testamento_politico
182 pág.

testamento_politico

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
sua malícia. Todos são igualmente perigosos, e se há alguma diferença, a gente
menor, por mais escondida, é mais para temer.

 Assim como o mau ar de que já falei, fechado num cofre, infesta e contagia uma casa, e pode infestar
uma cidade, assim as intrigas de gabinete enchem a corte, os príncipes, de parcialidades que perturbam
enfim o corpo do Estado.

 Podendo dizer com verdade que jamais vi perturbação neste reino, com outro começo, digo mais uma
vez que é mais importante do que parece, apagar não somente as primeiras faíscas de tais divisões,
quando aparecem, mas preveni-las pelo afastamento daqueles que não têm outro cuidado senão
acendê-las.

 O repouso do Estado é uma coisa muito importante, para poder-se faltar ao remédio sem
responsabilidade diante de Deus.

 Algumas vezes vi a corte em meio da paz, tão cheia de facções, por causa da falta de seguimento a
este salutar conselho, que pouco faltou para que o Estado falisse.

 O conhecimento disso e o conhecimento que a história pode dar a V. M. de semelhante perigo, ao qual
vários e especialmente os últimos dos seus predecessores encontraram-se expostos pela mesma causa, a
intuição de recorrer ao remédio; vi a França tão calma tendo guerra no exterior, que vendo o repouso de
que gozava, não parecia que estivesse a braços com as maiores potências.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (123 of 182) [17/8/2001 16:48:58]

 Talvez se diga que as facções e as perturbações de que acabo de falar antes vieram da invenção das
mulheres do que da malícia dos bajuladores.

 Mas embora essa instância nada faça contra o que expendi, confirma poderosamente, pois que falando
de aduladores e de outros espíritos semelhantes não pretendo excluir as mulheres, algumas vezes mais
perigosas que os homens, e ao sexo se ligam diversos gêneros de atrações, mais poderosas para poder
perturbar e derrubar os gabinetes, o progresso e os Estados, do que a mais sutil e industriosa malícia de
alguns espíritos.

 É verdade que durante os reinados de Catarina e Maria de Medicis à sua sombra diversas mulheres se
metiam nos negócios, e algumas, poderosas em espírito e em atração, fizeram males indizíveis, seus
cargos lhes tendo servido para torná-las as mais qualificadas e infelizes mulheres do reino; tendo querido
valer-se das vantagens para satisfazer a seus fins e às suas paixões, desserviram aos que não lhes eram
agradáveis, sendo embora úteis ao Estado.

 Poder-me-ia estender sobre este assunto, mas vários respeitos retêm a minha pena, que, por não ser
capaz de adulação, quando condena abertamente não pode isentar-se de notar que os favoritos, dos quais
falei no capítulo precedente, têm lugar daqueles dos quais acabo de examinar a malícia.

 Em seguida a estas verdades, nada me resta a dizer senão que é impossível garantir os Estados dos
males dos quais esses diversos gêneros de espírito podem ser causa, senão afastando-os da corte; o que é
tanto mais necessário, quanto não se poderia guardar ao seio uma serpente sem expor-se à contingência
de ser por ela picado.

CAPÍTULO IX
Que trata do poder do príncipe; e que se divide em oito seções

SEÇÃO I
O príncipe deve ser poderoso para ser considerado pelos seus súditos e pelos estrangeiros

 O poderio sendo uma das coisas mais necessárias à grandeza dos reis e à felicidade do seu governo,
aqueles que têm a principal rédea de um Estado são particularmente obrigados a nada omitir, que possa
contribuir a tornar o seu senhor tão autorizado que seja por esse meio considerado de todo o mundo.

 Como a bondade é objeto do amor, o poder é causa do temor, e é certo que entre todos os princípios
capazes de excitar um Estado, o temor que se funda na estima e na reverência tem a força de interessar
mais cada um no cumprimento do seu dever.

 Se este princípio é de grande eficácia com relação ao interior dos Estados, não é menos no que diz
respeito ao exterior, os súditos e os estrangeiros, olhando com os mesmos olhos um poder formidável,

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (124 of 182) [17/8/2001 16:48:58]

uns e outros se abstêm de ofender um príncipe que reconhecem estar em estado de lhes fazer mal, se tem
vontade.

 Notei de passagem, que o fundamento do poder de que falo deve ser a estima e o respeito: acrescento
que é agora coisa tão necessária, que se tira sua origem de outros princípios, é muito perigosa, visto que
em lugar de ser causa de temor razoável, leva a odiar os príncipes, que não estão em situação pior do que
quando caem na aversão do público.

 O poderio que faz considerar e temer os príncipes com amor tem várias espécies diferentes; é uma
árvore que tem quatro ramos diversos, que tiram toda sua nutrição e substância de uma mesma raiz.

 O príncipe deve ser poderoso por sua reputação, por um razoável número de soldados mantidos
constantemente, e por uma notável soma de dinheiro no tesouro, para prover nas ocasiões imprevistas
que chegam quando nelas menos se pensa.

 Enfim, pela posse do coração dos seus súditos, como se pode claramente ver.

SEÇÃO II
O príncipe deve ser poderoso pela sua reputação; o que lhe é necessário para esse fim

 A reputação é tanto mais necessária aos príncipes, que aquele do qual se faz bom juízo, faz mais com
o seu nome do que aqueles que não são estimados fazem com exércitos.

 Devem fazer mais caso da reputação do que da própria vida; e devem antes arriscar sua fortuna e
grandeza do que consentir que naquela se consiga fazer uma brecha, sendo certo que o primeiro
enfraquecimento que chegue à reputação de um príncipe é, por leve que seja, o passo de mais perigosa
conseqüência para a sua ruína.

 Digo sem temor que os príncipes, sob este ponto de vista, não devem nunca estimar nenhum lucro ou
vantagem se têm apreço à honra, ainda que pouco, e eles são ou cegos ou insensíveis a seus verdadeiros
interesses se consentem em negócios de tal natureza.

 Com efeito a história nos ensina que em todos os tempos e em todos os países, os príncipes de grande
reputação são sempre mais felizes do que aqueles que, cedendo nesta qualidade, os sobrepujam em força,
riqueza e todo outro poder.

 Como não poderiam ter zelo demais sobre esse ponto, seus conselheiros não terão também cuidado
que seja excessivo, de fazer valer as boas qualidades que existem nas suas pessoas.

 Aqueles que se conduzirem sobre regras e princípios contidos neste testamento adquirirão sem dúvida
um nome que não terá pouco menos peso no espírito dos súditos e dos vizinhos, particularmente se sendo
religiosos em relação a Deus, são mais ainda em relação a si próprios.

Testamento político.

file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (125 of 182) [17/8/2001 16:48:58]

 Quer dizer: verdadeiros em sua palavra; fiéis às suas promessas; condições tão absolutamente
necessárias à reputação de um príncipe, que assim como aquele que for destituído delas não poderia ser
estimado por ninguém, também é impossível que aquele que as possui não seja reverenciado por todo o
mundo, e não se tenha muita confiança nele.

 Poderia dar vários exemplos dessa verdade; mas não pretendo que esta obra seja um lugar-comum; é
fácil de fazer por qualquer um que queira tirá-los dos bons livros. Contento-me com não adiantar nada
que não seja tão certo e tão claro, que toda a pessoa bem sensata encontrará prova no seu raciocínio.
SEÇÃO III
O príncipe deve ser poderoso pela força das suas fronteiras

 Seria preciso ser privado de senso comum para não saber quanto é importante para os Grandes
Estados ter as suas fronteiras bem fortificadas.

 É coisa tanto mais necessária neste reino, que quando mesmo a leviandade da nossa nação a tornasse
incapaz de realizar grandes conquistas, o seu valor a tornará invencível na defesa própria, se tiver
grandes conquistas, o seu valor a tornará invencível na defesa própria, se tiver grandes praças tão bem
fortificadas e tão bem guarnecidas