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que possam fazer aparecer sua coragem sem expor-se a sofrer grandes
incômodos, únicos inimigos que terá a vencer.
 Uma fronteira bem fortificada é capaz ou de fazer que os inimigos percam a vontade que pudessem ter
de ações contra um país, ou ao menos impedir-lhas de início ou na impetuosidade se são suficientemente
ousadas para vir com força descoberta.
 Os movimentos sutis de nossa nação têm necessidade de ser garantidos pelo terror que pudesse ter de
um ataque imprevisto, se não soubesse que a entrada do reino tem reparos tão fortes que não há
impetuosidade estrangeira capaz de levá-la de vencida e que das praças fosse impossível tomar conta,
senão com muito tempo.
 O novo método de alguns dos inimigos deste reino sendo antes fazer perecer pela fome as praças que
sitiam, do que tomá-las a viva força, arruinando antes o país que atacam com muita cavalaria, do que
avançar a pé, com considerável corpo de infantaria como se fazia antigamente; claro que as praças da
fronteira não são somente úteis para resistir a tais esforços, mas que são a salvação dos Estados, dentro
das quais é impossível que os inimigos façam grandes progressos, se deixam atrás de si cidades que
cortam a comunicação com o seu país e os comboios ao mesmo tempo.
 Essa consideração me obriga a representar que não é suficiente fortificar as praças e muni-las para o
tempo que possam resistir a um ataque de viva força, mas é preciso que sejam ao menos fornecidas de
todas as coisas necessárias para mais de um ano, tempo suficiente para dar lugar de os socorrer
comodamente.
 Sei bem que é quase impossível aos grandes reis deixar nessas condições muitas cidadelas; não se dá
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o mesmo com as grandes cidades onde a sociedade e os homens produzem o armazenamento de muitas
coisas de que um governador não precisa fazer grande provisão, e é fácil de obrigar os habitantes a se
proverem de víveres para um ano, suficiente sempre, mesmo por seis meses e mais se se dispensam as
bocas inúteis como a razão o quer.
 Com isso não se pretende que tal ordem possa isentar os soberanos de ter armazéns públicos; ao
contrário eles nunca seriam demais, e depois de ter armazenado, devem estabelecer regras tão boas para
conservar os gêneros, que não seja livre aos governadores, aos quais pertence dispor, a dissipação fora de
propósito ou por pura negligência ou pelo desejo que pudessem ter de aproveitá-la em seu benefício.
 Não especifico positivamente o número de canhões (34), de pólvora, de balas e todas as munições de
guerra que devem existir em cada praça, porque devem ser diferentes os depósitos segundo o tamanho
delas. Também direi que a munição de boca não é mais necessária do que a de guerra, pois em vão uma
praça sitiada estaria bem de víveres, se lhe faltasse o que é absolutamente necessário para defender-se e
atacar os inimigos, visto que a experiência nos mostra que aqueles que mais atiram mais gente matam
quando uma praça está sitiada, e antes se deve economizar o pão do que a pólvora.
 Os antigos tendo notado muito a propósito que a verdadeira força das praças está na dos homens, não
posso deixar de dizer que todas as fortificações são inúteis se o governador e os oficiais que comandam
numa praça não têm o coração tão forte quanto suas muralhas e seus baluartes e se o número de homens
não é proporcional ao tamanho da praça e à quantidade dos postos a defender.
 A experiência nos fez ver em diversas ocasiões, que as menores bicocas são invencíveis se há firmeza
e coragem naqueles que as defendem, e as melhores fortalezas nada resistem quando aqueles que estão lá
dentro não têm coragem proporcional às suas forças.
 Os príncipes não deviam senão ter muitíssimo cuidado em bem escolher aqueles aos quais confiam
suas fronteiras desde que a salvação e o repouso do Estado dependem principalmente da sua fidelidade,
vigilância, coragem e experiência; e que freqüentemente a falta de uma dessas qualidades custa milhões
aos países, quando não são causa absoluta da sua perda.
SEÇÃO IV
Do poderio que um Estado deve ter por suas forças de terra (Esta seção tem pela abundância de
matéria várias subdivisões, que serão marcadas com subtítulos sem numeração)
 O Estado mais poderoso do mundo não poderia vangloriar-se de gozar de repouso seguro, se não está
em situação de garantir-se, a todo o tempo, de invasão imprevista e de surpresa inopinada.
 Por isso é necessário que um grande reino, como este, tenha sempre um corpo de soldados
permanente, suficiente para prevenir os desígnios que o ódio e a inveja poderiam formar contra sua
prosperidade e sua grandeza, quando se julga esteja num seguro repouso, ou ao menos para os afogar no
nascedouro.
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 Quem tem a força tem muitas vezes a razão em matéria internacional; e o fraco pode dificilmente
isentar-se de ter culpa no julgamento da maioria do mundo.
 Como muitos inconvenientes sofre o soldado que não traz sempre consigo a sua espada; o reino que
não está sempre na sua defensiva e em condições de garantir-se de surpresa inopinada, tem muito a
temer.
 Os interesses públicos obrigam àqueles que têm a direção dos países a governá-los de sorte que
possam não somente garanti-los de todo o mal que pode evitar, mas ainda da apreensão que pudessem
ter.
O poderio dos príncipes é o único meio capaz de produzir esse efeito, e resta, portanto, saber
que forças devem ser mantidas neste reino.
 A razão querendo que haja proporção geométrica entre o que sustenta e o que é sustentado, é certo
que não preciso pouca força para sustentar um corpo tão grande como o deste reino.
 As que são necessárias a um fim tão importante podem e devem ser de natureza diferente, isto é, entre
os soldados, destinados à conservação deste Estado, uns devem ser conscritos, para estarem prontos todas
as vezes que seja necessário, e os outros continuamente estar a postos para que não haja momento em
que se não esteja em estado de boa defesa.
Números de soldados que devem ser mantidos neste reino.
 Para bem guarnecer as cidades fronteiriças e ter um corpo em estado de opor-se a todo o intuito
inopinado, é preciso ao menos manter 4.000 cavaleiros e 4.000 infantes a postos e pode-se sem carga
excessiva para o Estado manter 10.000 fidalgos e 5.000 peões conscritos prontos para todas as ocasiões
em que sejam requeridos.
 Dir-se-á talvez que a defesa do Estado não requer tão grandes preparativos. Mas além de que é
necessário estar isso a cargo da França, pois que do contrário a nobreza e o povo tirarão vantagem; digo
que é necessário ser capaz de se fazer a guerra sempre que o bem do Estado assim o requeira.
A guerra é algumas vezes necessária.
 No julgamento dos mais sensatos a guerra é algumas vezes um mal inevitável; e em outras ocasiões é
absolutamente necessário, e tal que dele se pode tirar o bem.
 Os Estados têm necessidade, em certos períodos, dela, para purgar-se de maus humores, para vingar
uma injúria, de que a impunidade provocaria outras, para garantir de opressão seus aliados, para impedir
a continuação do orgulho de um conquistador, para prevenir males de que se está ameaçado, e dos quais
não se poderia isentar por outro meio, ou enfim por outros diversos acidentes.
 Sustento que, e é coisa verdadeira, não pode haver guerra feliz que não seja justa, porque se não fosse,
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mesmo que o desfecho fosse bom segundo o mundo, ter-se-ia que prestar contas ao tribunal de Deus.
 Nesta consideração, a primeira coisa que seria preciso fazer, quando se é obrigado a lançar mão das
armas, é examinar bem a equidade que as põe nas mãos, o que deve ser feito por doutores de capacidade
e probidade requeridas.
 Tal fundamento