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destes seu principal, e a ele esteja

Testamento político.

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ligado de espírito, de pensamento e de afeição; requer que o maior dos seus prazeres seja o bom sucesso
dos seus negócios. Requer que faça constantemente a volta ao mundo para prever o que pode acontecer,
achando meios de prevenir os males que devem ser temidos e de executar as empresas que aconselha a
razão dos interesses públicos.

 Como ela obriga a não perder um momento em certos negócios que se podem transtornar com o
menor atraso, quer também que não se precipite em outros, em que o tempo é necessário para tomar as
resoluções das quais depois não se tenha motivo de arrependimento.

 Um dos maiores males deste reino consiste em que cada um se liga mais a coisas de que não pode se
ocupar sem falta, do que às de que não pode fugir sem crime.

 Um soldado fala do que o seu capitão deveria fazer; o capitão dos defeitos que ele imagina ter seu
mestre de campo; um mestre de campo tem o que dizer do seu general; o general lamenta a conduta da
corte e nenhum entre eles é, no seu cargo, o que devia ser, nem pensa em cumprir as coisas a que está
obrigado, com exatidão.

 Há pessoas de tão pouca ação e de constituição tão fraca, que não se incomodam nunca em conseguir
por si mesmos alguma coisa; mas recebem somente as ocasiões que fazem mais neles do que eles nelas.

 Tal gente é mais própria a viver num claustro do que a ser empregada no manejo dos Estados que
requerem aplicação e atividade conjuntas; também qualquer deles aí faz tanto mal pela sua conduta
morosa, quanto um outro pode fazer bem por uma ativa aplicação.

 É preciso não esperar grandes efeitos de tais espíritos, nem se deve esperar sobre o bem que eles
fazem, nem se deve querer-lhes mal pelo que deles se receba, porque, propriamente falando, o acaso age
mais neles do que eles mesmos.

 Nada há mais contrário à aplicação necessária aos negócios públicos do que o apego que aqueles que
têm a administração podem ter pelas mulheres.

 Sei bem que há certos espíritos de tal forma superiores e senhores de si mesmos, que embora sendo
advertidos do que devem a Deus por alguma afeição desregrada, não se perturbam por isso com relação
ao que devem ao Estado. Alguns se acham tão senhores da sua vontade, não fraquejando para aquilo que
constitui o seu prazer, que não prestam atenção senão às coisas que sua função obriga.

 Há poucos desta natureza e é preciso confessar que como uma mulher perdeu o mundo, nada é mais
capaz de perder os Estados do que este sexo, quando tomando pé sobre aqueles que os governam, fá-los
mover como bem parece, e mal, por conseqüência.

 Os melhores pensamentos das mulheres são quase sempre maus, naquelas que se conduzem pelas suas
paixões, que têm de ordinário lugar de razão no seu espírito, ao passo que a razão é o único e o
verdadeiro motivo que deve animar e fazer agir àqueles que estão no emprego dos negócios públicos.

 Qualquer força que tenha um conselheiro de Estado, é impossível que possa bem aplicar-se ao seu
cargo, se não é inteiramente livre de semelhantes ligações. Ele pode bem com elas não faltar ao seu

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dever, mas se estiver isento fará muito melhor.

 Em qualquer Estado que esteja, para bem fazer, deve distribuir seu tempo de sorte que tenha as horas
para trabalhar só no expediente a que seu cargo obriga, e outras para dar audiências a todo mundo, a
razão exigindo que trate cada um com cortesia e com tanta civilidade quanta a sua condição e as diversas
qualidades das pessoas que têm negócios com ele, requerem.

 Este artigo testemunhará à posteridade a minha ingenuidade, pois que descrevi coisas que não me foi
possível observar completamente.

 Sempre vivi civilmente com aqueles que trataram comigo; a natureza dos negócios, que me obriga a
recusar audiência a muita gente, não me permite tratá-las mal ou pelo rosto ou com as palavras, quando
não posso contentá-las por efeito; mas a minha má saúde não pode suportar que eu ouvisse a todo
mundo, como desejaria, o que me deu tanto desgosto, que esta consideração algumas vezes me fez pensar
na minha retirada.

 Entretanto posso dizer, com verdade, ter de tal forma levado a fraqueza das minhas forças, que se não
pude corresponder ao desejo de todo mundo, elas jamais puderam impedir-me de satisfazer o meu dever
com relação ao Estado.

 Enfim a aplicação, a coragem, a probidade e a capacidade fazem a defesa do conselheiro de Estado, e
o concurso de todas essas qualidades devem encontrar-se na sua pessoa.

 Um tal, pode ser homem de bem, mas não tendo talento para os negócios de Estado, seria inútil,
ocupando cargos que não pudesse preencher.

 Tal poderia ser capaz e ter a probidade requerida, mas não tendo suficiente coragem para sustentar as
diversas coisas impossíveis de evitar nos governos de um Estado, aí seria prejudicial, em lugar de ser útil.

 Tal poderia ser ainda bem intencionado, capaz e corajoso, mas cuja preguiça não deixasse de ser
ruinosa ao público, se não se aplicasse a funções do seu emprego.

 Tal pode ter boa consciência, ser capaz, corajoso e aplicado ao seu emprego, mas por ser mais atento
aquilo que o toca do que ao que concerne aos interesses públicos, embora os sirva utilmente não deixa de
ser para temer.

 Da capacidade e da probidade nasce um acordo tão perfeito entre o entendimento e a vontade, que
assim como o entendimento sabe escolher os melhores objetos e os meios mais convenientes para
adquirir seu poder, a vontade sabe também abraçá-lo com tanto ardor que não esquece nada do que pode,
para chegar aos fins a que o entendimento se propôs.

 Da probidade da coragem nasce uma honesta audácia em dizer aos reis o que lhes é útil, embora isso
não lhes seja agradável.

 Digo honesta audácia, porque se ela não é bem regulada, e sempre respeitosa, em vez de ser posta na
qualidade das perfeições do conselheiro de Estado seria um dos seus vícios.

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 E preciso falar ao rei com palavras de seda. Como é obrigação do fiel conselheiro adverti-lo em
particular dos seus defeitos com jeito, não seria possível representá-los em público sem cometer uma
falta notável.

 Falar alto daquilo que se deve dizer à orelha é uma recriminação que pode tornar-se criminosa na boca
daquele de quem sai, se publica as imperfeições do seu príncipe para tirar partido, desejando antes, por
uma vã ostentação, fazer ver que não tem um desejo sincero de se corrigir.

 Da coragem e da aplicação nasce uma firmeza tão grande nos desígnios escolhidos pelo entendimento,
e abraçados pela vontade, que elas são buscadas com constância, sem ser caso da mudança que produz
freqüentemente a leviandade dos franceses.

 Não falei da força e da saúde do corpo, necessárias ao ministro de Estado, porque embora seja isso um
grande bem, quando se encontre com todas as outras qualidades de espírito, acima especificadas; não são
tão necessárias que sem elas os conselheiros não possam exercer suas funções.

 Há muitos empregos no Estado, em que a saúde é absolutamente requerida, porque aí é preciso agir,
não somente de espírito mas com mão e corpo, transportando-se para diversos lugares; o que deve ser
feito com prontidão; mas aquele que tem o timão do Estado, e não tem o cuidado senão da direção dos
negócios, não tem necessidade desta qualidade.

 Assim como o movimento do céu não tem necessidades senão da inteligência que o move, assim a
força do espírito é a única necessária e suficiente para conduzir um Estado, e a dos braços e das pernas
não é necessária para mover o mundo.

 Assim como aquele que governa um navio não tem outra ação senão da vista para ver a bússola; em
seguida a que ele ordena que se vire