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vezes aos revoltados huguenotes contra os seus
predecessores. Ela quis uni-los em corpo de Estado dentro da França.

 Um santo zelo fê-los querer ser autores de um tal estabelecimento e, o que é notável, sem necessidade
e sem razão, a não ser a continuação das suas antigas usurpações além das novas que desejam fazer e que
ratificam de tal forma que o que é proibido a todo o mundo, lhes-é permitido em vista de suas boas
intenções.

 Tendo tratado longamente deste assunto em outra obra, abandono-o para dar seguimento ao que diz
respeito às ações de V. M.

 A má fé dos espanhóis os tendo levado a atacar de novo o duque de Mântua, em prejuízo do tratado
que tinham feito com V. M., levou pela segunda vez nossos exércitos à Itália, onde foram de tal forma
benditos por Deus, que após terem gloriosamente passado um rio guarnecido pelo duque de Savóia com
14.000 infantes e 4.000 cavaleiros contra a fé do tratado que haviam assinado com V. M. no ano
precedente, Pignerol em presença das forças do imperador, foi tomada; também à vista das forças do rei
de Espanha, e mais da pessoa e de toda a força do duque de Savóia, tudo tornando a ação de V. M. mais
gloriosa, e o marquês de Espínola um dos maiores capitães do seu tempo.

 Dessa maneira tomou-se Susa dominando-se ao mesmo tempo os três mais consideráveis poderes da
Europa: a peste, a fome, e a impaciência dos franceses, coisas de que se acharão poucos exemplos na
história.

 Em seguida conquistou-se a Savóia expulsando um exército de 10.000 infantes e 2.000 cavaleiros que
tinham mais facilidades de defender-se num país de montanhas como aquele em que estavam, mais do
que seria fácil a 30.000 homens atacá-los.

 Os combates de Veillane e de Coriane assinalaram pouco tempo depois o nosso exército em
Piemonte; e a tomada de Valença fortificada pelo duque de Savóia para opor-se aos desígnios de V. M.,
fez conhecer que nada pode resistir às armas justas de um rei tão feliz quanto poderoso.

 Cazal foi socorrida não somente contra a opinião comum da maior parte, mas ainda contra o próprio
pensamento do duque de Montmorency, que tinha sido empregado neste esforço e contra o de Marillac
que o substituíra, ambos dizendo que a empresa era impossível.

 O socorro dessa praça de guerra foi tanto mais glorioso quanto um exército mais forte do que o seu

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estava à frente dos milaneses que lhe forneciam toda a sorte de comodidades ao abrigo das muralhas de
Cazal, posta às suas mãos e obrigada a consentir nisso da mesma sorte que as cinco outras praças que os
espanhóis tinham nos arredores de Monte Ferrat.

 Se se sabe que no mais forte desta luta V. M. estava esgotada e sua pessoa perigosamente enferma e
ainda mais o seu coração; se se considera que a rainha mãe, ludibriada por alguns espíritos envenenados,
formou um poderoso partido que enfraquecendo ao de V. M. fortificou muito os inimigos; se se
representar ainda que ela recebia todos os dias diversos avisos secretos; os mais fiéis servidores de V. M.
que odiavam e temiam estando logo em situação de não poder-lhes fazer mal; seria impossível não se
reconhecer a bondade de Deus como tendo contribuído para tais bons sucessos, mais do que a prudência
e a força dos homens.

 Foi então que a rainha mãe fez toda a sorte de esforços imagináveis para destruir o conselho de V. M.
estabelecendo um outro segundo a sua fantasia.

 Foi então que os maus espíritos que dominavam o do senhor príncipe e trabalhavam sob o seu nome
fizeram tudo o que puderam para perder-me.

 A mãe e o filho fizeram um acordo mais contrário ao Estado do que àquelas pessoas que queriam
arruinar, pois que no estado presente dos negócios era impossível qualquer mudança sem a perda
comum.

 O filho tinha prometido não desposar a princesa Maria, o que a mãe temia de tal sorte que para,
impedi-lo, ela o tinha feito prender, na sua ausência, no castelo de Vincennes, de onde não saiu senão
após a convenção; e a mãe se havia obrigado em compensação a me fazer cair em desgraça junto de V.
M. de quem se me afastaria.

 Para tornar as suas promessas mais invioláveis elas foram escritas e o duque de Bellegarde trouxe-as
durante muito tempo entre a pele a camisa como sinal de que lhe tocava ao coração e como meio de
assegurar àqueles que a haviam assinado, de que só as perderia com a própria vida.

 Jamais facção foi mais forte num Estado. Seria mais fácil encontrar gente que fizesse parte dela do
que não participantes.

 O que aumentou a maravilha da conduta de V. M. nessa ocasião foi que procurando eu o meu
afastamento para agradar à rainha que o desejava apaixonadamente, V. M. sem outro conselho, salvo o
seu próprio, e sendo só a opor-se à autoridade de uma mãe e aos artifícios de todos os seus aderentes aos
pedidos que eu mesmo fazia contra mim, soube resistir.

 Fala assim porque o marechal de Schomberg que era fiel não estava então perto de V. M. e o guarda
dos selos, de Marillac, que era um dos que secundavam a rainha nos seus desígnios, agia contra V. M. e
ela própria.

 A prudência de V. M. foi tal, que afastando o guarda dos selos de moto próprio, se liberou de um
homem de tal forma cheio de si mesmo que não achava nada bem feito que não o fosse por sua ordem, e
acreditava que muitos maus meios lhe eram lícitos desde que capazes de o fazerem atingir aos fins que

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eram sugeridos por um zelo que se pode chamar indiscreto.

 Enfim, o procedimento de V. M. foi tão sábio que nada deu à rainha, que fosse contra o Estado e nada
lhe foi recusado salvo aquilo que poderia ser feito sem ferir sua consciência, e agir tanto contra ela
quanto a V. M. mesmo.

 Eu poderia isentar-me de falar da paz que foi concluída em Ratisbonne entre V. M. e a casa d'Áustria,
porque tendo sido assinada pelo embaixador em condições que o próprio imperador reconheceu estarem
acima dos seus poderes, ela não pode por esta razão ser posta no numero das ações de V. M.; mas se se
considera que a falta do embaixador não lhe possa ser imputada, como era necessária muita bondade para
suportá-la, não foi necessária, também, pouca destreza para repará-la de alguma sorte sem se privar da
paz necessária a este Estado em um tempo em que V. M. tinha tantos atrapalhos.

 Esta ação será julgada das maiores realizadas por V. M. e de conseqüência que não pode ser omitida
neste lugar.

 A razão e a conduta dos Estados requeria um castigo exemplar naquele que tinha ultrapassado as
ordens em matéria tão delicada e numa ocasião tão importante; mas a bondade atou as mãos à justiça de
V. M., porque, embora ele fosse o único embaixador, não agiu só nesse negócio, mas com um adjunto de
tal condição, que o respeito fez considerá-lo antes o motivo da falta, do que a falta mesma.

 Eles foram de tal sorte surpreendidos, um e outro, com a grave enfermidade que V. M. sofreu em
Lion, que agiram em face do estado em que este reino poderia estar com a desgraça da sua perda, mais do
que como estava efetivamente, e segundo as ordens que haviam recebido.

 Não obstante a má condição do seus tratados, os imperiais foram obrigados a restituir logo Mântua. O
temor dos nossos exércitos os obrigou a devolver o que haviam usurpado aos venezianos e aos Grisons; e
depois que V. M. deixou entrar as tropas do duque de Savóia no Pignerol, no forte e no vale de Perusa
para satisfazer ao tratado de Querasco, V. M. estava tão de acordo com ele que em virtude de um novo
tratado, essas praças ficaram pertencendo a V. M., segundo as vantagens e a contento de toda a Itália que
terá menos razão de temer para o futuro uma injusta opressão, existindo uma porta aberta para ser
socorrida.

 Neste tempo, os descontentamentos que o duque da Baviera tivera com o imperador e os espanhóis, e
o temor que todos os outros eleitores católicos