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Como os príncipes são obrigados a estabelecer o verdadeiro culto de Deus, devem ter cuidado em
banir as falsas aparências, tão prejudiciais aos Estados, que com verdade se pode dizer que a hipocrisia
tem servido de véu para cobrir a feiura das ações mais perniciosas.

 Muitos espíritos cuja fraqueza é equivalente à malícia, servem-se algumas vezes deste gênero de
estratagema, mais ordinário nas mulheres porque seu sexo é mais levado à devoção, e o pouco de força
que o acompanha torna-as mais capazes de tais disfarces que supõe menos solidez do que fineza.

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CAPÍTULO II
A razão deve ser a regra e a diretriz de um Estado

 A luz natural faz conhecer a cada um que, o homem tendo sido feito racional, nada deve ele fazer que
não seja pela razão, pois que de outra forma agiria, contra sua natureza, e por conseqüência contra ele
próprio.

 Ela ensina, ainda, que quanto mais um homem é grande e elevado, mais deve aproveitar desse
privilégio e menos deve abusar do raciocínio que constitui o seu ser; porque as vantagens que tem sobre
os outros homens constrangem-no a conservar o que é da natureza e do fim a que se propôs com a
elevação que o criou.

 Destes dois princípios se segue claramente que se o homem é soberanamente racional, deve
soberanamente fazer reinar a razão; o que não requer somente que nada ele faça sem ela, mas o obriga
além disso a fazer mais com que todos aqueles que estão sob sua autoridade a reverenciem seguindo-a
religiosamente.

 Esta conseqüência é fonte de uma outra, que nos ensina que assim como é preciso nada querer que
não seja razoável e justo, é preciso nada querer do que não se faça executar, e onde as ordens sejam
seguidas pela obediência; porque de outra forma a razão não reinaria soberanamente.

 A prática desta regra é tanto mais fácil quanto o amor é o mais forte motivo para obrigar à obediência,
e é impossível que súditos não amem a um príncipe se reconhecem que a razão guia todas as suas ações.

 A autoridade obriga à obediência, mas a razão persuade, e é mais próprio conduzir os homens por
meios que ganhem insensivelmente sua vontade, do que por aqueles que as mais das vezes os fazem agir
forçados.

 Se é verdade que a razão deve ser o facho que ilumina os príncipes em sua conduta e na dos seus
Estados, é verdade ainda que não havendo nada no mundo que seja menos compatível com ela do que a
paixão, que cega de tal forma que faz algumas vezes tomar a sombra pelo corpo. Um príncipe deve
sobretudo evitar impor um tal princípio que o torna tanto mais odioso, quanto é contrário diretamente
àquele que distingue o homem dos animais.

 Arrependemo-nos freqüentemente, com maduro raciocínio, do que a paixão nos fez fazer com
precipitação, e jamais se tem arrependimento com aquilo que se faz por considerações razoáveis.

 É preciso querer fortemente o que se resolveu por semelhantes motivos, pois que é o único meio de se
ser obedecido, e assim a humildade é o primeiro fundamento da perfeição cristã, a obediência é o mais
sólido da sujeição, tão necessária à subsistência dos Estados que se ela é defeituosa eles não podem ser
florescentes.

 Há muitas coisas que são desta natureza, que entre o querer e o fazer não há diferença, por causa da

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facilidade que se encontra em sua execução; mas é preciso querê-las eficazmente, isto é, com tal firmeza
que se queira sempre, e que após ordenar a execução, castigue-se severamente aqueles que não
obedecem.

 Aquelas que parecem mais difíceis e quase impossíveis, não o são senão pela indiferença com que
parece que as queremos e com que as ordenamos; e é verdade que os súditos serão sempre religiosos em
obedecer, quando os príncipes forem firmes e perseverantes em comandar; donde se conclui que é coisa
certa que a indiferença da sua fraqueza seja causa.

 Em uma palavra, assim como querer fortemente e fazer o que se quer é uma mesma coisa num
príncipe autorizado, no seu Estado, assim querer fracamente e não querer são coisas tão pouco diferentes
que têm o mesmo fim.

 O governo do reino requer uma virtude máscula, e uma firmeza inabalável, contrária à moleza que
expõe aqueles em que ela se encontre à ação dos seus inimigos.

 É preciso em tudo agir com vigor, visto principalmente que quando menos o sucesso do que se
empreende fosse bom, ao menos haveria a vantagem de, nada se havendo omitido para o sucesso,
evitar-se a vergonha da culpa quando não se pode evitar o mal de um mau acontecimento.

 Quando mesmo se sucumbisse cumprindo-se um dever, a desgraça seria feliz; e, ao contrário,
qualquer bom sucesso que se consiga com o relaxamento daquilo a que a honra nos obriga e mais a
consciência, deve ser estimado desgraçado, pois que não poderia trazer nenhum proveito que iguale às
desvantagens que se tem do meio pelo qual foi obtido.

 No que diz respeito ao passado, a maior parte dos grandes intuitos da França desfizeram-se em fumo,
porque a primeira dificuldade que se encontrava na sua execução fazia parar a todos aqueles que pela
razão não deviam deixar de levá-los adiante; e se aconteceu de forma diferente durante o reinado de V.
M. a perseverança com que constantemente se agiu disso é causa.

 Se uma vez não se está em condições de executar um bom intuito, é preciso esperar outra
oportunidade; e desde que se pôs mão à obra, se as dificuldades que se encontram obrigam a alguma
interrupção ou adiamento, quer a razão que sejam tomadas as primeiras diretrizes assim que o tempo e a
ocasião favorável tiverem chegado.

 Em uma palavra, nada deve desviar de uma boa empreitada, senão um acidente que a torne de todo
impossível, e é preciso nada esquecer do que pode levar avante a execução daquelas que se resolveu com
razão.

 É o que me obriga a falar neste lugar do segredo e da disciplina que são tão necessários ao bom
sucesso aos negócios que nada pode ser mais.

 Além de que a experiência faz fé, a razão é evidente aí, visto que o que surpreende fá-lo de tal sorte
que tira os meios de oposição, e prosseguir lentamente à execução de um desígnio e divulgá-lo é o
mesmo que falar de uma coisa para não fazê-la.

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 Daí vem que as mulheres, preguiçosas e pouco discretas de seu natural, são tão pouco próprias para o
governo que, se se considera ainda que são tão sujeitas às paixões e por conseqüência pouco suscetíveis
de razão e de justiça, este só princípio as exclui de todas as administrações públicas.

 Não é que não possa existir alguma de tal maneira isenta de tais defeitos que pudesse ser nele
admitida.

 Há poucas regras que não sejam passíveis de exceção; este século mesmo trouxe algumas que nunca
demasiadamente seriam louvadas; mas é verdade que de ordinário sua moleza torna-as incapazes de uma
virtude máscula, necessária à administração e é quase impossível que seu governo seja isento ou de
baixeza ou de diminuição do que a fraqueza de seu sexo é causa; ou de injustiça ou de crueldade, de que
o desregramento de suas paixões, que lhes toma o lugar da razão, é a verdadeira origem.

CAPÍTULO III
Que mostra que os interesses públicos devem ser o único fim daqueles que governam os Estados, ou
que pelo menos devem ser preferidos aos particulares

 Os interesses públicos devem ser o único fim do príncipe e de seus conselheiros, ou pelo menos uns e
outros são obrigados a tê-los em tão singular recomendação, que os prefiram a todos os particulares.

 É impossível conceber o bem de um príncipe, sem isso, e aqueles dos quais se serve em negócios
podem fazer muito bem se seguem religiosamente este princípio, e não se poderia imaginar o mal que
advém a um Estado quando se preferem os interesses particulares aos públicos,