testamento_politico
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vãos.

 A vitória que as armas de V. M., comandadas por este marechal, conseguiram em Castelnaudari foi
um argumento tão seguro da bênção de Deus sobre V. M. como as graças que V. M. concedeu em
seguida ao senhor príncipe e aos seus, desde que o mau estado dos negócios lhe deu meios de agir dessa
forma, foram um testemunho evidente de bondade.

 A sinceridade, com a qual quis observar todas as promessas que foram feitas em Beziers, embora V.
M. soubesse seguramente que Puy Laurens não tinha outro desígnio senão evitar a sombra de um
arrependimento, o perigo em que ele se achava, contra o qual não se podia garantir por outra via, foi uma
prova tão autêntica do grande coração de V. M., quanto de sua fé inviolável.

 O castigo do duque de Montmorency, que não podia ser dispensado sem abrir a porta a toda sorte de
rebeliões perigosas em todos os tempos e particularmente naquele em que um herdeiro presuntivo da
coroa se tornará, por mau conselho, chefe daqueles que se separavam do seu dever, fez ver a todo o
mundo que a firmeza igualava em V. M. a prudência.

 Essa punição fez ver também que os servidores de V. M. preferiam os interesses públicos aos seus
particulares, pois que resistiam nessa ocasião à solicitação de várias pessoas que lhes deviam ser de
grande consideração, e às ameaças do senhor príncipe, que Puy Laurens levava até esse ponto, fazendo
dizer que se Montmorency morresse, o senhor príncipe fá-los-ia morrer também.

 A paciência com a qual V. M. sofreu os novos monopólios que Puy Laurens estabeleceu em Flandres
sob o nome do senhor príncipe, para onde se retirara pela terceira vez é semelhante àquela que leva um
pai a desculpar os desregramentos cometidos por um dos seus filhos saído da obediência.

 Aquela que lhe fez sofrer por tão longo tempo, quanto o bem do Estado e sua consciência puderam
permitir, a malícia e leviandade que levaram várias vezes o duque de Lorena a armar-se contra V. M., é
uma virtude que encontrará na história poucos exemplos semelhantes.

 A bondade com a qual V. M. se portou, para segurar-se das suas segundas faltas, do penhor de
algumas de suas praças, capaz de contê-lo no seu dever se a loucura não tivesse igualado a sua falta de
palavra, achar-se-á tanto mais incomparável quanto há poucos príncipes que perdem ocasião de se
tornarem senhores de um Estado vizinho quando têm muitos motivos legítimos para o fazerem e também
o poder.

 Após tantas recaídas cometidas pelo duque seu vassalo, depois de lhe ter, contra a sua fé, contra o
direito divino e o da constituição, feita pelos homens, retirado um penhor quase tão precioso quanto o
próprio Estado; a prudência com a qual V. M. o despojou, quando a sua malícia e a sua inconstância não

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podiam mais ter outros remédios além daqueles, extremos, é muito mais notável do que se antes o
fizesse; poder-se-ia pôr em dúvida a sua justiça. Também não se poderia esperar mais sem V. M. parecer
insensível, cometendo por omissão uma falta igual àquela que cometeria um príncipe que por uma pura
violência despojasse a um outro sem razão.

 Que não se deve dizer da boa natureza de que V. M. é dotado, que o levou a provocar a volta do
senhor príncipe à França pela terceira vez; quando parecia que não se poderia mais falar da sua fé em
vista das diversas recaídas e da extraordinária má fé dos seus partidários? Muitos achavam, com razão,
que ele não poderia voltar sem comprometer a segurança dos mais fiéis servidores; e no entretanto eles
eram sós em solicitar a sua retirada do perigo em que se havia posto.

 Esta ação encontrará poucos exemplos na antigüidade se se consideram as circunstâncias; e
provavelmente terá poucas imitações para o futuro.

 Como não era possível sem uma extrema ousadia aconselhar V. M. a dar ao senhor príncipe, contra
seus próprios sentimentos, um notável aumento de apanágio, um governo de província e uma praça,
quando foi questão de retirá-lo de Lorena na primeira vez que ele saiu do reino; não foi possível sem
grande firmeza resistir durante um ano às suas instâncias para ter uma na fronteira, para onde ele quis
retirar-se saindo de Flandres.

 Não foi pouca felicidade terem estes dois conselhos dado tão bom resultado, que a concessão da
primeira praça foi causa da sua primeira volta; e causa tão inocente que sendo útil nessa ocasião, não se
pode depois abusar, quando os seus quiseram fazer.

 A recusa da segunda, impedi-lo-ia de voltar ao seu dever, e ao seu país natal, único lugar de sua
salvação; ao contrário, a sua aquiescência obrigou-o a voltar enfim com uma intenção tão reta, que ele e
os seus depois confessaram que a sua fé era má quando sob pretexto de assegurar a sua pessoa, pedia um
lugar de retiro a fim de perturbar de novo a paz da França.

 Os favores extraordinários que V. M. concedeu a Puy Laurens para obrigá-lo a inspirar uma boa
conduta ao seu senhor, são dignos de memória, e não devem ser esquecidos neste lugar.

 O castigo que recebeu logo que V. M. reconheceu continuava a abusar das graças, era demasiado justo
e necessário, conforme o reconheceu V. M. em seguida.

 A posteridade notará, estou seguro, três coisas bem consideráveis a estes respeito: um inteiro
desligamento de todos os outros interesses além dos públicos, em criaturas que tendo recebido por
expresso comando na sua aliança não deixaram de aconselhar V. M. a prendê-lo, porque o bem do Estado
assim requeria; uma grande prudência por ter executado esta ação em presença do senhor príncipe, que
não podia senão aprovar de perto um conselho que de longe apreenderia por si mesmo, se a experiência
não o fizesse conhecer, que não era a ele que tudo se dirigia. Uma grande audácia em dar-lhe ao mesmo
tempo tanta liberdade, quanta tinha ele antes; com o único fundamento de que, tendo-se conduzido por
mais conselhos, o efeito cessaria quando a causa cessasse, e logo que ele fosse destituído dos mesmos
seguiria, por seus próprios sentimentos, um caminho contrário àquele a que o haviam levado os de
outrem.

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 Esta ação e várias outras que tiveram lugar durante o reinado de V. M. farão, estou seguro, ter por
máxima certa, que é preciso em certas ocasiões, para o bem do Estado, uma virtude máscula que passa
algumas vezes por cima das regras da prudência ordinária e que é outras vezes impossível garantir-se de
alguns males, se não se deixar alguma coisa à fortuna, ou, melhor dito, à providência de Deus que não
recusa o seu socorro quando a nossa sabedoria, esgotada, nenhum pode dar-nos.

 De resto, a conduta de V. M. será reconhecida como tanto mais justa, quanto, aqueles que lerem a
história verão que V. M. não faz punir ninguém senão depois de ter, por notáveis graças tentado manter
os súditos no seu dever.

 O marechal d'Ornano foi feito marechal com esse propósito.

 O grande Prior teve o comando do mar, quando, tendo pervertido o espírito do seu irmão, deram
ambos motivo a que vossa majestade lhes tirasse a liberdade.

 O marechal de Bossompierre não subsistiu senão pelos reais benefícios quando sua maneira de falar e
de agir na corte obrigou V. M. a encerrá-lo na Bastilha. O guarda dos selos de Marillac estava tanto mais
obrigado a conduzir-se bem, quanto a posição a que a sua boa fortuna o tinha elevado não lhe deixava
lugar a desejar mais, por maior que fosse a sua ambição.

 O marechal seu irmão, estabelecido em Verdun e elevado a um ofício da coroa, tinha todas as
ocasiões por essas graças de evitar o suplício que mereceu pela sua ingratidão e pelos seus excessos.

 Os diversos comandos que o duque de Montmorency teve no exército embora ele fosse ainda moço
para merecê-los, o cargo de Marechal de França, o livre acesso que V. M. lhe deu junto a sua pessoa, e a
familiaridade que tinha com suas criaturas, eram graças e privilégios