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assuntos segundo sua capacidade; os maiores parecem fáceis e pequenos aos
homens de bom entendimento e de grande coração, e aqueles que não têm essas qualidades acham de
ordinário tudo difícil.
 Tais espíritos são incapazes de conhecer o peso do que lhes é proposto, e fazem algumas vezes pouca
conta do que com efeito é de grande importância, e algumas vezes também muito caso do que nem
merece ser considerado.
 É preciso agir com cada um segundo o alcance do seu espírito. Em certas ocasiões é preciso falar e
agir corajosamente; depois que se pôs o direito do nosso lado, até a ponto de ruptura, e o contrário se
dando é preferível prevenir e afogá-lo no nascedouro.
 Em outros, em lugar de renegar fora de propósito certos discursos feitos imprudentemente por aqueles
com os quais se trata, é preciso sofrê-los com prudência e destreza, não tendo orelhas senão para ouvir o
que convém para se chegar ao fim.
 Há gente tão presunçosa, que pensa dever usar de bravura em todos os encontros, acreditando que é
um bom meio para obter o que não pode pretender pela razão, e a que não saberiam constranger pela
força.
 Pensam ter feito o mal quando ameaçaram fazê-lo; mas além de que este processo é contrário à razão,
não dá resultado com gente honesta.
 Como com os bobos não se pode negociar, há espíritos finos e tão delicados que não são mais
próprios que os outros, porque da bondade de seus espíritos, para impedi-los de serem enganados, devem
se guardar de não usá-los também para enganar aos outros com que tratam.
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 Desconfia-se sempre daquele que se vê agir com fineza, e que dá má impressão da franqueza e
fidelidade com que se deve agir; isso não adianta seus negócios.
 As mesmas palavras têm muitas vezes dois sentidos, um que depende da boa fé e da ingenuidade dos
homens, outro de sua arte e sutileza, pelas quais é fácil de torcer o verdadeiro significado de uma palavra
para explicações todas pessoais.
 As grandes negociações não devem ter um só momento de interrupção; é preciso prosseguir no que se
empreende com permanência de intenções, de sorte que se não cesse de agir senão pela razão, e não por
preguiça de espírito, por indiferença das coisas, vacilação de pensamentos e resolução contrária.
 Não se deve também ter desgosto por um acontecimento mau, pois que isso acontece algumas vezes, e
o que se empreende com mais razão, algumas vezes dá resultados infelizes.
 E difícil combater constantemente e sempre ser vencedor, e é marca de uma extraordinária benção
quando os sucessos são favoráveis às grandes coisas e somente contrários naquelas cujo acontecimento é
pouco importante.
 É muito que as negociações sejam tão inocentes, que delas se possam tirar grandes vantagens sem se
receber, nunca, algum mal.
 Se alguém diz freqüentemente que alguns são desagradáveis, consinto que desestime completamente o
meu julgamento, se não reconhece, no caso em que queira abrir os olhos, que em lugar de poder imputar
os maus sucessos que notou no remédio que proponho, porque não é para aqueles que dele se não
souberam bem servir.
 Quando não produzisse outro bem além de ganhar tempo em certas ocasiões, o que acontece de
ordinário, o uso seria muito recomendável e útil aos Estados, pois que muitas vezes não é preciso mais do
que um instante para evitar uma tempestade.
 Ainda que as alianças que se contraem por casamentos entre as coroas não produzem sempre o fruto
que se pode desejar, não devem ser desleixados, como um dos mais importantes motivos das
negociações.
 Sempre se tira essa vantagem: retêm por um tempo os Estados em alguma consideração de respeito
uns em relação aos outros, e dessa situação é suficiente que algumas vezes aproveitem.
 Assim como para se ter bons frutos é preciso enxertar; os príncipes de França, que tiram seu
nascimento de parentes de igual e de alta qualidade, devem ser pela mesma razão elevados, e sem dúvida
sua classe se conserva tanto mais ilustre quanto menos misturada com outra.
 Enfim as alianças servem algumas vezes para extinguir as ligas e as ligações contra os Estados e
embora não produzam sempre este bom efeito, a utilidade que usufrui a casa da Áustria mostra bem que
elas não são para desprezar.
 Em matéria de Estado é preciso tirar proveito de tudo; e o que pode ser útil não deve ser desprezado.
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 As ligas são deste gênero; o fruto é incerto, e entretanto é preciso que não se deixe de fazer caso;
embora seja verdade que eu não aconselharia nunca a um Grande Príncipe que embarcasse
voluntariamente, pensando numa liga, em um projeto de execução difícil, se não se sente suficientemente
forte para fazê-lo vingar, apesar da falta possível dos seus colegas.
 Duas razões me fazem avançar essa proposição.
 A primeira tira a sua origem e sua força da fraqueza das uniões, que jamais são demasiado seguras
entre diversas cabeças coroadas.
 A segunda consiste em que os pequenos príncipes são em geral tão zelosos e diligentes em fazer
entrar os grandes reis em empresas de importância quanto lerdos em secundá-los, embora estritamente
obrigados, havendo alguns, mesmo, que fogem da responsabilidade à custa daqueles que fizeram
embarcar contra a vontade.
 Embora seja um dizer comum, que quem tem a força tem ordinariamente a razão, é verdade,
entretanto, que duas potências desiguais, juntas por um tratado, a maior corre mais risco de ser
abandonada do que a outra; a razão é evidente; a reputação é tão importante para um Grande Príncipe,
que não se lhe pode propor nenhuma vantagem que possa compensar-se a perda se faltar aos
compromissos de palavra e de fé. E pode-se fazer um tão bom partido àquele cujo poder é medíocre,
embora sua qualidade seja soberana, que provavelmente ele preferirá sua utilidade à sua honra, o que o
fará faltar à sua obrigação em relação àquele que prevendo a sua infidelidade, não poderia resolver-se a
preveni-la; porque ser abandonado por seus aliados não lhe é de tão grande conseqüência quanto o
prejuízo que receberia se violasse a fé.
 Os reis devem tomar cuidado com os tratados que fazem; mas quando eles são feitos, devem
observá-los religiosamente.
 Sei que muitos políticos ensinam o contrário, mas sem considerar neste lugar o que a fé cristã pode
fornecer-nos contra tais máximas; sustento que, desde que a perda da honra é mais do que a perda da
vida, um Grande Príncipe deve antes arriscar sua pessoa, e mesmo o interesse do seu Estado, do que
faltar à sua palavra, que ele não pode violar sem perder a sua reputação, e por conseqüência a maior força
dos soberanos.
 A importância deste lugar me faz notar que é de todo necessário ser exato na escolha dos
embaixadores e outros negociadores; e que não se seria demasiado severo punindo aqueles que
ultrapassassem seus poderes; pois que, por tais faltas, comprometem a reputação dos príncipes, e o bem
dos Estados, tudo junto.
 A facilidade ou a corrupção de certos espíritos, é algumas vezes tão grande, e a cócega que têm alguns
outros que não são nem fracos nem maus, de fazer alguma coisa, é às vezes tão extraordinária, que se não
são mantidos dentro de limites que lhe são prescritos, pelo temor da sua absoluta perda, sempre se
encontrará quem se jogue a fazer antes maus tratados do que nenhum.
 Consegui tanta experiência dessa verdade, que ela me constrange a terminar este capítulo dizendo que
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quem deixar de ser rigoroso em tais ocasiões, faltará ao que é necessário à subsistência dos Estados.
 
CAPÍTULO VII
Uma das maiores vantagens que se possa conseguir para um Estado é destinar cada um ao emprego
para o qual é mais próprio
 Acontecem tantos males aos Estados,