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e que é por ele amado, tira dois proveitos.
E é coisa certa, que não há nenhum que possa trabalhar francamente na cura de um doente, se sabe que o
doente desconfia dele.

 A segunda é a que determina o falar livremente, assegurando o poder-se fazer sem perigo.

 Esta condição é absolutamente necessária, não somente para certos espíritos frios e tímidos, que têm
necessidade de ser empurrados; mas para aqueles que não sendo temerosos por natureza, empregam tanto
mais utilmente seu zelo para vantagem do público, acreditando que sua audácia não lhes pode ser
prejudicial.

 O soldado que atira protegido, está muito mais seguro do que o que sabe que atirando pode ser
alvejado; e com efeito, poucos particulares se encontrariam que quisessem expor-se à sua perda, para
fazer bem ao público.

 É verdade que um homem de bem não deve considerar seu interesse, quando se trate dos interesses
públicos, e que o mais alto ponto da fidelidade, que se possa desejar a um bom servidor, é dizer
ingenuamente o que sabe ser útil ao seu senhor, sem temer incorrer no ódio daqueles que são mais
poderosos perto dele, nem de lhe desagradar, mas há poucos tão zelosos que queiram correr um tal risco.

 A terceira é de que o rei os trate liberalmente, e que creiam que os seus serviços não fiquem sem
recompensa.

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 O que é tanto mais necessário, quanto pouca gente ama a virtude toda nua, e o verdadeiro meio de
impedir que um servidor não pense muito nos seus interesses, é praticar o conselho daquele imperador
que recomendou a seu filho que tivesse grande cuidado com os negócios daqueles que tratassem bem dos
seus negócios.

 Nunca um homem de bem pensa enriquecer à custa do povo, servindo-o.

 Mas assim como seria um crime ter um tal pensamento, nada é mais vergonhoso a um príncipe, do
que ver aqueles que envelheceram no seu serviço, carregados de anos, de mérito, e de pobreza, tudo
junto.

 O quarto é que ele os autorize e mantenha tão abertamente, que fiquem assegurados de que não têm a
temer nem os artifícios nem a força daqueles que os queiram perder.

 O interesse do príncipe o obriga a usar assim, pois que não há homem que possa servir utilmente ao
público, sem atrair o ódio e a inveja da todo mundo, e poucos seriam suficientemente virtuosos para bem
fazer, se pensassem receber, em troca, o mal.

 Não há lugar no mundo que, por forte que seja em si mesmo, possa garantir-se de ser tomado, enfim,
se não defende o exterior com cuidado.

 Assim também os maiores reis não conservariam a sua autoridade inteiramente, se não tivessem
cuidado extraordinário em sustentá-la nos menores de seus oficiais, próximos ou afastados de suas
pessoas, porque são as peças de fora aquelas que primeiro se atacam. A tomada delas dá mais audácia no
esforço, contra as peças de dentro, embora pareçam inatingíveis, como sagradas e ligadas à própria
pessoa dos reis.

 Há poucas pessoas que ousam atacar à força, aqueles que um príncipe tiver escolhido para o servir,
porque não há quem não reconheça que seu poder não pode ser igual ao poder de um soberano, que tem
muito interesse em proteger os seus servidores, para faltar nisso com seu prejuízo, mas sempre se acham
aqueles que procuram arruiná-lo por artifícios e maus meios, difíceis de descobrir.

 Governa-se de ordinário tão finamente em tais ocasiões, que em tais empreendimentos deve-se tê-los
como assegurados, não para fazer mal àqueles que se julga culpados, antes que sejam convictos; mas
para os prevenir com prudência.

 Os artifícios dos homens fazem que eles se escondam de cem modos para chegar a seus fins; tal fala
abertamente sob pretexto de não poder calar-se sem crime; mas poucos são deste gênero; tal finge ser
amigo daquele que quer perder; tal faz falar a outros, e reserva-se somente para apoiar os maus ofícios
começados; enfim há tantos meios para fazer o mal neste gênero, que um príncipe não poderia estar
demasiado seguro com guarda, para se garantir de surpresas, num fato tão importante.

 Por pouco que se fale escondido contra o governo do seu Estado sob qualquer pretexto que se possa
tomar, deve-se ter por seguro que é para arruiná-lo e para o perder.

 Aqueles que assim procedem fazem como os doentes que têm febres tanto mais malignas quanto

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menor o fogo parece fora, sendo tanto maior o abrasamento por dentro.

 E preciso proceder-se em tais males, sem esperar que deles se tenha um inteiro conhecimento, porque
frequentemente não se pode tê-lo senão pelo acontecimento e o efeito do mau desejo que se projetou.

 Aqueles que realizam tais empresas sabem muito bem o perigo a que se expõem começando-as sem o
propósito de as acabar. Em tais ocasiões vai-se a princípio com passo de chumbo e de lã; mas depois a
natureza de tais negócios obriga a dobrar o passo e a correr de medo de ser surpreendido em caminho.

 Imita-se nisto a pedra jogada do alto de uma montanha; seu primeiro movimento é lento, e quanto
mais ela desce mais peso toma, redobrando a velocidade da queda. Da mesma forma é preciso mais força
para fazê-la parar no mais forte do seu curso, do que no começo; também é muito difícil parar uma
conspiração, que não tendo sido sufocada no nascedouro já esteja muito crescida.

 Mais uma praça é importante, mais o inimigo se esforça por lhe seduzir o governador; mais uma
mulher é bonita, mais encontra gente que queira ter a suas boas graças; também mais o ministro é útil ao
seu senhor e poderoso no seu espírito e na sua graça, mais pessoas o invejam, desejando seu lugar, e
ensaiando fazê-lo cair para ocupar-lhe o posto.

 Entre os governadores fiéis, aqueles são os mais estimados que não somente resistem às proposições
que lhes são feitas contra o seu dever, mas que recusam escutá-las, e que de começo fecham a boca
àqueles que os querem tentar por tais meios.

 Entre as mulheres castas, aquelas que não têm ouvidos para ouvir insinuações más que se lhes quer
fazer para macular a sua pureza, são pelo julgamento de todos os sábios preferíveis àquelas que os
abrem, mesmo quando fecham o coração.

 Assim entre os senhores que têm servidores de fidelidade tão comprovada em diversas e tão
importantes ocasiões, que deles não seja possível duvidar com razão; são mais sábios aqueles que fecham
a boca a todos os que são maldizentes.

 Qualquer virtude que haja em rejeitar uma tentação, os príncipes e os maridos são estimados
demasiado indulgentes, se permitem a seus governadores, ou as suas mulheres escutar coisa a que não
querem que adiram e às quais não podem consentir adesão sem crime; e os senhores devem condenar-se
a si mesmos, se prestam ouvido ao que se quer dizer contra aqueles cuja fidelidade é irreprochável. A
razão primitiva dessa decisão consiste em que, assim como expor-se audaciosamente em um perigo e
numa ocasião justa é útil, é uma ação de valentia; fazer o mesmo sem motivo e sem razão é uma
temeridade; e nesse sentido foi dito, com muita razão, que quem abre os ouvidos às calúnias merece ser
por elas enganado.

 Talvez se me diga que há grande diferença entre o dever do governador, da mulher e do príncipe, no
fato que é representado; que é verdade que o governador e a mulher fazem muito melhor em não escutar,
porque não podem em caso nenhum consentir naquilo que se lhes quer dizer; mas não é o mesmo do
príncipe que deve ter ouvidos abertos, pois que se lhes pode dizer coisas verdadeiras e tão importantes
que sejam obrigados a prover.

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 A isto respondo primeiramente falando apenas dos servidores cuja fidelidade é tão irreprochável, e
cuja conduta, provada em diversas ocasiões, tão importantes que não se possa achar que existam outras; a
diferença