testamento_politico
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indústria e toda a autoridade que lhe aprouvesse dar-me, para
arruinar o partido huguenote, rebaixar o orgulho dos grandes, reduzir todos os súditos ao seu dever e
exaltar o Seu nome nas Nações Estrangeiras, ao ponto que devia ser.

 Fiz-lhe ver que para atingir a um tal desiderato, confiança me era imprescindível; e embora todos os
que lhe serviram tivessem julgado o meio melhor e mais seguro de adquiri-la e conservá-la, o afastarem a
Rainha Mãe, eu tomava um caminho completamente contrário, não omitindo esforços para unir-vos,
sendo essa união importante para vossa reputação e vantajosa para o bem do Reino.

 Assim como o Sucesso que seguiu as boas intenções que aprouve a Deus dar-me para Regulamento
deste Estado, justificará pelos séculos afora a firmeza com que constantemente persegui esse desígnio;
também V. M. será fiel testemunha de que nada esqueci do que me foi possível para impedir que o
artifício de muitos espíritos malévolos se tornasse poderoso suficientemente para dividir o que estando
unido por natureza, devia também sê-lo pela graça. Se após ter felizmente resistido durante vários anos
aos seus esforços, sua malícia enfim prevaleceu; é-me consolo que se tenha ouvido da boca de V. M. que
enquanto eu mais trabalhava para grandeza da Rainha Mãe, ela trabalhava pela minha ruína.

 Deixo o esclarecimento deste assunto para outro lugar, a fim de não abandonar o meu fio e não
romper a ordem que devo guardar nesta obra.

 Os huguenotes que não perderam nunca, ocasião de aumentarem o seu partido, tendo surpreendido em
1624 certos navios que o Duque de Nevers preparava contra o turco, fizeram em seguida um armamento
poderoso contra Vossa Majestade.

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 Embora o cuidado com a Marinha estivesse, até esse tempo, tão relegado que não possuía ela um só
navio, conduziu-se V. M. com tanta destreza e coragem, que com os que pode obter de seus súditos, 20
da Holanda e 7 patachos da Inglaterra, desafiou a armada que os de La Rochelle puseram no mar. Isso se
deu com tão maravilhosa felicidade que houve vantagem do socorro que não lhe havia sido dado senão
para serviço aparente.

 V. M. tomou, da mesma forma a ilha de Ré, da qual os huguenotes se haviam apossado. Foram
derrotados 4 a 5 mil homens que lá estavam para defender a praça e foi constrangido Soubize, que estava
feito chefe, a fugir para Oleron; daí seus amigos não somente o tocaram para fora da ilha senão também
para fora do reino.

 Esses felizes sucessos reduziram essas almas rebeldes a uma paz tão gloriosa, que os mais difíceis de
contentar ficaram satisfeitos e todos confessaram que nada se havia feito de semelhante.

 Os reis, de V. M. predecessores, tinham, pelo passado, mais recebido do que dado aos seus súditos.
Embora não tivessem feito nenhuma guerra, perdiam em todos os tratados que com eles faziam; e
embora V. M. tivesse nesse tempo muitas outras ocupações, deu a paz, então, reservando-se o Forte Luís
com uma cidadela em La Rochelle, e as ilhas de Ré e Oleron, com duas outras praças que formavam uma
boa circunvalação.

 Ao mesmo tempo V. M. garantiu o Duque de Savóia contra a opressão dos espanhóis que o atacaram
abertamente, e embora tivessem eles um dos maiores exércitos que desde muito tempo não se via na
Itália, comandado pelo Duque de Féria, homem de cabeça, impediu de tomar Verna, que nossas armas,
juntamente com aquelas do Duque de Savóia sustentaram cercadas, com tanta glória, que eles foram
enfim obrigados a levantar o cerco vergonhosamente.

 Os espanhóis, tendo-se tornado senhores em pouco tempo de todas as passagens dos Grisões e tendo
fortificado os melhores postos de todos os seus vales, V. M. não pode, por uma simples negociação,
livrar seus antigos aliados dessa invasão na qual os injustos usurpadores se fixavam com meios tanto
mais fáceis quanto era o Papa que os favorecia sob a vã esperança que lhe deram de algumas vantagens
para a religião, e assim, pela força das suas armas se fez o que não se havia podido obter pela razão. Por
esse meio se libertaria para sempre essa nação, da tirania da casa d'Áustria, se Fargis, seu embaixador na
Espanha, não tivesse à solicitação do cardeal de Berula feito (como confessou mais tarde) sem
conhecimento e contra ordens expressas de V. M., um tratado muito desvantajoso, ao qual aderiu-se,
enfim, para comprazer ao Papa que pretendia estar demasiado interessado nesse negócio.

 O falecido rei, de imortal memória, desejando casar uma das senhoras irmãs de V. M. na Inglaterra, os
espanhóis acharam bom atrapalhar tal projeto e levaram a peito casar uma das suas infantas.

 O tratado estando concluído, o príncipe de Gales foi tão mal aconselhado que se pôs à discrição de um
príncipe que, sendo senhor da sua pessoa, lhe podia ditar leis a seu talante, e passou incógnito pela
França para ir casar-se na Espanha.

 Assim que se teve notícia negociou-se de tal sorte, que não obstante as honras indizíveis que lhe
foram prestadas nessa corte, onde o rei lhe deu sempre mão direita, embora não tivesse a coroa sobre a

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cabeça, o casamento se rompeu e pouco depois o de França se tratou, se concluiu e se realizou em
condições três vezes mais vantajosas para a religião do que aquelas que se tinha projetado propor ao
tempo do falecido rei.

 Pouco tempo depois cabalas fortes se formaram na corte. Os que conduziam o senhor irmão de V. M.,
puseram-no dentro dela tanto quanto sua idade o permitia.

 Sou obrigado a dizer muito a contragosto que uma pessoa da maior consideração aí se achou
insensivelmente embaraçada, com muitas outras que fomentavam e seguiam suas próprias paixões. Não
posso calar sobre o mérito que adquiriu V. M. diante de Deus e diante dos homens, aplacando o brilho
das suas imprudências se não se tivesse sabiamente dissimulado aquilo que se podia reprimir com tanta
segurança quanta razão.

 Os ingleses se jogaram cegamente nessas cabalas. Muitos dos grandes do reino também se meteram.
O duque de Rohan e o partido huguenote deviam fazer a guerra interna ao mesmo tempo que os ingleses
atacariam com uma poderosa armada as ilhas e a costa deste Estado.

 A partida parecia tão bem feita que poucos acreditavam possível resistir-se à força dos conjurados.
Entretanto a prisão do coronel Dornano, do duque de Vendôme e do grande Prior; o castigo de Chalais e
o afastamento de algumas princesas dissiparam de alguma forma essa cabala, cujos desígnios na corte
contra V. M. ficaram dissipados e sem efeito.

 Como não foi sem grande bondade e sem prudência, tudo em conjunto, que V. M. consentiu em
Nantes no casamento do senhor seu irmão; a sinceridade com a qual seus verdadeiros servidores
apresentaram os inconvenientes que daí podiam advir foi uma prova bem leal de sua fidelidade e um
testemunho seguro de que nada tinham em mente para surpreender a V. M.

 Em todos esses embaraços que pareciam enfraquecer o poder nada conseguiu impedir a continuação
dos duelos senão o castigo dos senhores Boutteville e des Chapelles. Confesso que meu espírito ficou tão
combalido nessa ocasião que apenas pude impedir-me de ceder à compaixão universal que a desgraça e o
valor desses dois jovens gentis-homens imprimiam no coração de todo o mundo, à pressão das pessoas as
mais qualificadas da corte e às importunações dos meus mais próximos parentes.

 As lágrimas de suas mulheres me tocavam muito sensivelmente; mas os rios de sangue da nobreza
que não podiam ser secados senão pela efusão do seu sangue deram-me a força para resistir a mim
mesmo, firmando V. M. no dever de executar para o bem do seu Estado aquilo que era quase contra o
sentir de todo o mundo e contra os meus sentimentos particulares.

 Tendo sido impossível impedir o curso e o efeito dos grandes preparativos que os ingleses tinham
feito para a guerra,