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e essa obrigação é tão estrita que em muitas ocasiões não se pode
deixar uma falta sem cometer-se outra.

 Falo de faltas que ferem o Estado por deliberação projetada, e não de várias outras que surgem por
acaso e por desgraça, para os quais os príncipes podem e devem usar de indulgência.

 Embora perdoar em tal caso seja uma coisa louvável, não castigar numa falta de conseqüência e cuja
impunidade abre a porta à licenciosidade, é uma omissão criminosa.

 Os teólogos estão de acordo com os políticos sobre isso e todos convêm que em certos pontos ou os
príncipes fariam mal em não perdoar, ou aqueles que são encarregados do governo público, seriam
também indesculpáveis, se em lugar de uma severa punição usassem de indulgência. A experiência
ensinando àqueles que têm uma longa prática do mundo, que os homens perdem facilmente a memória
dos benefícios que recebem, e que, quanto mais recebem, o desejo de os ter maiores torna-os
freqüentemente ambiciosos e ingratos, ela nos faz conhecer também que os castigos são o meio mais
seguro para conter cada um no seu dever. Visto que se esquecem tanto menos quanto maior impressão
fazem sobre nossos sentidos, mais poderosos sobre a maioria dos homens, do que a razão, que não tem
força sobre muitos espíritos.

 Ser rigoroso em relação aos particulares que se jactam de desprezar as leis e as ordens de um Estado é
sem dúvida bom para o público. E não se poderia cometer um maior crime contra os interesses públicos,
do que se tornar indulgente para com aqueles que os violam.

 Entre vários monopólios, facções e sedições que se têm feito no meu tempo neste reino, jamais vi que
a impunidade tivesse levado nenhum espírito naturalmente a se corrigir de sua má inclinação. Mas ao
contrário voltaram ao seu primeiro vomitar, e até com mais estardalhaço na segunda vez do que na
primeira.

 A indulgência praticada até agora neste reino, pô-lo muitas vezes em grandes e deploráveis extremos.

Testamento político.

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 As faltas aí ficando impunes, cada uma faz uma profissão do seu cargo, e sem respeito pelo que
constituía sua obrigação para cumpri-la dignamente, considerou somente o que podia fazer para melhor
proveito.

 Se os antigos acharam perigoso viver sob um príncipe que nada queria pôr sob a conta do rigor do
direito, também notaram que ainda mais o era viver num Estado cuja fraqueza abre a porta a toda sorte de
licenças.

 Tal príncipe, ou magistrado, temerá pecar por excesso de rigor, devendo dar contas a Deus, e não
poderia senão ser censurado por homens equilibrados se não exerce o rigor prescrito pelas leis.

 Várias vezes fiz ver a V. M. e suplico ainda que se recorde com cuidado, porque assim como se
encontram príncipes que têm necessidade de ser desviados da severidade, para evitar a crueldade a que
são levados por natural inclinação, V. M. tem necessidade de ser advertida contra um falsa demência,
mais perigosa do que a própria crueldade, pois que a impunidade dá lugar a exercê-la muito quando não é
impedida de vez pelo castigo.

 A vara, que é o símbolo da justiça, não deve ser jamais inútil; sei bem, também, que não deve ser tão
acompanhada de rigor, nem destituída de bondade; mas essa última qualidade não se encontra na
indulgência que autoriza as desordens, que, por pequenas que sejam, são em geral tão prejudiciais ao
Estado, que podem causar a sua ruína.

 Se se encontra alguém tão mal avisado que condene neste reino a severidade necessária aos Estados,
porque até agora não foi praticada, não será necessário mais do que abrir-lhe os olhos, para fazê-lo
conhecer que a impunidade até o presente foi muito comum, e a única causa por que a ordem e a regra aí
jamais tiveram entrada, é que a continuação das desordens constrange a recorrer aos últimos remédios,
para impedir-lhes o curso.

 Tantos partidos quantos se formaram no passado, contra os reis, não tiveram outra semente senão a
excessiva indulgência. Enfim desde que se saiba a nossa história, não se poderá ignorar esta verdade, de
que reproduzo testemunho tanto menos suspeito naquilo de que se trata, quanto é tirado da boca dos
nossos inimigos o que em outra ocasião torná-lo-ia não aceitável. O cardeal Zapata, homem de bom
senso, encontrando os senhores Baarut e Bautru na antecâmara do rei seu Senhor, um quarto de hora
depois que a notícia chegasse a Madri, da execução do duque de Montmorency, fez-lhe esta pergunta:
Qual era a causa principal da morte do duque? Bautru respondeu prontamente, segundo a qualidade do
seu espírito fogoso, em espanhol: Sus faltas. - No, retrucou o cardeal, pero la clemencia de los reyes
antepassados; o que equivalia a dizer que as faltas que os predecessores do rei cometeram eram mais a
causa do castigo desse duque, do que as suas próprias.

 Em matéria de crime de Estado, é preciso fechar a porta à piedade e desprezar as queixas dos
interessados, e os discursos da população, ignorante, que se queixa algumas vezes do que lhe é mais útil
e às vezes completamente necessário.

 Os cristãos devem perder a lembrança das ofensas que recebem pessoalmente, mas os magistrados são
obrigados a não esquecer aquelas que interessam o público; e com efeito deixá-las impunes é antes
cometê-las de novo, pois que perdoá-las é refazê-las.

Testamento político.

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 Há muita gente cuja ignorância é tão grosseira que estima suficiente remediar um mal, sem
estabelecer defesa nova; mas tanto é necessário prevenir que posso dizer com verdade que as novas leis
não são tanto remédios às desordens dos Estados, como testemunhos da sua moléstia e provas seguras da
fraqueza do governo; tendo em vista que se as antigas leis fossem bem executadas, não haveria
necessidade nem de renová-las nem de fazer outras para impedir desordens que não tivessem surto sem
que uma grande autoridade logo viesse punir os males cometidos.

 As ordenações e as leis são inúteis, se não são seguidas de execução, tão absolutamente necessária,
que embora em caminho dos negócios comuns, a justiça requer uma prova autêntica, não sendo o mesmo
no que concerne ao Estado; pois que em tal caso, o que parece por conjecturas imediatas deve algumas
vezes ser tido por suficientemente esclarecido; tanto que os partidos e os monopólios que se formam
contra a salvação pública, tratam-se de ordinário com tanto segredo, que nunca se tem prova evidente,
senão pelo acontecimento que não tem remédio.

 É preciso em tais ocasiões começar algumas vezes pela execução, ao contrário do que se faz em
outros casos; o esclarecimento do direito por testemunhas ou por provas irrecusáveis deve preceder a
tudo.

 Estas máximas parecem perigosas, e com efeito não são inteiramente isentas de perigo; mas elas o
serão com efeito, se não se servindo dos últimos e extremos remédios, aos males que não se verificarem
senão por conjecturas, for interrompido somente o seu curso por meios inocentes, como o afastamento ou
a prisão das pessoas suspeitas.

 A íntegra consciência e a penetração de um espírito judicioso, sábio durante o debate, conhece tão
certamente o futuro quanto o presente; que o julgamento medíocre pela vista das próprias coisas,
garantirá essa prática de más conseqüências; e por pior que seja, o abuso que se pode cometer não é
perigoso senão para os particulares, à vida dos quais não se toca por tal via, e não deixa de ser recebível,
visto que seu interesse não é comparável ao do público.

 Entretanto é preciso ser comedido para não abrir por esse meio uma porta à tirania, contra a qual
podia haver garantia se como disse acima, não nos servirmos em casos duvidosos, senão de remédios
inocentes.

 As punições são tão necessárias no que concerne ao interesse público que não se pode ter nesse caso,
faltas de indulgência, compensando um mal presente por um bem passado, isto é, deixar um crime
impune,