Captulo 2
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Captulo 2

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Cap. 2 - Estrutura Básica das Contas Nacionais: o SNA 68 e as Contas Nacionais do Brasil até 1996

2.1 Introdução

Com o esquema básico apresentado no Capítulo 1, já temos condição de começar a analisar a estrutura do sistema de contas nacionais. Antes, porém, é preciso esclarecer alguns pontos quanto à natureza e à adequabilidade desse esquema.

Como se sabe, a economia real é infinitamente mais complexa do que aquela apresentada nos exemplos e fluxogramas anteriores. Por exemplo, há uma quantidade quase infinita de transações que se realizam todos os dias; além disso, existe um elemento chamado governo, que altera expressivamente o funcionamento do sistema; e, finalmente, a economia de um país real nunca é inteiramente fechada, ou seja, sempre realiza transações (compras e vendas de bens e serviços, por exemplo) com as economias de outros países.

Além desses fatores, existem ainda alguns outros que devem ser lembrados quando se avalia a capacidade de explicação desse esquema simplificado: os aluguéis e juros também devem ser considerados como remuneração de fatores e, portanto, de alguma maneira, devem ser contemplados no conceito de renda; as empresas e famílias também podem realizar transações entre si — como o demonstram, na Seção 1.2 (Capítulo 1), as transações de números 1, 2 e 3 de nossa economia H, tanto na situação 1 quanto na situação 2; as famílias não necessariamente despendem toda a renda que recebem, dando assim origem aos movimentos englobados nos conceitos de investimento e poupança.

Todavia, a despeito de todas essas complicações, o esquema simplificado até agora apresentado e as idéias de identidade e fluxo constituem a base a partir da qual é possível analisar uma economia real em toda sua complexidade. Essa base permite a incorporação paulatina de cada um dos elementos até agora deixados de lado.

Cabe, por fim, uma última observação concernente à relação existente entre as considerações teóricas, ou seja, a base conceitual que sustenta logicamente o sistema de contas nacionais, e a forma efetiva que as contas nacionais possuem em cada país. De fato, várias podem ser as maneiras de se apresentarem as informações do sistema de contas nacionais sem que sejam desrespeitados os conceitos básicos que lhes dão origem. Em função disso, o formato concreto do sistema pode variar, e de fato varia, de país para país. Todavia, como veremos mais adiante, a necessidade de estabelecer comparações entre os diversos países tem feito com que a ONU — organismo internacional responsável pela elaboração do System of National Accounts (SNA) — divulgue, de tempos em tempos, um conjunto de recomendações, que a maior parte dos países procura seguir, a fim de tornar o mais homogêneo possível esse formato.
O SNA de 1968 (SNA 68) vigorou por um longo período de tempo e foi substituído pelo SNA de 1993 (SNA 93). Este último sistema é bem mais complexo que o anterior, que, como veremos, é um sistema de apenas 4 ou 5 contas que respeita os equilíbrios interno e externo. Como, porém, os princípios básicos do sistema não se alteram, vamos iniciar nossa investigação teórica sobre as contas nacionais utilizando esse sistema mais simples. Na seqüência, depois de fazermos um breve retrospecto da história do sistema de contas nacionais no Brasil, veremos a estruturação desse sistema até 1998, quando obedecia as diretrizes do SNA 68. No capítulo 4 veremos o novo sistema, já seguido pelo Brasil.

2.2 As Contas Nacionais no sistema SNA 68
Economia Fechada e sem Governo

No Capítulo 1, dissemos que a contabilidade social congrega instrumentos de mensuração capazes de apresentar o movimento da economia de um país, num determinado período de tempo. De outro lado, mostramos que existem três formas diferentes de considerar e mensurar o produto de determinada economia. Isso indica que, quando consideramos o movimento da economia como um todo, o produto, ou a produção, é a principal variável a ser enfocada: sem produção não há renda nem pode obviamente haver dispêndio; além disso, se não há produção, não há o que transacionar, portanto, não há movimento.

Assim, a conta de produção afigura-se a conta mais importante do sistema, já que é a partir dela que todas as demais encontram sua razão de ser. É por ela, portanto, que devemos iniciar nossa análise do sistema de contas nacionais.
Nesta primeira etapa de nosso estudo, vamos considerá-la numa situação ainda muito simples, ou seja, supondo que o governo não existe e supondo também que a economia em questão não realiza nenhuma transação com outros países, ou seja, é uma economia fechada. Nessas condições, como se estruturaria o sistema?
 Para responder essa pergunta, a primeira coisa a fazer é recuperar o conceito de produto. Como vimos anteriormente, quando estudamos a ótica do dispêndio, tudo aquilo que é considerado bem final faz parte do produto, mas não apenas isso. Lembremo-nos que:

Todo bem que, por sua natureza, é final, deve ter seu valor considerado no cálculo do valor do produto, mas nem todo bem cujo valor entra no cálculo do valor do produto é um bem final por natureza.
Que bens são esses, cujo valor entra no cálculo do valor do produto, mas que não são bens finais por natureza? Lembremo-nos, então, que:
A ótica da despesa ou do dispêndio avalia o produto de uma economia considerando a soma dos valores de todos os bens e serviços produzidos no período que não foram destruídos (ou absorvidos como insumos) na produção de outros bens e serviços.​

Retomemos nossa economia H, tal como apresentada no Capítulo 1, em sua situação 2. Utilizando a ótica do dispêndio, concluiremos que o produto dessa economia foi constituído por pães no valor de $ 1.680 — os pães não foram absorvidos como insumos na produção de outros bens, mas consumidos pelas pessoas — e por trigo no valor de $ 500, que (ainda) não foi consumido na produção de outros bens.
Numa outra situação poderia também ter acontecido de, no momento em que se realiza a mensuração, terem sobrado, ou seja, não terem sido ainda consumidas na produção, por exemplo, farinha de trigo e sementes. Por fim, poderia ainda ter ocorrido que nem todos os pães tivessem sido vendidos, de modo que se teria também, ao final do período X, uma quantidade ainda não consumida — em estoque, portanto — de pães.
Numa situação como essa, todos esses bens serão, com certeza, consumidos no período seguinte (X + 1); a farinha de trigo e as sementes como insumos na produção de outros bens e os pães como objetos de consumo final por parte das famílias. Contudo, ao final do período X, eles ainda não foram consumidos, de modo que sua contabilização no produto da economia deve ser feita de maneira a indicar isso.

Com esses elementos temos já uma pista sobre a forma que deve ter a conta de produção. De um dos lados da conta teremos o produto; de outro, sua utilização ou destino, ou seja, o consumo das famílias (ou consumo pessoal, ou consumo privado) e a formação de estoques (no nosso exemplo, teríamos de somar o valor do estoque de sementes, o valor do estoque de trigo, o valor do estoque de farinha de trigo e o valor do estoque de pães).

Mas nós nos referimos à formação de estoques e assim o fizemos porque, em nosso hipotético exemplo, partimos também de um hipotético ponto zero do tempo, quando ainda não existia a economia H e, portanto, nada ainda havia sido produzido e, pois, nada poderia ter sobrado.

Nas economias reais, porém, não existe nenhum ponto zero do qual se possa partir e, portanto, quando se contabilizam as variáveis integrantes do sistema de contas é preciso, em alguns casos, considerar o saldo que as contas, ou melhor, algumas de suas rubricas, “carregam” de um período para outro. É esse, precisamente, o caso da rubrica estoques.

Se não se parte de um ponto zero e se desejamos contabilizar o valor dos bens produzidos no período X, mas ainda não consumidos — e que se encontram, pois, estocados para consumo ou absorção futuros —, não podemos pura e simplesmente fazer um inventário do valor desses estoques ao final