testamento_politico
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pressuposto, não se deve pensar senão nos meios de bem fazer a guerra, entre os
quais, aproveitar o tempo não é dos menos importantes.

 Há aí diferença entre aquele que se vinga por cólera ou pela razão; o primeiro faz mal e se arrisca a
recebê-lo, preferindo sofrer o prejuízo a perder a ocasião de dá-lo ao seu inimigo; e o último dissimula
seus sentimentos, até que possa causar mal como pena por sua falta, sem tomar parte nos seus
sofrimentos.

 O primeiro age como animal impulsionado pelos movimentos de sua natureza; e o último conduz-se
como homem, deixando-se levar pela razão.

 Para bem fazer a guerra não basta bem escolher a ocasião, ter bom número de soldados, dinheiro
abundante, víveres e munições; o principal é que os homens sejam próprios àquilo a que se destinam, que
se saiba mantê-los em disciplina, fazê-los viver com regra e que se disponha do seu dinheiro, dos seus
víveres e munições a propósito.

 É fácil estabelecer estes preceitos gerais, mas a prática é difícil e entretanto, se é desprezada, o
sucesso de uma guerra não poderia ser feliz senão por acaso ou por milagre, com o que os sensatos não
devem contar.

 Não há nação no mundo tão pouco própria para a guerra quanto a nossa; a leviandade e a impaciência
que tem nos menores trabalhos, são princípios que demasiadamente se verificam.

 Embora César tenha dito que os franceses sabem duas coisas, a arte militar e a de bem falar, confesso
que não pude compreender, até o presente, sob que fundamento ele lhes atribui a primeira destas
qualidades, visto que a paciência nos trabalhos e nos sofrimentos, qualidade necessária na guerra, não se
encontra neles senão raramente.

 Se essa condição acompanhasse sua valentia, o universo não seria suficientemente grande para limitar
as suas conquistas; mas como o grande coração que Deus lhes deu torna-os próprios a vencer tudo o que
a eles se opõe pela força, sua leviandade e sua preguiça torna-os incapazes de sobrepujar os menores
obstáculos que as dilações de um inimigo astuto opõe ao seu ardor.

 Daí vem que nem são próprios para as conquistas que requerem tempo, nem a conservar aquelas que
fizessem num instante.

 Não são somente levianos, impacientes e pouco acostumados à fadiga; são acusados de não estarem
nunca contentes com o tempo presente, e de serem pouco afeiçoados à sua Pátria; e esta acusação tem
tanto fundamento que não se poderia negar que mais se encontram aqui dos que faltam ao que são
obrigados por nascimento, do que em todas as outras nações do mundo.

Testamento político.

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 Poucos tomam armas contra a França, e aí não se encontram franceses; e quando são armados pelo
seu país, seus interesses lhes são tão indiferentes, que não fazem nenhum esforço para dominar seus
defeitos naturais em seu proveito.

 Correm centenas de léguas em busca de uma batalha e não quereriam esperá-la oito dias. O inimigo os
cansa antes mesmo que se tenha posto mãos à obra.

 Não temem o perigo, mas querem expor-se a ele sem nenhum sofrimento; as menores demoras lhes
são insuportáveis. Não têm fleugma para esperar um só momento sua felicidade, e se aborrecem mesmo
na continuação da sua prosperidade.

 No começo de sua empresa, seu ardor é extraordinário e com efeito são mais do que homens nesse
instante; mas pouco tempo depois eles se amolentam de sorte que se tornam iguais aos de virtude
comum, acabando por se desgostarem e se rebaixarem a ponto de serem menos do que homens.

 Ficam, entretanto, com coragem para se baterem, desde que sejam conduzidos à luta imediatamente;
mas são incapazes de esperar ocasião; embora sua honra, a reputação da sua nação e o serviço do seu
senhor os obriguem a isso.

 Não sabem nem tirar partido de uma vitória, nem resistir à fortuna de um inimigo vitorioso; cegam
mais do que quaisquer outros em sua prosperidade, não tendo coragem nem julgamento na adversidade e
nos trabalhos.

 Enfim são sujeitos a tantos defeitos que não é sem razão que alguns judiciosos espíritos se espantam
de como esta monarquia se pode conservar desde o seu nascimento, pois se ela sempre encontrou filhos
fiéis em sua defesa, nunca foi atacada sem que os seus inimigos deixassem de encontrar, em seu seio,
partidários que como víboras nada esqueceram do que puderam para roer as entranhas maternas.

 Sei que contrabalançando essas imperfeições os franceses têm boas qualidades; são valentes,
corajosos e cheios de humanidade; seu coração é isento de toda crueldade e são isentos de rancor pois
que com facilidade se reconciliam.

 Embora essas qualidades sejam ou ornamentos da vida civil ou essenciais à cristandade; é verdade que
sendo destituídos de fleugma, paciência e disciplina, constituem como uma carne saborosa sem o
tempero que lhe dá gosto.

 Não ignoro que a providência de Deus que é admirável em todas as coisas, o é particularmente no
contrabalançar as más qualidades de cada nação, por outras vantagens que compensam os seus defeitos.

 Se a nação francesa é leviana e impaciente, sua valentia e impetuosidade a fazem freqüentemente
executar de um primeiro esforço o que outros só conseguem com muito tempo.

 Se sua inquietação impede ficar voluntariamente nos exércitos, a bondade divina a torna tão
abundante em homens, que sempre se encontram muitos que levados pelo mesmo princípio de
leviandade entram quando os outros saem, e estes logo estão prontos a voltar, quando os outros

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abandonam a partida.

 Se a pouca afeição que eles têm por seu país leva-os algumas vezes a tomar armas contra seu rei, a
inconstância e os movimentos súbitos aos quais estão sujeitos fazem que neles não se tenha confiança e
com isso provocam mais mal do que são capazes de realizar de motu próprio ao seu país.

 É coisa certa que os espanhóis nos sobrepujam em constância e em firmeza, em zelo e em fidelidade
para com seu rei e sua pátria; mas em compensação esse reino estéril é tão deserto em certos lugares e tão
pouco abundante em homens, que sem a sua firmeza estaria muitas vezes abandonado por si mesmo.

 De resto se entre os franceses alguns particulares tomam partido contra seu Senhor, os espanhóis se
rebelam fazendo motim em corpos dentro dos exércitos.

 Se o imperador tem a vantagem de dominar uma nação que é a sementeira dos soldados, tem também
a desvantagem de o ver mudar facilmente de partido e de religião, além de ser sujeita a embriaguez sendo
muito mais desregrada que a nossa em campanha.

 Em uma palavra, cada nação tem os seus defeitos e prudentes são aqueles que procuram adquirir por
partes o que a natureza não lhes deu.

 É mais fácil acrescentar à coragem, à valentia e à cortesia dos franceses, a fleugma, a paciência e a
disciplina, do que dar às nações fleugmáticas o fogo que o nascimento não tiver dado.

 Os franceses são capazes de tudo, desde que aqueles que os comandam sejam capazes de ensinar
convenientemente o que é necessário que eles pratiquem.

 Sua coragem, que os leva a procurar guerra aos quatro cantos do mundo, verifica esta proposição:
desde que eles vivem como os espanhóis nos seus exércitos, como os suecos no seu país, como os croatas
nas suas tropas, e como os holandeses nos seus Estados.

 Eles observam a disciplina de uns e outros; o que mostra bem que se eles ficam no seu país com seus
defeitos naturais, é porque estes são suportados e não se sabe corrigi-los.

 Se vivem neste reino sem disciplina, não é tanto por falta sua, senão dos chefes que os comandam que
se contentam de ordinário em fazer belas ordenanças sem cuidado de fazê-las observar.

 Nada há mais fácil do que dar regras de bem viver e nada mais difícil do que fazê-las praticar, sem
que seja impossível.

 É preciso, caso se possa, fazer compreender, justiça e razão, sendo em seguida impiedoso