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o timão, conforme julga a propósito; assim também, na conduta do
Estado, nada se requer senão a operação do espírito, que vê e ordena em conjunto, o que julga dever ser
feito.

 Se é verdade que o Sol, que esquenta tudo, não é quente nele mesmo, é claro que para fazer agir
corporalmente todo mundo, a ação do corpo não é requerida.

 Confesso entretanto que muito desejei sair do governo do Estado por causa de minha má saúde, cuja
inteireza foi tão deficiente que algumas vezes quase me foi impossível exceder-me na medida.

 Enfim, depois de por muitos anos ter servido a V. M. nos mais espinhosos negócios que se possam
encontrar num Estado, posso confirmar por experiência, o que a razão ensina a todo mundo; que a
cabeça, e não o braço, governa e conduz os Estados.

SEÇÃO VI
Que representa qual deve ser o número dos conselheiros de Estado, e que entre eles deve haver um

Testamento político.

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com autoridade superior.

 Depois de ter examinado e reconhecido as qualidades necessárias àqueles que devem ser empregados
no ministério de Estado, não posso deixar de notar que assim como a abundância de médicos causa
algumas vezes a morte do doente em lugar de ajudar a cura, também o Estado terá mais prejuízo do que
vantagem, se os conselheiros são em grande número.

 Acrescento que bastam quatro, havendo um entre eles que tenha autoridade superior, que seja como
um primeiro motor que move todos os outros céus, sem ser movido senão pela sua inteligência.

 Custo a me resolver a expor esta proposição porque parecerá que quero sustentar a minha causa; mas
considerando que me seria fácil de me provar por várias passagens autorizadas da escritura, pelos
patriarcas, e políticos, e pela confiança particular de que V. M. sempre me honrou, enquanto me tem
dado parte na direção dos negócios públicos, não tem necessidade para sua defesa de outro princípio,
senão daquele que foi necessário para o seu estabelecimento, quer dizer, da sua vontade, que passará ao
espírito da posteridade, por justa razão da autoridade que sempre tive nos seus conselhos. Acho que
posso falar a esse respeito sem suspeição, e que devo fazê-lo para provar pela razão o que a honra que
sempre recebi da real bondade autorizar pelo exemplo.

 A inveja natural que se acha de ordinário entre poderes iguais é muito conhecida por todo mundo, sem
que seja necessário longo discurso para fazer ver a verdade da proposição que aqui exponho.

 Diversas experiências tornaram-me tão sábio neste assunto, que eu me tornaria responsável diante de
Deus, se este testamento não levasse em termos expressos, que nada há mais perigoso para um Estado do
que diversas autoridades iguais na administração dos negócios.

 O que um empreende, o outro atrapalha e o que é mais homem de bem se não é mais hábil, quando
mesmo as suas proposições fossem melhores, elas seriam sempre postas à margem pelo mais poderoso
em espírito.

 Cada um terá seus partidários, que formarão diversos partidos no Estado dividindo as forças em lugar
de as reunir.

 Assim como as moléstias e a morte dos homens, não vêm senão do mau acordo dos elementos de que
são compostos; assim também é certo que as contrariedades e a falta de união que se encontra sempre nos
poderes iguais, alteram o repouso dos Estados, de que têm a direção e produzem diversos acidentes que
podem perdê-lo. Se é verdade que o governo monárquico imita mais o de Deus do que nenhum outro; se
todos os políticos sagrados e profanos ensinam que este gênero de reger sobrepuja todos aqueles que já
foram postos em prática, pode-se dizer sem temor, que se o soberano não pode, ou não quer por si
mesmo ter continuamente olhos sobre sua carta, e sobre sua bússola, a razão quer que ele encarregue
particularmente alguém que fique acima de todos os outros.

 Assim como diversos pilotos não põem juntos a mão no timão, também é preciso que um só conduza
o Estado.

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 Pode bem receber conselho dos outros, deve mesmo algumas vezes ir procurá-los; mas deve examinar
a bondade dos mesmos, virar a mão de um lado e outro, segundo estimar mais a propósito, para evitar a
tempestade e fazer o seu caminho.

 Tudo será fazer uma boa escolha, nessa ocasião, e não enganar-se.

 Nada há tão fácil como achar um primeiro motor, que mova tudo sem ser movido por nenhuma outra
autoridade superior, senão a do seu senhor; mas não há nada tão difícil como encontrar um, que mova
bem, sem poder ser movido por nenhuma consideração, que possa desregular seu movimento.

 Toda a pessoa se estimará por seu próprio sentido, capaz dessa função; mas nenhum podendo ser juiz
na sua causa, o julgamento de um fato tão importante deve depender daqueles que não têm interesse, que
lhes possa vendar os olhos.

 Um tal não será capaz de ser movido pelas práticas e pelos presentes dos inimigos do Estado, podendo
sê-lo por seus artifícios.

 Tal será capaz de ser movido por interesses que não fossem criminosos, e que entretanto não
deixariam de trazer grandes prejuízos ao Estado.

 Freqüentemente se encontra gente que morreria antes do que falsear à sua consciência, e que
entretanto não seria útil ao público, porque seria capaz de vergar-se às importunações e às carícias
daqueles que amam.

 Tal, que é incapaz de ser movido por interesse qualquer que seja poderia sê-lo por temor, por susto ou
por terror pânico.

 Sei bem que a capacidade, a probidade, a coragem, em uma palavra, as qualidades que atribuímos aos
conselheiros de Estado podem remediar a tais inconvenientes; mas para dizer a verdade, como o ministro
de quem nós falamos deve estar acima de todos os outros, também é preciso que tenha todas estas
qualidades em eminência; e por conseqüência é preciso examinar cuidadosamente, antes de estabelecer
escolha.

 O príncipe deve conhecer por si mesmo aquele que encarregará de um tal emprego, e embora essa
pessoa deva ser escolhida por ele só, a escolha que fizer deve ser, se possível acompanhada de uma
aprovação pública; porque se tiver o voto de todo mundo, será mais capaz de fazer o bem.

 Assim como aqueles que são mais inteligentes nos cálculos astronômicos não poderiam enganar-se de
um só minuto, podendo os julgamentos que fazem em seguida estar eivados de falsidades, assim é
verdade que se as qualidades daquele que deve governar os outros só são boas na aparência, sua conduta
sendo má, se não são senão medíocres, o seu governo não será excelente.

 É fácil de representar as qualidades que deve ter este principal ministro; é difícil de as achar todas
num mesmo homem.

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 Entretanto, é preciso dizer que a felicidade ou a desgraça dos Estados depende da escolha que se fizer;
o que obriga estritamente os soberanos, ou a cuidarem disso pessoalmente, porque o peso da sua coroa
assim o exija, ou a escolherem tão bem aquele sobre quem descarreguem o peso dela, que sua opinião
seja aprovada pelo céu, e pela terra.

SEÇÃO VII
Que representa qual deve ser o rei em relação aos seus conselheiros; e faz ver que para ser bem
servido, tratá-los bem é o melhor expediente que se pode tomar.

 V. M. tendo assim escolhido os seus conselheiros, cabe a ela pô-los em estado que possam trabalhar
para grandeza e a felicidade do seu reino.

 Quatro coisas principalmente são requeridas para esse fim. A primeira, que V. M. tenha confiança
neles e que eles saibam, o que é absolutamente necessário, porque de outra forma os melhores
conselheiros poderiam ser suspeitos aos príncipes, e se os ministros não estivessem seguros de que a sua
sinceridade era conhecida, abster-se-iam em muitas ocasiões, em que o seu silêncio havia de ser
prejudicial.

 E um dizer comum, que um médico que satisfaz ao doente,