muito mais de chumbo do que de mercúrio, nada valem para o Estado.

 Alguns há que são férteis em intervenções, e abundantes em pensamentos, mas tão variáveis em seus
desígnios, que os da noite e os da manhã são sempre diferentes, e têm tão pouca seqüência e clareza na
escolha de suas resoluções, que mudam as boas tanto quanto as más, e nunca ficam constantes em
nenhuma.

Testamento político.

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 Posso dizer com verdade, sabendo por experiência, que a leviandade de tal gente não é menos
perigosa na administração dos negócios públicos do que a malícia de muitos outros.

 Há muito a temer dos espíritos cuja vivacidade é acompanhada de pouco julgamento, e quando os
excelentes em assuntos judiciários não tivessem grande extensão, não deixariam de poder ser úteis aos
Estados.

 A segunda nota que se deve fazer a este respeito é que nada há mais perigoso num Estado do que pôr
em grande autoridade certos espíritos que não têm luzes suficientes para se conduzirem por si mesmos e
pensam, entretanto, ter demais para necessitarem de conselho alheio.

 Eles não podem ter boa diretriz de sua cabeça, nem seguir conselho dos que são capazes de os dar, e
também cometem enormes faltas.

 A presunção é um dos grandes vícios que um homem possa ter nos cargos públicos, e se a humildade
não é requerida naqueles que se destinam a conduzir os Estados, a modéstia lhes é de todo necessária,
sendo certo que quanto maior é o espírito, menos se acha ele, algumas vezes, capaz de sociedade e de
conselho, qualidades sem as quais aqueles mesmos aos quais a natureza deu mais luzes são pouco
próprios aos governos.

 Sem a modéstia os grandes espíritos são tão ciosos de suas opiniões que condenam todas as outras,
embora sendo melhores, e o orgulho de sua natural constituição, junto à sua autoridade, torna-os
insuportáveis.

 O homem mais hábil do mundo deve freqüentemente ouvir os conselhos daqueles que ele pensa serem
menos hábeis do que ele.

 Como é da prudência do ministro do Estado falar pouco, também é de escutar muito: tira-se proveito
de toda a sorte de opiniões; os bons conselhos são úteis por si mesmos, e os maus confirmam os bons.

 Em uma palavra, a capacidade de um ministro de Estado requerer a modéstia, e se com essa qualidade
tem bondade, espírito e sólido juízo, terá tudo o que lhe é necessário.

SEÇÃO III
Que representa qual deve ser a probidade de um bom conselheiro.

 É coisa diferente o ser homem de bem segundo Deus e segundo os homens.

 Aquele que tem cuidado todo particular em observar a lei do seu criador está nos primeiros termos;
mas para estar nos segundos, é preciso guardar a que prescreve a honra dos homens.

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 Estas diferentes probidades são para desejar nos conselheiros de Estado; mas ainda é incerto se aquele
que tem todas as qualidades exigidas pela do mundo tenha também ordinariamente aquelas que o tornam
homem de bem diante de Deus. Um poderia ter cuidado particular em regular a sua consciência segundo
a vontade do seu criador, mas privado de algumas das condições dessa probidade será menos próprio ao
ministério público do que aquele que, tendo todas, estará sujeito a alguns defeitos parciais com relação à
primeira.

 Entretanto, como o desregramento da consciência é a verdadeira fonte de todas as imperfeições do
homem, digo francamente que as duas probidades de que falo são igualmente requeridas para a perfeição
de um conselheiro de Estado, que não poderia ter a segunda sendo destituído da primeira.

 Em uma palavra, o homem de Estado deve ser fiel a Deus, ao Estado, aos homens e a si próprio; o que
o fará, se além das qualidades expressas acima for afeiçoado ao público, desinteressado em seus
conselhos.

 A probidade de um ministro público, não supõe uma consciência timorata e escrupulosa; ao contrário
nada há mais perigoso para o governo do Estado; visto que da falta de consciência poderiam advir muitas
injustiças e crueldades; o escrúpulo pode produzir muitas emoções e indulgências prejudiciais ao
público; e é muito certo que aqueles que tremem das coisas mais seguras, pelo temor de se perderem,
perdem não raro os Estados, quando poderiam salvá-los salvando-se com eles.

 Como a probidade do conselheiro de Estado não se pode compatibilizar com certo rigor, companheiro
da injustiça, ela não é contrária à severidade, da qual se deve usar por necessidade em muitos lugares, ao
contrário aconselha-a e a prescreve algumas vezes, obrigando mesmo a ser impiedoso.

 Ela não impede que um homem possa gerir os seus negócios gerindo os do Estado; mas ela proíbe que
neles pense com prejuízo dos interesses públicos, que lhe devem ser mais caros que sua própria vida.

 Essa probidade não sofre, naqueles que são empregados nos negócios públicos, uma certa bondade,
que os impede de recusar rudemente àqueles que têm pretensões injustas; ao contrário, quer que em
concedendo o que é razoável, negue-se com firmeza o que não o seja.

 Não posso passar aqui sem dizer o que Ferdinando, Grão-duque de Florença, que viveu em nosso
tempo, dizia a esse respeito: que ele preferia um homem corrompido ao fácil, porque o corrompido não
pode sempre estar a serviço dos seus interesses, pois que nem sempre eles estão na ordem do dia,
enquanto o fácil é levado por todos aqueles que sobre ele fazem pressão, o que acontece tanto mais
freqüentemente, quanto se reconhece não ser ele capaz de resistir aos pertinazes.

 Essa probidade requer que todos aqueles que são empregados no governo do Estado marchem com o
mesmo pé, e que como ele ajam para o mesmo fim, tenham linguagem semelhante; de outra forma se se
encontra alguém que agindo bem, fala mais fracamente que os outros para declinar a inveja, além de que
não terá a probidade requerida ao ministro de Estado, carregará de ódio àqueles cuja fraqueza de palavras
corresponde à firmeza das suas ações.

 Encontra-se gente cuja virtude consiste mais em queixar-se das desordens do que em dar-lhes remédio

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pelo estabelecimento de uma boa disciplina.

 Não são esses os que procuramos; sua virtude não é senão aparente, e não tendo ação que possa servir,
ela difere muito pouco do vício, que sempre prejudica.