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estes últimos sendo
regulados pelos outros.

 A verdadeira filosofia, a lei cristã, e a política, ensinam tão claramente esta verdade, que os
conselheiros de um príncipe não poderiam pôr-lhe com freqüência sob os olhos um princípio tão
necessário, nem o príncipe castigar severamente aqueles do seu conselho, que por tão miseráveis não o
praticam.

 Não posso deixar de notar, a propósito, que a prosperidade que sempre acompanhou a Espanha desde
alguns séculos, não tem outra causa senão o cuidado que seu conselho teve de preferir os interesses do
Estado aos outros todos, e que a maior parte das desgraças sobrevindas à França foram causadas pelo
excessivo apego que muitos daqueles foram empregados na administração tiveram pelos interesses
pessoais com prejuízo dos públicos.

 Os primeiros sempre seguiram os interesses do público, que pela força da sua natureza os levaram
aquilo que se julgava mais vantajoso ao Estado.

 E os outros acomodando todas as coisas ou à sua utilidade ou ao seu capricho, freqüentemente os
desviaram do seu próprio fim, para os conduzir àquela que lhes fosse mais agradável ou vantajosa.

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 A morte ou a mudança dos ministros jamais trouxeram mutação no conselho da Espanha.

 Mas não foi assim neste reino onde os negócios não só foram mudados pela mudança dos
conselheiros, mas tomaram tantas formas diferentes sob os mesmos, pela diversidade dos conselhos, que
um tal procedimento seguramente teria arruinado esta monarquia, se Deus pela sua bondade não tirasse
das imperfeições da nossa nação o remédio dos males de que são causa. Se a diversidade de nossos
interesses e nossa inconstância natural nos levam freqüentemente a preconceitos terríveis, nossa
leviandade mesma não nos permite ficar firmes e estáveis no que é de nosso próprio bem, e nos leva tão
prontamente que nossos inimigos, não podendo tomar justas medidas sobre variações tão freqüentes, não
têm o descanso para aproveitar das nossas faltas.

 O conselho de V. M. tendo mudado de proceder desde certo tempo, seus negócios também mudaram
de face com grande benefício para o reino; e se para o futuro continuassem a seguir o exemplo do reino
de V. M. nossos vizinhos não teriam a vantagem que tiveram antes. Mas este reino, partilhando a
sabedoria com eles, terá sem dúvida parte na boa fortuna, pois que embora ser sábio e feliz não seja a
mesma coisa, o melhor meio que se pode ter, para não se ser desgraçado, é tomar o caminho que a
prudência e a razão ensinam, e não o desregramento comum no espírito dos homens e particularmente no
dos franceses.

 Se aqueles em que V. M. confiar, encarregando-os do cuidado dos seus negócios, têm a capacidade de
que acima falei, não terá mais a precaver-se no que diz respeito a esse princípio; o que por si mesmo não
lhe será difícil, pois que o interesse da própria reputação do príncipe e os do público não têm senão um
único fim.

 Os príncipes consentem facilmente nos regulamentos gerais dos seus Estados, porque fazendo-os não
têm diante dos olhos senão a razão e a justiça, que se abraça voluntariamente quando não se encontram
obstáculos que desviam do bom caminho. Mas quando a ocasião se apresenta de pôr-se em prática os
princípios estabelecidos, não mostram sempre a mesma firmeza, porque é então que os interesses do
terceiro e do quarto, a piedade, a compaixão, o favor e as importunações os solicitam e se opõem aos
seus bons desígnios, não tendo eles freqüentemente força suficiente para vencer-se a si próprios e
desprezar as considerações particulares que não devem ser de nenhum peso com respeito aos públicos.

 É em tais ocasiões que devem recolher toda a sua força contra sua fraqueza, pondo diante dos olhos
que aqueles que Deus destina a conservar os outros não devem ser senão para ver o que é vantajoso ao
público e à sua conservação, tudo em conjunto.

CAPÍTULO IV
Quanto a previdência é necessária ao Governo de um Estado

 Nada é mais necessário ao governo de um Estado do que a previdência, pois que por meio dela se

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pode facilmente prevenir a muitos males, que não se podem curar senão com grandes dificuldades
quando aparecem.

 Assim o médico que pode prevenir moléstias é mais estimado do que aquele que trabalha em curá-las.
Também os ministros de Estado devem freqüentemente pôr diante dos olhos e representar a seu Senhor,
que é mais importante considerar o futuro do que o presente, e que há males como inimigos do Estado,
diante dos quais mais vale avançar do que apenas afastar depois que chegaram.

 Aqueles que agirem de outra forma cairão em grandes confusões, às quais bem difícil será trazer em
seguida, remédio.

 Entretanto, é coisa comum aos espíritos medíocres contentarem-se com empurrar o tempo com o
ombro, e preferir conservar sua satisfação por um mês, do que privar-se dela por esse pouco de tempo
para garantir-se do incômodo de vários anos que eles não consideram, porque não vêem senão o que está
presente e não antecipam o tempo por uma sábia previsão.

 Aqueles que vivem ao dia a dia, vivem felizmente, para eles, mas vive-se desgraçadamente quando
sob sua direção ou sob seu governo.

 Mais um homem é hábil, mais sente o fardo do governo de que está encarregado.

 Uma administração pública ocupa de tal forma os melhores espíritos, que as perpétuas meditações a
que são constrangidos para prever e prevenir os males que podem advir, privam-nos de repouso e de
contentamento, fora do que podem ter vendo muita gente dormir sem temor à sombra das suas vigílias, e
viver felizes pela sua miséria.

 Como é necessário ver, tanto quanto seja possível de antemão, qual pode ser o sucesso dos desígnios
que se empreendem para não se enganar sua conta, a sabedoria e a vista dos homens tendo sempre limites
além dos quais nada percebem, não havendo senão Deus que possa ver o último fim das coisas, é
suficiente, em geral, saber que os projetos que se fazem são justos e possíveis para que sejam
empreendidos com razão.

 Deus concorre em todas as ações dos homens por uma cooperação geral que segue o seu desígnio, e a
eles cabe usar em todas as coisas de sua liberdade segundo a prudência da qual a divina sabedoria fê-los
capazes. Mas quando se trate de grandes empresas que dizem respeito à conduta dos homens, depois de
ter satisfeito à obrigação que têm de abrir duplamente os olhos para tomar suas medidas; depois de se ter
servido de toda a consideração de que o espírito humano é capaz, devem repousar sobre a bondade do
espírito de Deus, que inspirando algumas vezes aos homens o que é de toda a eternidade nos seus
decretos, conduzir-los-á como por sua mão aos seus próprios fins.

CAPÍTULO V
A pena e a recompensa são dois pontos completamente necessários à direção dos Estados

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 É dizer comum, mas tanto mais verdadeiro quanto tem estado em todos os tempos na boca e no
espírito de todos os homens, que a pena e a recompensa são os dois pontos mais importantes para a
direção de um reino.

 É certo que quando mesmo não se servisse ao governo dos Estados por nenhum princípio senão o de
castigar aos que o desservem, e religiosos sendo a recompensar aqueles que lhes procuram alguma
vantagem notável, não se poderia mal governar, não havendo ninguém que não seja capaz de ser contido
no seu dever pelo temor ou pela esperança.

 Faço marchar a pena adiante da recompensa, porque se fosse necessário privar-se de uma das duas,
valeria mais dispensar a última do que a primeira.

 O bem devendo ser abraçado pelo amor próprio, em rigor não se deve recompensa ao que a ele se
subordina. Mas não havendo crime que não viole ao que se é obrigado, não há um que não obrigue à
pena que é devida à desobediência,