testamento_politico
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A probidade de um conselheiro de Estado deve ser ativa; despreza as queixas e se mune de coisas
sólidas, de que o público pode tirar vantagem.

 Outros se encontram, que não tendo nada senão o bem do Estado na boca, têm ambição tão desregrada
no coração, que nenhum bem põe termo aos seus desejos, e nada os satisfaz nem os contenta.

 Outros, passando além, não contentes de não o serem nunca, convertem sob lindos pretextos os
interesses públicos nos seus próprios, e em lugar de conduzirem os particulares pelos públicos, fazem
com tanta injustiça quanta audácia, justamente o contrário.

 Tal gente é não somente destituída da probidade necessária ao emprego dos negócios públicos, mas
constitui verdadeira peste no Estado; são os javalis da escritura, na vinha cheia de vindima com que de
saciar-se não se contentam, mas estragam e destroem tudo o mais.

 Aqueles que são vingativos por natureza, que seguem antes as suas paixões do que a razão, e que em
lugar de escolherem os homens pela consideração única de sua capacidade no que se quer empregá-los,
escolhem-nos por afeiçoados aos seus interesses, não podem ainda ser estimados como possuidores da
probidade requerida para o manejo dos Estados.

 Se um homem está sujeito às suas vinganças, dar-lhe autoridade, é pôr a espada na mão de um
furioso; se ele segue nas suas eleições seus apetites e não a razão, é expor o Estado a ser antes servido
por gente de favor do que de mérito; do que advirão muitos inconvenientes.

 O homem de bem não deve nunca vingar suas injúrias, senão quando tem razões vindas do Estado;
mas é preciso que ele não se leve à vingança pública pelo sentir dos seus interesses particulares; e se ele
o faz, como aqueles que têm probidade escrupulosa fazem às vezes mal por um bom princípio, pode-se
dizer, com verdade, que faz pouco bem, por um mau caminho.

 Se a probidade do conselheiro de Estado requer que esteja à prova de toda a sorte de interesses e de
paixões, ela quer que esteja também das calúnias, e que todos os obstáculos que se lhe puser à frente não
o possam desencorajar de bem fazer.

 Deve saber que o trabalho que se faz para o público não é em geral reconhecido por nenhum
particular, e que não se deve esperar outras recompensas na terra além do renome, próprio a ser paga para
as grandes almas.

 Deve também saber que os grandes homens postos no governo dos Estados são como aqueles que se
condenam ao suplício, com a diferença apenas que estes têm a pena de suas faltas, e os outros de seu
mérito.

 Além disso deve saber que não é senão das almas grandes servir fielmente aos reis, e suportar a

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calúnia que os maus e os ignorantes imputam à gente de bem, sem que possam desgostar-se nem frouxar
o serviço que se é obrigado a prestar.

 Deve saber, ainda, que a condição daqueles que são chamados ao manejo dos negócios públicos é
muito de lamentar, porque embora façam o bem, a malícia do mundo diminui a glória, representando que
melhor se poderia fazer, mesmo que isso fosse completamente impossível.

 Enfim deve saber que aqueles que estão no Ministério de Estado são obrigados a imitar os astros, que
não obstante os latidos dos cães não deixam de iluminá-los, segundo seu curso; o que deve obrigá-los a
desprezar de tal forma tais injúrias, que sua probidade não possa ser abalada, nem eles afastados de
marchar com firmeza aos fins a que se propõem para o bem do Estado.

SEÇÃO IV
Que representa qual deve ser o coração e a força de um conselheiro de Estado.

 A coragem de que se trata agora não requer que o homem seja audaz a ponto de desprezar toda sorte
de perigos. Nada há mais capaz de perder os Estados; e é necessário que o conselheiro de Estado saiba
conduzir-se assim que, ao contrário, vá em quase todas as ocasiões a passo de chumbo, nada
empreendendo senão com grande consideração, a tempo e a propósito.

 É preciso, ainda, que a coragem requerida ao perfeito conselheiro de Estado o obrigue a não pensar só
nas grandes coisas, o que acontece freqüentemente às almas as mais elevadas, quando elas têm mais
coragem do que julgamento. Ao contrário é de toda a forma necessário que ele se baixe até os medíocres
embora de começo pareçam abaixo do seu nível e do seu alcance, porque freqüentemente as grandes
desordens nascem de pequenos começos e as coisas mais consideráveis têm algumas vezes princípios que
parecem de nenhuma consideração.

 Mas a coragem de que se trata, requer que um homem seja isento de fraqueza e de temor, que tornam
aquele que está prevenido contra esses dois defeitos não somente incapaz de tomar boas resoluções para
o bem público, mas ainda de executar aquelas que tomou.

 Requer um certo fogo que faz desejar e perseguir as altas coisas com tanto ardor, que o julgamento os
abrace com sabedoria.

 Requer além disso uma certa firmeza que faz manter fortemente as adversidades e faz que o homem
não pareça mudar ou não mude em face dos maiores transtornos da fortuna.

 Deve dar ao ministro de Estado uma honesta ambição de glória sem a qual os mais capazes e os mais
honestos ficam freqüentemente sem se assinalar por nenhuma ação vantajosa ao público.

 Deve dar a força de resistir sem espanto, às invejas, aos ódios, às calúnias e a todos os empecilhos que

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se encontram de ordinário na administração dos negócios públicos.

 Enfim deve justificar na sua pessoa o dizer de Aristóteles, que assegura que em lugar que aquele que é
fraco se serve de rusga e manha, aquele que é forte despreza a um e a outro justamente pela justa
confiança que tem em si mesmo.

 É preciso notar a este propósito que ser valente, e ser corajoso, não é a mesma coisa.

 A valentia supõe uma disposição a se expor voluntariamente em todas as ocasiões, aos perigos que se
apresentam, o que a coragem não requer, mas somente resolução, suficiente para desprezar um perigo,
quando nele a gente se encontre, e para suportar constantemente uma adversidade, quando ela aparece.

 Pode-se mesmo ir adiante e dizer que além da disposição especificada acima, a valentia requer uma
outra, corporal, que torna o homem próprio a testemunhar o seu valor pelo seu braço.

 Sei bem que aqueles que no passado falaram sobre as principais virtudes do homem não conheceram
essas distinções, mas se se as considera maduramente, encontrar-se-á a primeira absolutamente
necessária, e a segunda não supérflua; por isso que a maior parte do mundo não concebe um homem
valente senão quando leva a efeito vários golpes de mão, como testemunhos daquilo que ele vale.

 De qualquer forma que se toma a valentia, ela não é necessária a um conselheiro de Estado; nem há
necessidade que o conselheiro tenha disposição a expor-se a todos os perigos, nem mesmo que tenha
aptidão corporal a fazer o que vale pela virtude do seu braço; é suficiente que tenha o coração em tão
bom lugar que um mau temor, e os empecilhos que possa encontrar, não consigam desviá-lo dos seus
bons e generosos propósitos; e como é o espírito que governa, e não a mão, basta que o seu coração
mantenha a sua cabeça, embora não possa fazer agir o seu braço.

SEÇÃO V
Que representa qual deve ser a aplicação dos conselheiros de Estado.

 A aplicação não requer que um homem trabalhe incessantemente nos negócios públicos; ao contrário
nada é mais capaz de o tornar inútil do que um tal procedimento.

 A natureza dos negócios de Estado requer tanto mais descanso quanto mais pesado é o seu fardo e de
mais sobrecarga que qualquer outro, e tal que a força do espírito e do corpo dos homens em pouco tempo
se esgota.

 Ela permite toda a sorte de diversões honestas, que não divertem àqueles que as tomam, coisas a que
devem ser principalmente ligados.

 Mas requer que aquele que está posto nos negócios públicos faça