testamento_politico
182 pág.

testamento_politico

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
será tão pequena na comparação exposta, que deve pela razão ser tida como nula, a regra das
causas morais obrigando a não contar por nada o que é de fraca conseqüência.

 Acrescento, em segundo lugar, que quando pudesse acontecer algum inconveniente em fechar os
ouvidos ao que se quiser dizer contra um servidor de fidelidade comprovada, é isso tão pouco
considerável com respeito aquilo que será inevitável, se são eles abertos contra pessoas dessa qualidade,
que posso dizer seguramente que o governador, a mulher e os príncipes devem ter igualmente fechados
os seus ouvidos nas ocasiões representadas acima.

 Não há lugar a presumir que aquele que foi fiel toda sua vida torne-se infiel num instante, sem motivo
e sem razão, principalmente se todos os interesses da sua fortuna estão ligados àquela do seu senhor.

 Um mal que não pode acontecer senão raramente deve ser presumido como não devendo acontecer,
principalmente se para evitá-lo expõe-se a gente a muitos outros que são inevitáveis e de maior
conseqüência, o que se encontra no fato de que se trata: sendo certo que é quase impossível conservar
seus mais fiéis e mais seguros servidores, se sob pretexto de não fechar seus ouvidos à verdade, ele os
abre à malícia dos homens; além de que é constante que perderá muito mais, se perder um dessa
qualidade, do que se por não escutar tolera em qualquer um os efeitos que não podem ser de grande
conseqüência, se o julgar fiel nas mais importantes ocasiões que se possam encontrar.

 Se aquele que dá voluntariamente abrigo aos assassinos que matam um homem é culpado da sua
morte, aquele que recebe toda a sorte de desconfianças e de calúnias que interessem a fidelidade de um
dos seus servidores, sem bem esclarecer-se, é responsável diante de Deus de um tal procedimento.

 As melhores ações são más para duas sortes de espíritos para os maliciosos que imputam tudo a mal
por excesso de sua malícia, e para aqueles que são sujeitos às desconfianças, que explicam todo o mal
pela sua fraqueza.

 Não há homem no mundo, por virtuoso que seja, que passe por inocente no espírito de um senhor que,
não examinando as coisas por si mesmo, abra os ouvidos às calúnias.

 Como não há senão dois meios para resistir ao vício, ou o da fuga ou o do combate, não há também
senão dois para resistir à impressão que fazem as calúnias; uma consiste em rejeitá-las por completo, sem
ouvi-las; a outra em examiná-las tão cuidadosamente que se averigúe a verdade ou a mentira.

 Para evitar todos os inconvenientes, garantir-se dos artifícios de que os maus espíritos podem servir-se
para perder as pessoas de bem, não se privando dos meios de descobrir os maus excessos daqueles que
servem mal, o príncipe deve ter por calúnias tudo aquilo que se lhe vem dizer ao ouvido.

 Nessa ocasião recusar ouvir; se alguém quer sustentar em presença daquele que acusa, o que disser
contra ele, então pode-se escutar assim, com a condição de uma boa recompensa, se ele diz qualquer
coisa importante para o público, que seja verdadeira, e de uma grande punição se a acusação é falsa ou
não considerável e importante quando mesmo fosse verdadeira.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (102 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

 Sempre supliquei a V. M. que procedesse assim relativamente à minha pessoa, a fim de dar tanta
liberdade àqueles que quisessem censurar as minhas ações, para que pudessem fazer, como V. M. me
daria por esse meio, elemento para impedi-las.

 Posso dizer com verdade que V. M. jamais teve nenhum desgosto com a minha conduta senão quando
não praticou este conselho tanto mais louvável e inocente quanto fácil de praticar.
FIM DA PRIMEIRA PARTE

II PARTE

 Os conselhos sobre os quais acabo de discorrer na 1a. parte desta obra, estando bem estabelecidos, é
aos conselheiros que cabe trabalhar como gente de bem, segundo certos princípios gerais, dos quais
depende a boa administração dos Estados.

 Embora as proposições possam ser muitas, aparentemente muito úteis, as ciências, sendo mais
excelentes e mais fáceis de compreender, quando os princípios são em número mais reduzido, deduzirei
aqueles que são mais fundamentais para o governo deste reino, em número de nove completamente
necessários a meu ver.

 Se alguns deles têm diversos ramos, não aumentarão o seu número, da mesma maneira que as
ramagens abundantes nas árvores copadas não multiplicam os corpos.

CAPÍTULO I
O primeiro fundamento da felicidade de um Estado é o estabelecimento do reino de Deus

 O reino de Deus é o princípio do governo dos Estados: e com efeito é uma coisa tão absolutamente
necessária, que sem esse fundamento não há príncipe que possa bem reinar, nem Estado que possa ser
feliz.

 Seria fácil compor volumes inteiros a respeito de assunto tão importante, ao qual a escritura, os
Patriarcas e todas as histórias, nos forneceriam números infinitos de exemplos, de pretextos e de
exortações que conspiram para um mesmo fim. Mas é coisa tão conhecida por todos pela própria razão,
que não tira seu ser de si mesma; mas que há um Deus criador e por conseqüência diretor, não há
ninguém que não sinta que a natureza imprimiu essa verdade no seu coração, com caracteres que não
podem apagar-se.

 Tantos príncipes se perderam, eles e seus Estados, por fundar a sua conduta sobre um julgamento

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (103 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

contrário ao seu próprio conhecimento; e tantos outros foram cumulados de bênçãos por terem submetido
sua autoridade àquela de que derivava, por não terem procurado grandeza senão naquela do seu criador, e
por ter tido mais cuidado com seu reino, do que com o próprio, não me estenderei mais sobre verdade
demasiado evidente, para que haja necessidade de prova.

 Somente, direi uma palavra, que assim como é impossível que o reino de um príncipe, que deixa
reinar a desordem e o vício em seu Estado, seja feliz; também Deus não sofrerá facilmente, que seja
infeliz aquele que tiver cuidado particular em estabelecer o seu império na extensão do seu domínio.

 Nada é mais útil a um governo do que a vida sã dos príncipes, a qual é lei falante e impulsionadora
com mais eficácia do que todas aquelas que poderiam fazer para obrigar ao bem que querem obter.

 Se é verdade que qualquer crime em que possa cair um soberano, ele peca mais pelo mau exemplo do
que pela natureza da sua falta; não é menos indubitável que sejam quais forem as suas leis, ele pratica o
que prescreve, seu exemplo não é menos útil à observação das suas vontades, do que todos os castigos
das suas ordenanças, por graves que possam ser.

 A pureza de um príncipe casto banirá mais as impurezas do seu reino, do que todas as ordenações
escritas para esse fim.

 A prudência e o comedimento daquele que não jura abolirão antes os juramentos e as blasfêmias,
comuns nos Estados, do que se empregar rigor contra os que têm como hábito tais execrações.

 Nem por isso se deve deixar de castigar rigorosamente os escândalos, os juramentos e as blasfêmias;
ao contrário, não me poderia nisso ser excessivamente exato, e por santo e exemplar que pudesse ser a
vida de um príncipe e de um magistrado, jamais serão conservados por fazerem o que devem, se além de
obrigarem com o exemplo constrangerem pelo rigor das leis.

 Não há soberano no mundo que, por esse princípio, não seja obrigado a procurar a conversão daqueles
que, vivendo sob seu reinado, desviam-se do caminho da salvação. Mas como por natureza o homem é
racional, os príncipes são estimados por terem satisfeitos neste ponto à sua obrigação, praticando todos
os meios ao seu alcance para chegarem a tão bom fim; e a prudência não lhes permite tentar um tão
arriscado que possam ceifar o bom trigo querendo cortar o joio, de que seria difícil purgar um Estado de
outra forma que não a doçura, sem expor-se a um abalo capaz de o perder, ou ao menos de lhe causar um
notável prejuízo.