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por causa da incapacidade daqueles que são empregados nos
principais cargos e nas comissões mais importantes, que o Príncipe, e aqueles que fazem parte da
administração dos seus negócios, não poderiam considerar zelo excessivo aquele que visasse destinar
cada um às funções para as quais é capaz.

 Os espíritos mais clarividentes, sendo mesmo algumas vezes cegos no que lhes diz respeito, e
encontrando-se poucos homens que queiram impor-se limites pelas regras da razão; aqueles que contam
com a benevolência dos príncipes, crêem sempre ser dignos de toda a sorte de empregos, e sob este falso
fundamento nada esquecem do que podem fazer para obtê-los.

 Entretanto é verdade que aquele que é capaz de servir o público em certas funções será capaz de
arruiná-lo em outras.

 Assisti a tão estranhos inconvenientes devido às más escolhas feitas no meu tempo, que não posso
deixar de notar a respeito a fim de que sejam evitados os mesmos casos no futuro.

 Se os médicos não consentem experiências com pessoas de consideração, devemos considerar quanto
é perigoso pôr nos principais cargos do Estado pessoas sem experiência, dando lugar por esse meio, a
que aprendizes experimentem em ocasiões em que mestres e obras-primas são necessários.

 Nada é mais capaz de arruinar um Estado, do que um tal proceder, verdadeira fonte de toda a sorte de
desordens.

 Um embaixador mal escolhido para fazer um grande tratado pode, por sua ignorância, trazer um
prejuízo notável.

 Um general de exército, incapaz de tal emprego, é capaz de arriscar em má hora toda a fortuna do seu
senhor e a felicidade do seu país.

 Um governador de praça forte importante, destituído das condições necessárias à sua guarda, pode,
num instante, provocar de tal forma a ruína de todo um reino, que talvez um século apenas baste para
reparar seus erros.

 Ouso dizer, ao contrário, que se todos aqueles que estão nos empregos públicos fossem dignos deles,
os Estados não somente estariam isentos de muitos acidentes que perturbam seu repouso, mas gozariam

Testamento político.

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de uma felicidade indizível.

 Sei bem que é muito difícil encontrar pessoas que tenham todas as qualidades requeridas para os
cargos que se lhes destina; mas ao menos é preciso que sejam providas dos principais, e quando não se
pode encontrar definitivos, não é pequena satisfação escolher os melhores que se encontrem num século
estéril.

 Se a máscara, com que a maior parte dos homens cobrem o rosto, e se os artifícios dos quais
servem-se ordinariamente para esconder seus defeitos, fazem-nos desconhecidos a tal ponto que sendo
postos nos grandes cargos, parecem tão maliciosos quanto aí esperava-se que fossem virtuosos quando
foram escolhidos; é preciso prontamente reparar o engano, e se a indulgência pode fazer tolerar alguma
leve incapacidade, não deve nunca suportar a malícia muito prejudicial aos Estados para ser tolerada em
consideração dos interesses particulares.

 É neste ponto que se precisa representar aos reis até onde são responsáveis diante de Deus quando dão
por favoritismo os empregos e os mais altos cargos que não podem ser possuídos por espíritos medíocres,
senão com prejuízo dos Estados.

 É nessa ocasião que se deve conhecer que não se condenando por completo as afeições particulares
que se pode ter por uma ou outra pessoa; não se pode sem outro fundamento além da inclinação natural
desculpar os príncipes que se deixam levar a tal ponto que dêem aos que estimam dessa maneira, cargos
no exercício dos quais parecem ser tão prejudiciais ao Estado, quanto úteis a si próprios.

 Os felizardos que gozam das boas graças dos príncipes pela força da sua inclinação, são seres felizes a
ponto de receberem vantagens sem que tenham qualidades que os possam tornar dignos delas, e o
público não pode queixar-se com razão, senão da sua falta de moderação.

 Mas é um sinistro augúrio para um príncipe, quando aquele que é mais considerável ao seu interesse
não o é pelo favor; e os Estados nunca estão em pior estado do que quando as inclinações que o príncipe
tem por alguns particulares prevalecem sobre os serviços daqueles que são mais úteis ao público.

 Em tal caso nem a estima do soberano, nem o amor que se lhe tributa, nem a esperança da recompensa
excitam mais a virtude; fica-se ao contrário numa indiferença do bem e do mal, e a inveja e o ciúme, e o
despeito levam cada um a negligenciar o seu dever, porque não há ninguém que ache que a cumpri-lo
obtenha vantagem.

 Um príncipe que quer ser amado pelos seus súditos deve preencher os principais cargos, e as
primeiras dignidades do seu Estado, com pessoas tão estimadas por todo o mundo, que logo se possa
achar a causa da escolha no mérito.

 Tal gente deve ser procurada por toda a extensão do país e não recebida pelas importunações ou
escolhida na massa daqueles que fazem mais pressão à porta do gabinete dos reis ou de seus favoritos.

 Se o favor não tem lugar nas escolhas, e o mérito é único fundamento delas, além de que o Estado se
achará bem servido, os príncipes evitarão muitas ingratidões, que se encontram freqüentemente em certos
espíritos que são tanto menos reconhecidos dos benefícios que recebem quanto menos merecem. Sendo

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certo que as mesmas qualidades que tornam os homens dignos do favor são aquelas que os tornam
capazes e desejosos de reconhecimento.

 Vários têm bons sentimentos no momento em que recebem favor, mas a constituição da sua natureza
os leva pouco depois, e eles esquecem facilmente o que devem aos outros porque não se incomodam
senão com eles próprios; e como o fogo converte tudo em sua substância, não consideram os interesses
públicos senão para os converter à sua vantagem, e desprezam igualmente aqueles que lhes fazem bem, e
os Estados nos quais eles o recebem.

 O favoritismo pode inocentemente ter lugar em certas coisas; mas um reino está em mau estado
quando o trono de tal deus eleva-se acima da razão.

 O mérito deve sempre pesar mais na balança, e quando a justiça está de um lado, o favor não pode
prevalecer sem injustiça.

 Os favoritos são tanto mais perigosos, quanto aqueles que se elevam pela fortuna servem-se raramente
da razão, e como ela não é favorável aos seus desígnios, encontra-se ordinariamente na impossibilidade
de impedir as ações daqueles que as cometem em prejuízo do Estado.

 A dizer verdade, nada vejo tão capaz de arruinar o reino mais florescente do mundo, do que o apetite
de tal gente, ou o desregramento de uma mulher que domine o príncipe.

 Avanço com tanta convicção esta proposição, porque a tais males não existem remédios senão os que
dependem do acaso e do tempo, que deixando perecer os doentes, sem os socorrer, devem ser
considerados os piores médicos do mundo.

 Assim como a luz mais intensa não faz que um cego enxergue o seu caminho, também não há
nenhuma razão que possa clarear os olhos de um príncipe relativamente àqueles que cobre de favor e de
paixão.

 Quem tenha os olhos vendados não pode fazer boa escolha senão por acaso, e a salvação do Estado
requerendo que sejam feitas segundo a razão, requer que os príncipes não estejam sujeitos a pessoas que
os privam da luz de que têm necessidade para ver os objetos que se põem diante dos seus olhos.

 Quando o coração dos príncipes é tomado por esse lado, é quase inútil bem fazer, porque os artifícios
daqueles que são senhores de suas afeições enegrecem as mais puras ações e fazem freqüentemente
passar os serviços mais assinalados por ofensas.

 Vários príncipes se perderam por terem preferido sua afeição particular aos interesses públicos.

 Tais desgraças aconteceram a alguns pelo excesso das paixões desregradas que tiveram pelas
mulheres.

 Alguns caíram em tais inconvenientes por uma tão simples