Captulo 2
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Captulo 2

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mundo para com esse país), então para que seja respeitado o equilíbrio interno da conta, o saldo dessa conta, que fica lado do crédito, terá que ser lançado com sinal negativo. Isso significa que o país em questão acumulou no período mais débitos para com o resto do mundo do que créditos contra ele, ou seja, ele foi um “importador” de poupança externa. Esse resultado, como veremos vai aparecer de modo positivo na conta de capital (lançamento 4.4), já que, nesse caso, a poupança externa somou-se à interna para viabilizar a formação bruta de capital dessa economia no período em questão.

A outra diferença com relação ao formato apresentado no Capítulo 2 é que, ao invés de encontrarmos, no lado do crédito, a rubrica renda enviada ao exterior e do lado do débito a rubrica renda recebida do exterior, temos discriminados em ambos os lados da conta os recebimentos e pagamentos referentes à remuneração de empregados, outros rendimentos e transferências entre o Brasil e o resto do mundo. Esta forma mostra-se mais versátil e mais útil que a anterior​mente apresentada, particularmente se levarmos em conta o aumento da magnitude dos fluxos de renda (principalmente devido ao fator capital) decorrente do crescimento da liquidez internacional e da desregulamentação que marcam a fase atual do capitalismo. A discriminação dos fluxos de renda enviados e recebidos, com a indicação dos volumes verificados em cada um dos itens que os compõem, possibilita e facilita a análise dos pontos vulneráveis da economia brasileira dentro do novo contexto internacional. Como veremos adiante, o desenho atual das contas nacionais do Brasil, derivado do SNA 1993, mantém para essa conta praticamente esse mesmo formato.

A conta de capital desta versão do sistema é praticamente idêntica à versão final da conta de capital apresentada na seção 2.2. A única diferença deve-se, mais uma vez, à inexistência da conta do governo, que faz com que, ao invés de se encontrarem discriminados, no lado do crédito da conta, o saldo em conta corrente do governo e a poupança bruta do setor privado (poupança privada líquida mais depreciação), encontra-se apenas a rubrica poupança bruta. Há ainda duas outras diferenças, que não são, porém, de conteúdo. A primeira é de nomenclatura. Em vez de se lançar a rubrica resultado do balanço de pagamentos em transações correntes, como na versão apresentada na seção 2.2, optou-se por colocar saldo em transações correntes com o resto do mundo, mas o conteúdo e o significado da rubrica são exatamente os mesmos. O termo menos que antecede o item deve-se ao fato de o lançamento que faz contrapartida a este (o lançamento 3.9) estar também lançado a crédito em sua conta de origem, que é a conta de transações correntes com o resto do mundo. Mas qual é o significado econômico disso? Essa poupança externa veio a somar-se à poupança interna (rubrica 4.3) para financiar a formação bruta de capital do país no período em tela. Mas, para que esse valor apareça com sinal positivo na conta de capital, o sinal que ele tem em sua conta de origem tem que ser invertido. Análise idêntica, porém com sentido inverso, pode ser feita para o caso contrário. A segunda diferença revela, de fato, uma vantagem desse sistema perante o apresentado na seção 2.2, já que ele traz discriminada, no lado do débito da conta de capital, a participação dos setores público e privado na formação bruta de capital fixo.

Para concluir nossa análise do sistema anteriormente vigente, resta investigar a conta corrente das administrações públicas, que tem como objetivo detalhar a atividade do governo, implícita nas quatro contas que acabamos de estudar. Essa conta, que não guarda qualquer contrapartida contábil com as demais, apresenta os componentes dos gastos correntes do governo (incluindo os juros sobre a dívida), bem como a composição de sua receita corrente (tributos e outras receitas) e o saldo desses fluxos no período em questão. O cálculo do montante final de cada um desses itens é efetuado a partir da consolidação dos balanços da União, dos Estados e dos Municípios. Quando esses documentos não estão disponíveis, o que é mais comum para o caso dos municípios, utilizam-se as informações da lei orçamentária.

	Quadro 2.18
Conta complementar – Conta Corrente das Administrações Públicas

	Débito
	Crédito

	A Consumo Final das Administrações

 Públicas

a.1 Salários e Encargos

a.2 Outras compras de bens e serviços

B Subsídios
C Transferências de Assistência e

 Previdência

D Juros da Dívida Pública Interna

E Poupança em Conta Corrente

	F Tributos Indiretos

G Tributos Diretos
H Outras Receitas Correntes Líquidas
h.1 Outras Receitas Correntes Brutas
h.2 (menos) Outras Despesas de
 Transferência
h.2.1 Transferências intragovernamentais
h.2.2 Transferências intergovernamentais
h.2.1 Transferências ao setor privado

h.2.1 Transferências ao exterior

	Total da Utilização da Receita Corrente
	Total da Receita Corrente

Como se percebe, nessa conta complementar aparecem discriminados os gastos do governo em quatro rubricas: o consumo final, subdividido em i) gastos com salários e encargos e ii) compras de bens e serviços, os gastos com subsídios, os gastos com transferências de assistência e previdência e os gastos relativos ao pagamento dos juros da dívida interna. Cumpre notar aqui uma diferença no que diz respeito à forma de considerar este último item. Como vimos nas seção 2.2, os gastos do governo relativos ao pagamento dos juros de sua dívida eram considerados, na conta corrente do governo (que era então parte constitutiva do sistema), como transferências e englobados, portanto, nessa rubrica. Contudo, certamente em função da importância cada vez maior que foi assumindo esse item nos gastos correntes do governo, optou-se por apresentá-lo à parte, o que sem dúvida facilita a análise do comportamento estatal no que diz respeito ao financiamento de suas atividades.
Já a receita aparece discriminada em tributos diretos e indiretos e outras receitas correntes líquidas. Este último item aparece aberto para demonstrar de que modo se chega a seu valor final. Como essa conta resulta da consolidação dos fluxos experimentados no período em questão pelas três esferas de governo (federal, estadual e municipal), torna-se necessário, para evitar dupla contagem, deduzir, de seu valor bruto, as transferências inter e intragovernamentais, além, evidentemente, das transferências ao setor privado e ao exterior. O saldo líquido desses fluxos (receita menos gastos ou crédito menos débito), necessário para respeitar o princípio das partidas dobradas que exige o equilíbrio interno da conta, aparece na rubrica poupança em conta corrente. Se o valor desse item for negativo no período em questão, o setor governo, globalmente considerado, terá registrado um déficit em suas operações correntes, que pode ter sido financiado de várias maneiras, como pela emissão de moeda, aumento da dívida interna ou venda de patrimônio. No entanto, as informações que nos permitiriam saber de que forma esse déficit foi financiado não são apresentadas no sistema de contas nacionais. Nas Seções 8.2 e 8.3 do Capítulo 8, discutiremos essa questão de um modo mais detalhado.

Resumo

Os principais pontos vistos neste capítulo foram:

1.	O investimento divide-se em formação de capital fixo e variação de estoques, visto que, em ambos os casos possibilita-se ou enseja-se o consumo futuro de bens e serviços.

2.	Os estoques congregam os bens cujo consumo ou absorção futura se dá de uma única vez, enquanto o capital fixo diz respeito aos bens que não desaparecem depois de uma única utilização e que possibilitam a produção (e, portanto, o consumo) ao longo de um determinado período de tempo.

3.	A formação de capital fixo é normalmente resultante de um planejamento das empresas (ou do governo), enquanto a variação de estoques é, ao menos em parte, não planejada.

4.	O desgaste do capital fixo chama-se depreciação. Para obter o valor do produto