Captulo 2
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Captulo 2

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No entanto, por se tratar de bens duráveis, fica sempre a possibilidade de eles poderem ser considerados bens de capital e, portanto, a necessidade de se contabilizar sua produção na rubrica formação de capital fixo. Normalmente, esses casos acabam se resolvendo “por convenção”, ou seja, simplesmente convenciona-se que determinado bem será considerado dessa ou daquela maneira. No caso do Brasil, por exemplo, o tratamento que se dá aos automóveis depende da natureza do comprador: se forem famílias, eles são considerados como consumo privado; se forem empresas, eles são considerados como formação de capital fixo.

�Como o leitor deve estar lembrado, consideramos inicialmente, para efeitos de simplificação do raciocínio, apenas as remunerações do trabalho e do capital (salários e lucros), o que não afetou a compreensão necessária quanto à natureza da identidade produto = renda. De outro lado, lembramos, na nota 18 do Capítulo 1, que a não-consideração dos aluguéis não alterava em nada os resultados, ou seja, mesmo considerando-os, teriam sido gerados o mesmo conjunto de bens, o mesmo produto total e a mesma renda total. A diferença seria simplesmente que a renda total gerada seria dividida também com os donos da terra, de modo que, certamente, seria reduzida a parcela destinada à remuneração do trabalho ou à remuneração do capital (ou a ambos). O mesmo pode ser dito dos juros, que remuneram os proprietários do capital monetário adiantado à produção. Porém, explicar o porquê disso (ou seja, explicar por que isso ocorre com aluguéis e juros) implicaria adentrar a complexa questão da geração do valor. Além de escapar ao escopo deste livro, tal questão é matéria de muita controvérsia (cada corrente de pensamento tem dela uma compreensão particular), razão pela qual não a trataremos de modo mais profundo. Para nossos propósitos, basta que lembremos que, por tratar de identidades, a contabilidade nacional não sofre os efeitos do caráter controvertido da questão. Assim, por uma questão de fidelidade àquilo que de fato ocorre numa economia real, temos agora a necessidade de considerar, no rol das remunerações a fatores, também os aluguéis e os juros pagos às famílias.

� O leitor atento notará que, do lado do débito da conta de produção, não figuram apenas remunerações de fatores, mas também a rubrica depreciação. Como já comentado, considerar renda, produto, ou despesa como brutos ou líquidos é mera questão de convenção. Como a conta de produção trabalha com agregados brutos, há de se levar em conta a depreciação. Daí a rubrica formação bruta de capital fixo do lado do crédito dessa conta. Já no caso da conta de apropriação, que trabalha mais freqüentemente com os agregados líquidos, a depreciação não aparece do lado do débito, de modo que, do lado do crédito, a poupança que se registra é a poupança líquida. Em última instância, porém, também a rubrica depreciação poderia ser desmembrada em salários, lucros, aluguéis e juros, pois ela indica apenas que uma parcela dos fatores de produção tem de ser alocada na produção de bens que vão repor os bens de capital desgastados.

� Royalty é o nome da remuneração de um tipo de propriedade que não é imobiliária nem monetária, mas refere-se a tecnologia e outros tipos de “invisíveis”. Se um residente utilizar, por exemplo, uma tecnologia, imagem ou marca de propriedade de um não residente, terá de pagar-lhe royalties por esse uso.

� Daí, por exemplo, o fato de a maioria dos estudos utilizar, para fins de comparações internacionais, o produto interno bruto (PIB), ou GDP (gross domestic product), na sigla em inglês, e não o PNB.

� A denominação conta corrente indica que só são consideradas as operações envolvendo receitas e gastos correntes, ou seja, não aparecem aí as operações que mexem com os estoques detidos pelo setor público. Se, por exemplo, o governo resolver construir uma nova estrada, vai incorrer numa despesa de capital, mas ela não pode ser considerada uma despesa corrente. Da mesma maneira, se o governo contrair um empréstimo de grande monta para financiar a construção da estrada, os recursos que, por essa via, ele vier a receber, também não poderão ser considerados como receita corrente. O mesmo ocorre com a receita advinda da venda de uma empresa estatal.

� Tributo é a designação genérica de todo tipo de renda que o governo é capaz de arrecadar justamente por ser governo, ou seja, por deter o monopólio da operação de tributar. Os impostos (diretos e indiretos) são os tributos mais conhecidos, mas, além deles, existem também as taxas (como a taxa do lixo), as contribuições de melhoria (decorrentes da realização de obras públicas) e outros tipos de contribuição (como a previdenciária, a de intervenção no domínio econômico etc.).

� No próximo capítulo, discutiremos a relação entre este termo e a visão keynesiana do funcionamento da economia que foi afinal aquela que possibilitou, desde seu início, a estruturação de um sistema de contas nacionais.