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é esta.

 A História e as Memórias deste Grande Homem forneceriam em quantidade; mas isso não é ainda
tudo; seria necessário algo mais particular e que revelasse várias intrigas dessa corte, que não foram
divulgadas, e que constituiriam esclarecimentos preciosos para a História. Também seriam muito úteis as
notas sobre o estado da França no seu tempo e aquele a que chegou: Em que seguiram as Máximas e
Conselhos do Grande Ministro e em que se separaram e nesse gênero as notas seriam não somente
curiosas, mas importantes.

 Se alguém se der ao trabalho de fazer essas notas, mais tarde, de bom grado as traremos ao público.

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TESTAMENTO POLÍTICO DO CARDEAL DUQUE DE RICHELIEU AO REI

 Senhor:

 Assim que aprouve a Vossa Majestade dar-me parte no manejo dos seus negócios, propus-me não
esquecer nada que de minha sagacidade pudesse depender, para facilitar os seus grandes desígnios, tão
úteis ao Estado, quanto gloriosos à sua Pessoa.

 Deus, tendo abençoado minhas intenções a tal ponto que a virtude e a felicidade de V. M. espantaram
o presente século e serão admiradas pelos futuros, achei que os gloriosos sucessos me obrigavam a fazer
deles à História, tanto para impedir que muitas circunstâncias, dignas da imortalidade, caíssem no olvido,
pela ignorância daqueles que não as podem saber como eu, quanto para que o passado servisse de lição
ao futuro. Pouco tempo depois de ter tido esse pensamento, pus-me a trabalhar, acreditando não dever
começar demasiado cedo o que só com a minha vida terminaria.

 Acumulei com cuidado a matéria de tal obra, e pus em ordem uma parte, deixando ao curso de alguns
anos quase em estado de publicação.

 Confesso que mais prazer existe em se fornecer os elementos para a História, do que dar-lhes forma, e
isso me não dava pouco prazer, de representar o que se não havia feito senão com esforço.

 Gostando das doces satisfações provindas deste trabalho, as enfermidades e os contínuos incômodos a
que estava sujeita a fraqueza da minha compleição, junta aos encargos dos negócios, constrangeram-me a
abandoná-lo por ser de muito fôlego.

 Reduzido à extremidade de não poder fazer nesse sentido, o que desejava com paixão para a glória de
vossa Pessoa e para vantagem do vosso Estado; acreditei que, ao menos não podia dispensar-me de
deixar a V. M. algumas memórias, daquilo que julgo mais importante para o Governo deste Reino, sem
responsabilidade perante Deus.

 Duas coisas me obrigam a empreender esta obra: primeira é o temor e o desejo que tenho de terminar
meus dias antes que o curso dos de V. M. chegue ao seu fim. Segunda é a fiel paixão que tenho pelos
interesses de V. M. o que me faz desejar não somente vê-la cumulada de prosperidade durante minha
vida, mas faz-me ainda desejar ardentemente suprir meios para poder ver-lhe a continuação, quando o
tributo inevitável que cada um deve pagar à Natureza, impedir-me de poder ser testemunha.

 Esta peça verá a luz sob o título de meu Testamento Político; porque é feita para servir depois da
minha morte à defesa (Polícia) e à conduta do vosso Reino, se V. M. julgá-la digna disso. Ela conterá
meus últimos desejos relativos ao assunto, e deixando-a, consigno a V. M. tudo o que posso legar de
melhor, quando Deus quiser chamar-me desta vida.

 Ela será concebida em termos curtos e precisos, tanto quando me seja possível, seguindo a minha
maneira ordinária, e para estar de acordo com o humor de V. M. que sempre gostou de saber as coisas em
poucas palavras, e que mede com precisão tanto a substância das coisas como os longos discursos que a

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maioria dos homens usa para exprimi-la.

 Se minha Sombra que aparecerá nestas Memórias pode, após minha morte contribuir em algo para
Regular este grande Estado, do qual V. M. me deu mais parte do que merecia, estimar-me-ei
extremamente feliz.

 Para atingir esse fim, julgando com razão, que o sucesso que aprouve a Deus, no passado dar às
resoluções que V. M. tomou com suas mais fiéis criaturas, é poderoso motivo para convidá-la a seguir os
conselhos que quero dar-lhe para o futuro. Começarei esta obra, pondo-lhe diante dos olhos um quadro
sucinto de suas Grandes Ações passadas, que lhe dão tanta glória e podem ser chamadas a justo título o
Fundamento sólido da felicidade futura do Seu Reino.

 Este relato será feito com tanta sinceridade, ao julgamento daqueles que são fiéis testemunhas da
História do tempo de V. M., que ele dará a que todo o mundo acredite que os conselhos que ministro a V.
M. não terão outro objetivo que não sejam os interesses do Estado e o lucro de vossa Pessoa, da qual
serei eternamente,

 Senhor, Muito humilde, muito fiel, muito obediente, muito apaixonado, muito obrigado, súdito e
servidor. Armand Du Plessis.

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I
Sucinta narração de todas as grandes ações do Rei, até a paz, feita no ano de...

 Quando Vossa Majestade se resolveu a dar-me ao mesmo tempo a entrada em seus conselhos e grande
dose de sua confiança para a direção de seus negócios, posso dizer com verdade que os huguenotes
partilhavam o Estado; que os grandes se conduziam como se não fossem súditos, e os mais poderosos
governadores das Províncias, como se fossem soberanos nos seus cargos.

 Posso dizer que o mau exemplo de uns e outros era tão prejudicial a este Reino, que as Companhias
melhor reguladas sentiam-se do seu desregramento e diminuíam em certos casos a legítima autoridade,
tanto quanto lhes era possível, para levar a sua além dos termos da razão.

 Posso dizer que cada um media seu mérito pela sua audácia; que em lugar de reconhecer os benefícios
que recebiam de V. M. pelo correspondente aos seus serviços, só faziam caso quando eles eram
proporcionados segundo o desregramento de sua fantasia, e os mais empreendedores eram julgados mais
sabidos e se achavam os mais felizes.

 Posso ainda dizer que as Alianças Estrangeiras eram desprezadas; os interesses particulares preferidos
aos públicos; em uma palavra, a dignidade da Real Majestade por tal forma rebaixada e tão diferente do

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que devia ser, por deficiência daqueles que tinham então a principal responsabilidade nos negócios Reais,
que era quase impossível reconhecê-la.

 Não se podia tolerar por mais tempo o procedimento daqueles aos quais V. M. confiou o timão do seu
Estado, sem tudo perder; e de outra parte não se podia também mudar de repente sem violar as leis da
prudência, que não permite a passagem de uma extremidade à outra sem passar-se pelo meio.

 O mau estado dos negócios públicos parecia constranger a V. M. a resoluções precipitadas, sem
tempo e sem meio de escolha, e entretanto seria preciso escolher com ambos para tirar proveito da
mudança que a necessidade exigia da prudência de V. M..

 Os melhores espíritos não achavam que se pudesse passar sem naufrágio todos os escolhos que
apareciam em tempo tão pouco seguro. A corte estava cheia de gente que tachava de temeridade aqueles
que quisessem empreender, e todos sabendo que os príncipes são fáceis em atribuir aos que lhes estão
próximos, os maus sucessos das coisas que lhes foram bem aconselhadas; tão pouca gente julgava
possível um feliz resultado da mudança que se publicava desejar eu fazer, que muitos tinham minha
queda por segura, antes mesmo que V. M. me tivesse elevado.

 Não obstante todas estas dificuldades, que representei a V. M. conhecendo o que podem os reis
quando usam bem do seu poderio, ousei prometer-lhe sem temeridade, segundo penso, que V. M.
encontraria o bem do Estado e que dentro de pouco tempo a prudência e a força de V. M. e as bênçãos de
Deus dariam essa nova feição a este Reino.

 Prometi-lhe empregar toda minha