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e tão cega paixão concebida pelos seus
favoritos, que para aumentar a sua fortuna arruinaram a sua própria.

Testamento político.

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 Outros houve que não amando nada naturalmente, não deixaram de ter movimentos tão violentos em
favor de certos indivíduos, que estes, foram causa de sua perda.

 Causará espanto talvez esta proposição que é tão verdadeira, entretanto, quanto é fácil de conceber; e
se se considera que tais movimentos são moléstia nos espíritos agitados e que assim como a causa das
febres é a corrupção dos humores, também se pode dizer que essas espécies de afecções violentas estão
antes baseadas na falta daquele em quem se encontram, do que no mérito daqueles que recebem o efeito
e a vantagem.

 Tais males trazem de ordinário seu remédio com eles, porque sendo violentos são de pouca duração;
quando continuam, entretanto, trazem freqüentemente, assim como as febres dessa natureza, a morte aos
doentes, ou uma falta de saúde que, depois, com dificuldade se repara.

 Os príncipes mais sábios evitaram todos estes diversos males, regulando de tal forma as suas afeições
que nelas a razão serviu de guia.

 Muitos se curaram depois de ter aprendido à sua custa que, se não o tivessem feito, sua ruína era
inevitável.

 Para voltar precisamente ao ponto da questão proposta neste capítulo, que tem por fim fazer conhecer
quanto é importante discernir aqueles que são mais próprios para os empregos; terminarei dizendo que,
pois que o interesse dos homens é o que os faz de ordinário mal usar os cargos que lhes são confiados: os
eclesiásticos são freqüentemente preferíveis a muitos outros quando se trate dos grandes empregos, não
porque sejam menos sujeitos aos seus interesses, mas porque têm muito menos do que os outros homens,
visto que, não tendo mulher nem filhos, são livres dos liames que ligam mais.

CAPÍTULO VIII
Do mal que os aduladores, maldizentes e intrigantes causam aos Estados, e quanto é importante
afastá-los de junto dos reis, banindo-os da sua corte

 Não há peste tão capaz de arruinar um Estado, quanto os aduladores, maldizentes, e certos espíritos
que não têm outro desígnio senão formar cabalas e intrigas nas cortes em que vivem.

 São tão industriosos a espalhar seu veneno, por diversas formas imperceptíveis, que é difícil obter-se
garantia contra eles sem tomar cuidado de muito perto.

 Como não têm condição nem mérito, para tomarem parte nos negócios, nem são bons para tomarem
interesse pela coisa pública, não se importam de os atrapalhar; mas, pensando ganhar muito na confusão,
não esquecem nada do que podem, para derrubar por suas bajulações e seus artifícios e por suas intrigas,
a ordem e a regra que os privam tanto mais absolutamente de toda a esperança de fortuna quanto num
Estado bem disciplinado não se pode construir tal coisa senão com fundamento no mérito de que são

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destituídos.

 Além de ser coisa sabida que quem não é de um negócio tende a arruiná-lo, não há mal que tal gente
não faça; e portanto não há precauções que os príncipes não devam tomar contra a malícia que se
esconde de tantas formas que é difícil garantir-se contra elas.

 Há alguns que, destituídos de coração e de espírito, não deixam de os ter suficientes para fingir uma
tão grande firmeza quanto mais profunda e severa sabedoria, fazendo-se valer, achando o que dizer em
todas as ações alheias, mesmo quando são louváveis e impossíveis de melhorar no assunto de que se
trate.

 Nada há tão fácil quanto achar razões aparentes para condenar o que melhor não se pode fazer, e o
que foi empreendido com tão sólidos fundamentos que não se poderia deixar de fazer, sem cometer falta
notável.

 Outros não tendo boca nem espírito, condenam por seus gestos, meneios de cabeça e sorrisos, o que
não ousariam condenar por palavras, e que pela razão não se poderia condenar.

 Para não adular, desde que se trate de tal gente, não basta o príncipe interdizer-lhes o seu ouvido; mas
é preciso bani-los do gabinete e da corte; porque além de ser a sua leviandade algumas vezes tão grande
que entre o seu falar e o persuadir não há diferença, quando mesmo eles não podem ser persuadidos, não
deixam de fazer uma certa impressão que faz efeito de outra vez se não batidos pelo mesmo artifício. E
com efeito a pouca aplicação que têm com os negócios, leva-os freqüentemente a julgar o processo antes
pelo número de testemunhas do que pelo peso das acusações.

 Apenas poderia eu tratar de todos os males de que esses maus espíritos foram autores, durante o
reinado de V. M. Mas deles tenho vivo ressentimento por causa do interesse do Estado, que me
constrange a dizer que é preciso ser impiedoso com relação a essa gente a fim de prevenir tais
movimentos como aqueles que tiveram lugar no meu tempo.

 Por mais firme e constante que seja um príncipe, ele não pode sem grande imprudência, e sem
expor-se à perda de si próprio, conservar junto de si maus espíritos que podem surpreender de improviso,
assim como durante o contágio um vapor maligno agarra num instante o coração e o cérebro dos homens
mais fortes e robustos, quando pensam estar mais sãos.

 É preciso expulsar essas pestes públicas e não deixá-las aproximar nunca sem que inteiramente
tenham descarregado o seu veneno, o que acontece tão raramente, que o cuidado que se deve ter com o
repouso, obriga antes à manutenção do seu afastamento, do que a caridade convida ao seu chamamento.

 Publico sem temor esta proposição, porque nunca vi espíritos que gostassem de facções, nutridos nas
intrigas da corte, perderem seus maus hábitos, mudar sua natureza senão por impossibilidade; porque o
falar não mudando neles, visto que a vontade de fazer mal perdura, é tirar deles o poder.

 Se bem que alguns desses maus espíritos possam sinceramente converter-se, a experiência
ensinando-me que por um que fica em verdadeiro arrependimento, há vinte que voltam a seus vômitos,
decido que é melhor usar de rigor com relação a um que seja digno de graça, do que expor o Estado a

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algum prejuízo por excesso de indulgência, ou com aqueles que guardam sua malícia no coração e não
reconhecem sua falta senão por cartas, ou com aqueles cuja leviandade deve fazer temer novas recaídas,
piores do que os primeiros males.

 Que os anjos não façam mal, não é maravilha, pois que são confirmados em graça; mas que espíritos
obstinados neste gênero de malícia façam o bem quando podem fazer mal, é uma espécie de milagre, de
que a poderosa mão de Deus é o verdadeiro móvel; e é certo que um homem de grande probidade terá
muito mais dificuldade em subsistir num século corrompido do que aqueles de quem não se temem a
virtude, por não serem de reputação tão inteira.

 Estima-se às vezes que é da bondade dos reis tolerar as coisas que parecem de pouca importância no
seu começo; e eu digo que eles seriam demasiado cuidadosos descobrindo e afogando as menores
intrigas de suas cortes, no seu nascedouro.

 As grandes fogueiras nascendo de pequenas faíscas, quem extingue uma, não sabe o incêndio que
preveniu; mas para o conhecer, se deixa alguma sem apagar, e embora semelhantes nem sempre
produzem os mesmos efeitos, se o fogo pegar talvez não se possa dar-lhe mais remédio. Que seja
verdadeiro ou falso que um pequeno peixe possa parar um grande navio, tanto quanto avançar um
momento o curso lhe seria possível, é fácil de conceber, pelo que os naturalistas nos contam de tal peixe.
É preciso ter cuidado em lavar um Estado do que pode fazer para o curso dos negócios, sem que possa
por nada fazê-lo caminhar mais depressa.

 Em tais ocasiões não basta afastar os grandes por causa do seu poder, é preciso fazer o mesmo com os
pequenos, por causa da