testamento_politico
182 pág.

testamento_politico


DisciplinaFilosofia e Ética3.160 materiais79.103 seguidores
Pré-visualização50 páginas
V. M. foi obrigada a opor-se-lhes pela força. Estes inimigos do Estado desceram em
Ré e aí sitiaram o Forte de S. Martin ao mesmo tempo que Deus quis afligir a França com a moléstia que
a V. M. apareceu em Villeroi.
 Este desagradável acidente e a má conduta que o Coigneux e Puy Laurens quiseram de novo fazer
tomar ao senhor Príncipe, não impediram que se resistisse sob sua sombra a todos os esforços desta
nação belicosa. E V. M. assim que sarou, socorreu a praça que eles tinham sitiado, desfazendo os seus
Testamento político.
file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (14 of 182) [17/8/2001 16:48:56]
exércitos num combate assinalado por terra; e afastando as suas forças navais da costa, fê-los retornar aos
seus portos.
 V. M. atacou em seguida La Rochelle e a tornou depois de um cerco de um ano de duração. E V. M.
se conduziu com tanta prudência que embora soubesse que os espanhóis não desejavam nem a tomada
dessa praça nem a prosperidade em conjunto dos seus negócios julgando que a aparência da sua união
lhes pudesse favorecer na reputação do mundo, e que com ela não faria pouco se por um tratado os
impedisse de unirem-se aos ingleses, que eram então seus inimigos declarados, fez V. M. com eles um
tratado que produziu o efeito que se havia proposto.
 Os espanhóis que não tinham outro desígnio, senão aparentar, à sombra de cujas aparências pudessem
obter os desígnios de V. M. e a tomada dessa cidade, animaram tanto quanto lhes foi possível aos
ingleses a socorrê-la. E o cardeal de Cuéva prometeu em termos expressos que seu senhor não enviaria
nenhum socorro a V. M. enquanto V. M. tivesse necessidade e que o retiraria antes que pudessem
perturbá-lo. Isto foi religiosamente cumprido, tanto que D. Frederico, almirante de Espanha que tinha
partido de La Corunha com 14 navios depois de ter sabido da derrota dos ingleses em Ré, não quis ficar
nem um dia mais em La Rochelle sabendo da notícia que corria que uma nova frota vinha socorrer essa
praça.
 Essa segurança deu audácia aos ingleses fazendo com que tentassem por duas vezes o socorro e houve
glória para V. M. em tomá-la com suas forças somente à vista de uma poderosa armada, que depois de
dois combates inúteis viu-se inteiramente impossibilitada de cumprir os seus destinos.
 Assim, ao mesmo tempo a infidelidade e as trapaças da Espanha ficaram sem efeito e a dos ingleses
foi sobrepujada com um golpe único.
 Durante este cerco os espanhóis atacaram o duque de Mântua na Itália, certos de que V. M. não o
poderia socorrer.
 O cardeal de Berula e o guarda dos selos de Marillac aconselharam V. M. a abandonar o pobre
príncipe à injustiça e à avidez insaciável, daquela nação inimiga do repouso da cristandade, a fim de
impedir que ela o atormentasse. O resto do conselho foi de parecer contrário, tanto porque a Espanha não
ousaria tomar resolução imediatamente após ter feito um tratado de união com os ingleses, quanto porque
mesmo que V. M. aceitasse o mau conselho este não poderia impedir o desenvolvimento dos seus
desígnios.
 Foi-nos representado que seria suficiente declarar-se pelo senhor duque de Mântua, enquanto V. M.
continuava o grande cerco não podendo fazer nada mais sem cometer uma baixeza indigna de um grande
príncipe que nisso não deveria consentir ainda mesmo auferindo vantagens.
 Eu cometeria um crime se não fizesse notar neste lugar que V. M. seguindo os sentimentos do seu
coração e sua prática ordinária, tomou nessa ocasião o melhor e o mais honroso partido, seguido de um
sucesso tão feliz que pouco tempo depois La Rochelle foi tomada e seus exércitos ficaram capazes de
socorrer o príncipe injustamente atacado.
 Embora o senhor seu irmão, ficando viúvo um ano depois do seu casamento, tivesse desejos de casar
Testamento político.
file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (15 of 182) [17/8/2001 16:48:56]
com a princesa Maria, foi tão mal aconselhado, que em lugar de favorecer ao duque de Mântua, seu pai,
ele o perturbou mais do que os próprios inimigos, separando-se de V. M. e retirando-se para Lorena,
quando devia unir-se estreitamente a V. M. para tornar o seu poderio mais considerável.
 Esta má conduta não impediu que V. M. continuasse a viagem que tinha começado com propósito tão
generoso, e Deus a bendisse tão visivelmente que, assim que chegou aos Alpes as passagens foram
forçadas em pleno inverno e o duque de Savóia auxiliado pelos espanhóis foi batido, sendo levantado o
cerco de Cazal e obrigados todos os inimigos a um acomodo.
 Esta gloriosa ação que trouxe a paz à Itália, imediatamente depois de ter sido feita, V. M., cujo
espírito e coração nunca acharam repouso senão no trabalho, passou, sem descansar, ao Langledoc, onde,
depois de ter tomado as cidades de Privas e de Alez pela força, reduziu por sua perseverança o resto do
partido huguenote e todo o seu reino à obediência, dando pela sua demência a paz àqueles que tinham
ousado fazer-lhe guerra; não concedendo-lhes vantagens prejudiciais ao Estado como tinha acontecido
anteriormente, mas pondo fora do reino aquele que era o único chefe de um tão desgraçado partido e que
o tinha sempre fomentado.
 O que é de maior consideração nesta ação tão gloriosa é que V. M. arruinou absolutamente esse
partido, enquanto o rei da Espanha se encarregava de o aumentar e de firmá-lo cada vez mais.
 Ele acabava de fazer um tratado com o duque de Rohan para formar neste Reino um corpo de estado
rebelde a Deus e a V. M. recebendo um milhão que todos os anos lhe devia ser pago, tornando as Índias,
dessa maneira, tributárias do inferno. Mas esses projetos foram ser consequência e ao mesmo tempo que
teve o desprazer de saber que aquele que ia de sua parte realizar um tão glorioso negócio tinha sido
morto na forca por um mandato do parlamento de Toulouse. V. M. teve o contentamento de perdoar
aqueles que não se podiam mais defender, subordinando sua facção e bem tratando suas pessoas, quando
esperavam o castigo dos crimes que tinham cometido.
 Sei bem que a Espanha pensou lavar-se de uma ação tão negra alegando o socorro que V. M. dava aos
holandeses, mas essa escusa é tão má quanto a sua causa.
 O sentido comum faz conhecer a todo o mundo que é bem diferente a continuação de um socorro
estabelecido legitimamente, segundo a defesa natural e outro qualquer estabelecido manifestamente
contrário à religião e à legítima autoridade que os reis receberam do céu sobre os seus súditos.
 E o rei, pai de V. M., nunca tratou com os holandeses senão depois que o rei da Espanha formou uma
liga neste reino para usurpar-lhe a coroa.
 Esta verdade é muito evidente para poder ser posta em dúvida e não há teologia no mundo que não
possa dizer, sem ir contra os princípios da luz natural que, assim como a necessidade obriga aqueles a
quem se quer tirar a vida a se servirem de qualquer socorro para se garantir, também um príncipe tem o
direito de fazer o mesmo para evitar a perda do seu Estado.
 O que é contingente, no seu começo, torna-se algumas vezes necessário em seguida. Neste caso está a
ligação que V. M. mantém com esses povos, não somente em conseqüência dos tratados do falecido rei,
mas porque a Espanha não pode deixar de ser inimiga deste Estado enquanto retém uma parte dos seus
Testamento político.
file:///C|/site/livros_gratis/testamento_politico.htm (16 of 182) [17/8/2001 16:48:56]
antigos domínios. É claro que a causa que deu lugar a este tratado não tendo cessado, a continuação do
efeito é tão legítima quanto necessária.
 Os desígnios dos espanhóis são cada vez mais injustos em lugar de reparar as primeiras injúrias que
eles fizeram a este reino, aumentam-nas todos os dias.
 Além disso o falecido rei não se uniu aos holandeses senão depois de terem formado um corpo de
Estado, constrangidos pela opressão contra a qual não se podiam garantir inteiramente. Não foi o
causador nem da sua revolta nem da união de suas províncias.
 Não foi bastante a Espanha favorecer várias