Captulo 2
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Captulo 2

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do período X. E por que não podemos fazer isso? Porque, por exemplo, parte do valor desses estoques pode ter sido trazida do ano anterior. 	

Logo, para descobrir qual o valor dos bens produzidos na economia, ao longo do período X, mas ainda não consumidos, é preciso deduzir, do valor dos estoques ao final do período X, o valor dos estoques ao final do período X-1. Assim, o mais correto é falarmos em variação de estoques, a qual pode evidentemente ser tanto positiva, configurando crescimento dos estoques, quanto negativa, configurando redução nos estoques de um período a outro.
Retomando então nossa conta de produção, diremos que, de um de seus lados, estará contabilizado o produto e, de outro, sua utilização ou destino, ou seja, consumo pessoal e variação de estoques. Será que, com isso, damos conta de tudo que se passa numa economia, num determinado período de tempo, do ponto de vista da produção? O próprio fato de termos de contabilizar, de um dos lados da conta, junto ao consumo pessoal, também a variação de estoques já indica que não.

O que são os estoques, ou melhor, de que eles são constituídos? Eles são constituídos por mercadorias que representam consumo futuro. Ora, tudo aquilo que é produzido num período, mas que não é consumido nesse período, significando, ou ensejando, consumo no futuro, tem um nome: chama-se investimento.
Será que a variação de estoques é a única forma de investimento? Suponhamos que nossa economia H tivesse produzido, num período W qualquer, pães (já vendidos e consumidos), pães (ainda não vendidos e consumidos), farinha de trigo (ainda não consumida, ou seja, ainda não utilizada na fabricação de pães) e fornos para assar pães� (que ainda não começaram a ser utilizados). Nessas condições, os fornos para assar pães são bens de natureza muito semelhante a todos os demais bens dessa lista, exceção feita aos pães já vendidos e consumidos. Tal como os pães ainda não consumidos e a farinha de trigo ainda não absorvida na produção de pães, os fornos para assar pães possibilitam o consumo futuro de pães, porque viabilizam a produção desses bens (ou melhor, sua continuidade) nos períodos subseqüentes.

No entanto, algumas diferenças importantes existem entre os fornos e as outras mercadorias. A primeira e mais óbvia delas é que os fornos poderão ser utilizados inúmeras vezes na produção de pães, tantas vezes quantas possíveis, até que eles se desgastem inteiramente e tenham de ser substituídos por fornos novos. Com os outros bens, isso não acontece. Os pães ainda não consumidos, uma vez que o sejam, desaparecem; da mesma maneira, a farinha de trigo, uma vez utilizada na produção de uma determinada quantidade de pães, também desaparece.

É fundamentalmente por essa razão que, apesar de todos esses bens serem considerados investimento (por possibilitarem ou ensejarem o consumo futuro), costuma-se separá-los em duas categorias distintas, a variação de estoques e a formação de capital fixo.� Podemos então afirmar que:

O investimento costuma ser dividido em variação de estoques, que congrega os bens cujo consumo ou absorção futuros irão se dar de uma única vez, e a formação bruta de capital fixo, que agrega os bens que não desaparecem depois de uma única utilização e possibilitam a produção (e, portanto, o consumo) ao longo de um determinado período de tempo, ou seja, possibilitam a produção de um fluxo de bens e serviços.

Outros exemplos de capital fixo são máquinas e equipamentos de qualquer natureza, moradias, estradas de ferro e rodovias. Contrariamente aos bens incluídos na rubrica “variação de estoques”, todos esses bens possibilitam a efetivação do consumo de bens e serviços num período bastante extenso de tempo. Uma nova moradia, por exemplo, possibilita o consumo futuro de serviços de moradia ao longo de 40 ou 50 anos, período esse que, uma vez findo, ensejará a necessidade de que ela seja inteiramente reformada ou mesmo reconstruída.

Essa característica é comum a todos os bens incluídos na rubrica formação de capital fixo, ou seja, ainda que isto não ocorra de uma única vez, todos eles também se desgastam com o tempo, o que leva à criação de uma nova rubrica, a depreciação, e de dois conceitos diferentes de produto: bruto e líquido.

Antes que entremos nessa discussão, porém, é preciso considerar ainda uma segunda diferença entre os bens cuja produção é classificada como formação bruta de capital fixo e aqueles cuja produção não consumida é classificada na variação de estoques. A diferença está em que, apesar de ambos esses grupos deverem ser considerados investimento (pois possibilitam ou ensejam consumo futuro), a formação bruta de capital fixo é normalmente resultante de um planejamento das empresas (por exemplo, o aumento de uma planta industrial ou a substituição de máquinas antigas por máquinas novas e, provavelmente, mais produtivas), enquanto a variação de estoques é, ao menos em parte, resultante do comportamento de variáveis que escapam ao controle das empresas — como mudanças na moda, no clima, nos preços relativos e nas preferências —, sendo, nesse sentido, não planejada.

Se, por exemplo, num determinado ano, o linho entra na moda, de maneira inesperada, os estoques de linho, ao final desse ano, serão certamente menores do que normalmente seriam. Terá havido, nesse caso, uma variação negativa nos estoques de linho e, portanto, um desinvestimento, sem que isso tenha resultado de uma intenção deliberada dos fabricantes de linho, mas de uma alteração inesperada numa variável que não está inteiramente sob o controle das em​presas.

Sabendo disso, voltemos à questão do desgaste do capital fixo (ou depreciação). Como já indicamos anteriormente, os bens considerados sob a rubrica formação bruta de capital fixo também se desgastam com o tempo e com o uso, de modo que, findo um determinado período, seu valor terá sido inteiramente absorvido pelo fluxo de produção de bens (ou serviços) aí ocorrido. Vejamos um exemplo.​

Suponha que nossos fornos para assar pães tenham uma vida útil de dez anos, o que significa que, após esse período, o forno velho terá de ser substituído por um novo. Suponha ainda que nossa economia H necessite, para viabilizar sua produção anual de pães, de dez fornos. Isso significa que, a cada ano, deverá ser produzido pelo menos um forno de assar pães para que se mantenha o estoque de capital fixo da economia. Se cada forno dura, em média, dez anos e se o estoque de capital é de dez fornos, a cada ano que passa, esse estoque de capital sofrerá, em média, uma depreciação de valor equivalente ao de um forno. Portanto se, ao final do ano X, a economia H tiver produzido, além de pães, também um forno novo, terá, com isso, simplesmente reposto as condições para a manutenção do mesmo nível de produção no período subseqüente.

Assim, como considerar o valor do forno? Ele deve ou não ser contabilizado no valor do produto da economia H no ano X? Bem, as duas coisas podem ser feitas: ele deve obrigatoriamente ser contabilizado se estivermos considerando o produto bruto, mas não deverá ser contabilizado se quisermos saber qual foi o produto líquido da economia H nesse período. Portanto, é preciso sempre lembrar que:

Para obter o valor do produto líquido de uma economia num determinado período é preciso deduzir, do valor total produzido,​ ou seja, do valor do produto bruto, aquela parcela meramente destinada à reposição da parte desgastada do estoque​ de capital da economia, a que se dá o nome de depreciação.
Temos agora, finalmente, todos os instrumentos para apresentar a estrutura da conta de produção, que, como já assinalamos, é a conta mais importante do sistema, já que é dela que decorrem todas as demais. Relembrando, teremos então, de um lado, o produto líquido e a depreciação (portanto, o produto bruto) e, de outro, sua utilização ou destino, ou seja, consumo pessoal, variação de estoques e formação bruta de capital fixo. Sem nos preocuparmos, por ora, em compreender por que o produto fica do lado do débito e sua destinação do lado