testamento_politico
182 pág.

testamento_politico

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
porque aquele que o cometeu, serviu bem em outras ocasiões.

 E entretanto o que até agora se tem praticado neste reino, onde não somente as faltas leves foram
esquecidas, pela consideração dos serviços de grande importância; mas os maiores crimes abolidos por
serviços insignificantes, o que é completamente insuportável.

 O bem e o mal são tão diferentes e tão contrários que não devem ser postos em paralelo um com o
outro; são dois inimigos entre os quais não se deve estabelecer troca nem comércio; se um é digno de
recompensa, o outro o é de castigo, e todos dois devem ser tratados segundo seu mérito.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (112 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

 Quando a consciência pudesse sofrer que se deixasse uma ação assinalada sem recompensa, e um
crime notável sem castigo, a razão de Estado não o poderia permitir.

 A punição e as recompensas dizem respeito mais ao futuro de que ao passado é preciso que um
príncipe seja severo, para afastar os males que se pudessem cometer, com a esperança de graça, se o
souberem excessivamente indulgente, e que ele faça o bem àqueles que são mais úteis ao público, para
dar-lhes lugar a que continuem a fazer o bem, e a todo o mundo de os imitar seguindo o seu exemplo.

 Haveria aí prazer em perdoar um crime, se a impunidade não deixasse lugar ao temor das más
conseqüências; e a necessidade do Estado dispensaria algumas vezes legitimamente de recompensar um
serviço, se, privando aquele que o prestou, do seu salário, não se privasse também conjuntamente da
esperança de o receber de futuro.

 As almas nobres tomando tanto prazer com o bem, quanto têm asco de fazer o mal, deixo o discurso a
respeito dos castigos e dos suplícios para terminar agradavelmente este capítulo tratando das
recompensas; sobre o que não quero deixar de notar, que há essa diferença entre as graças por
reconhecimento de serviços e aquelas que não têm outro fundamento além do puro favor dos reis, que
estes devem ser grandemente moderados, enquanto os outros não devem ter outros limites, senão aqueles
mesmos dos serviços feitos ao público.

 O bem dos Estados requer tão absolutamente que seus príncipes sejam liberais, que se algumas vezes
me veio ao espírito, que há homens que por sua propensão natural não são benfazejos, sempre estimei
que esse defeito, censurável em todas as pessoas, é uma perigosa imperfeição nos soberanos, que sendo
mais especialmente do que os outros homens, feitos à imagem do Criador, que por sua natureza faz bem
a todo o mundo, não podem limitar-se nesse ponto sem que fiquem responsáveis ante Deus.

 A razão está em que Deus quer que os soberanos tenham prazer seguindo-lhe o exemplo e que
distribuam os bens de ânimo bondoso; de outra forma, obrigando, sem essa condição, parecem-se aos
avaros, que servem bons comestíveis nos seus festins, mas tão mal preparados, que os convidados os
comem sem prazer, e sem ficarem agradecidos aos que fazem a despesa.

 Estender-me-ia mais sobre este assunto se não tivesse falado em outro dos capítulos precedentes,
representando quanto é importante que os príncipes façam bem aos do seu conselho, que os servem
fielmente.

CAPÍTULO VI
Um tratar contínuo não contribui pouco ao bom sucesso dos negócios.

 Os negócios lucram tanto com o trato contínuo quando conduzidos com prudência, que não é possível
acreditar se não se sabe disso por experiência própria.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (113 of 182) [17/8/2001 16:48:57]

 Confesso que não soube dessa verdade senão cinco ou seis anos depois de ter sido empregado no
manejo dos negócios: mas tenho disso, agora, tanta certeza que ouso dizer sem medo, que tratar sem
cessar, abertamente ou secretamente em todos os lugares, embora não se tenha um fruto presente e o que
se possa esperar para o futuro não seja aparente, é coisa necessária ao bem dos Estados.

 Posso dizer com verdade ter visto em meu tempo mudar por completo a face dos negócios da França e
da cristandade, para ter, sob a autoridade do rei, praticado este princípio, até então absolutamente
negligenciado neste reino.

 Entre as sementes, há algumas que produzem frutos melhores do que outras; há algumas que assim
que caem em terra germinam e saem-lhe brotos, enquanto outras demoram muito tempo antes de
produzirem o mesmo efeito.

 Aquele que negocia encontra enfim um instante que é próprio a atingir os seus fins; e quando mesmo
não o encontrasse, pelo menos é verdade que nada pode perder nisso, e por meio das negociações fica
advertido do que se passa no mundo, o que não é de pouca conseqüência para o bem dos Estados.

 As negociações são remédios inocentes que jamais fazem mal, e é preciso agir por toda a parte, perto
e longe e sobretudo em Roma.

 Entre os bons conselhos que Antonio Perez deu ao falecido rei, pôs-lhe na idéia tornar-se poderoso
nessa corte e não sem razão, pois que os embaixadores e todos os príncipes da cristandade que aí se
acham julgam que aqueles que são nessa corte os mais poderosos, em crédito e em autoridade, são eles
mesmos, com efeito, que têm mais poder e fortuna; e em verdade seu julgamento não é mal fundado,
sendo certo que embora não haja ninguém no mundo que deva fazer tanto alarde como os Papas, não há
lugar em que o poderio seja mais considerado do que na sua corte; o que mostra claramente que o
respeito que aí se ministra aos embaixadores cresce ou diminui e muda de face todos os dias, segundo o
negócio de seus senhores vão bem ou mal, donde provém freqüentemente que esses ministros vêem duas
caras por dia em cada pessoa, segundo sejam as notícias do correio da tarde, em relação às que vêm de
manhã.

 Os Estados são como os corpos humanos; a boa cor que aparece na face do homem faz julgar o
médico que nada haja estragado por dentro, e da mesma forma que a boa tez procede da boa disposição
das partes nobres internas também é certo que o melhor meio que tem um príncipe para estar bem, em
Roma, é estabelecer seus negócios internos de maneira perfeita, porque é quase impossível ter grande
reputação nessa cidade, que há muito foi cabeça e que é o centro do mundo, sem estar universalmente em
posição vantajosa quanto aos interesses públicos.

 A luz natural ensina a cada um que é preciso fazer caso dos seus vizinhos, porque como sua
vizinhança lhes dá lugar a poderem perturbar, põe-nos também em situação de poder servir, assim como
o exterior de uma praça, que impede que os outros se aproximem das muralhas.

 Os espíritos medíocres fecham os seus pensamentos na extensão dos Estados em que nasceram, mas
aqueles aos quais Deus deu mais luz, aprendendo dos médicos, que nos males maiores, as revoluções se
fazem violentamente pelas partes mais afastadas, não esquecem nada para se fortificarem ao longe.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (114 of 182) [17/8/2001 16:48:58]

 E preciso agir em toda a parte (o que é bom notar) segundo o humor e os meios convenientes ao
alcance daqueles com que se negocia.

 Diversas nações têm diversos movimentos, umas concluem rapidamente o que querem fazer e as
outras marcham em tudo com passo de chumbo.

 As Repúblicas são deste último gênero, vão lentamente, e de ordinário não se obtém delas da primeira
vez o que se pede, mas contentando-se com pouco logo se obtém mais.

 Como os grandes corpos movem-se mais dificilmente que os pequenos, tais gêneros de Estados, sendo
compostos de várias cabeças, são muito mais tardos em suas resoluções e em suas execuções, que os
outros.

 É por essa razão a prudência obriga aqueles que negociam com eles a dar-lhes tempo, e não se
apressarem senão tanto quanto sua constituição natural permite.

 É de notar que assim como as razões fortes e sólidas são excelentes para os grandes e poderosos
gênios, as fracas são melhores para os medíocres, porque estão mais ao seu alcance.

 Cada um concebe os