Captulo 2
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Captulo 2

Disciplina:Contabilidade Social e Balanço de Pagamentos119 materiais1.351 seguidores
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do crédito, podemos apresentar a estrutura da conta de produção numa economia fechada e sem governo.

	Quadro 2.1

Conta do produto – primeira versão

	Débito
	Crédito

	A produto líquido

B depreciação
	C consumo pessoal

D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo

	Produto Bruto
	Despesa Bruta

Como já deve ter ficado claro, o sentido da conta de produção é mostrar, por um lado (o lado do débito da conta), o resultado do esforço conjunto da economia de um país num determinado período de tempo (normalmente um ano) e, por outro (o lado do crédito da conta), qual foi o destino do produto assim gerado, ou seja, se foi gasto em consumo, ou se foi acumulado, isto é, convertido em investimento — daí a utilização do termo despesa na última linha do lado do crédito. É essa a lógica da conta e é isso que garante seu equilíbrio interno, ou, em outras palavras, é isso que garante a igualdade entre débito e crédito. Mas o método das partidas dobradas exige ainda um outro tipo de equilíbrio, além do interno. Relembremo-nos do seguinte:

O princípio das partidas dobradas reza que, a um lançamento a débito, deve sempre corresponder um outro de mesmo valor a crédito. O equilíbrio interno refere-se à exigência de igualdade entre o valor do débito e o do crédito em cada uma das contas, enquanto o equilíbrio externo implica a necessidade de equilíbrio entre todas as contas do sistema.
É necessário, portanto, que haja um equilíbrio entre todas as contas. Logo, isso implica a consideração das demais contas componentes desse modelo simplificado de uma economia fechada e sem governo, a saber, a conta de apropriação e a conta de capital. Como veremos, é nessas duas outras contas que se encontram os lançamentos a débito e a crédito inversamente correspondentes a cada uma das rubricas da conta de produção apresentada, os quais garantem, assim, o equilíbrio externo do sistema.
Considerar essas duas outras contas implica, portanto, considerar o sistema como um todo, o que leva a perceber o segundo sentido da conta de produção. Se o primeiro desses sentidos é revelar o produto como dispêndio (a finalidade ou destino da produção —​​ se consumo ou investimento), o segundo é revelar a produção em sua dimensão de elemento gerador de renda. A renda, tanto quanto o produto e a despesa, é um agregado que pode ser tomado em duas versões distintas: bruta ou líquida, ou seja, incluindo-se ou não em seu valor aquele relativo à depreciação sofrida pelo estoque de capital fixo da economia.

Podemos agora montar uma segunda versão da conta de produção, em que o produto seja apresentado como somatório das diversas remunerações ocorridas na economia como contrapartida da cessão dos fatores de produção que, durante o período X, as famílias, suas proprietárias, fizeram às empresas. São essas variáveis (as remunerações) que vão aparecer na segunda conta do sistema, a conta de apropriação.
Como vimos anteriormente, essas remunerações podem, em princípio, ser reduzidas a duas categorias: salários e lucros. Nesse momento, contudo, por uma questão de fidelidade àquilo que de fato ocorre numa economia de verdade, teremos de relaxar essa hipótese simplificadora e introduzir duas outras categorias de remuneração que, conjuntamente com os salários e os lucros, compõem o menu dos pagamentos a fatores de uma economia, a saber, os aluguéis, que remuneram os proprietários de imóveis de modo geral — como propriedades rurais, terrenos, casas e prédios de escritórios —, e os juros, que remuneram os proprietários de capital monetário.� O único cuidado adicional que deve ser tomado é evitar a dupla contagem que pode ocorrer se considerarmos nessas rubricas, além dos aluguéis e dos juros pagos às famílias, também aqueles pagos às empresas. Estes últimos não devem ser considerados porque, como receitas, já participam dos demonstrativos de lucros e perdas das empresas e, portanto, já estão implicitamente computados na rubrica lucros. A única exceção a essa regra é o setor financeiro. Dada a natureza da atividade desenvolvida por esse setor, torna-se necessário considerar a diferença entre juros recebidos e juros pagos, dado que ela é um indicador do valor adicionado pelo setor sob a forma de serviços de intermediação financeira. Vejamos então como fica a conta de produção nessa segunda versão.

	Quadro 2.2

Conta do produto – segunda versão

	Débito
	Crédito

	a1 salários

a2 lucros
a3 aluguéis
a4 juros
A renda ou produto nacional líquido
(A = a1 + a2 + a3 + a4)

B depreciação
	C consumo pessoal

D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo

	Renda ou Produto Nacional Bruto
	Despesa Bruta

Mais adiante entenderemos qual o sentido da colocação do termo “nacional” no valor total do lado do débito da conta. Por ora, observemos que essa segunda versão da conta de produção, demonstra, por si só, a identidade produto  renda  dispêndio, que, de modo geral, norteia a lógica do sistema como um todo. Temos condição agora, portanto, de, ao considerar as duas outras contas desse modelo simplificado, demonstrar como o sistema atende à exigência de equilíbrio externo imposta pelo princípio das partidas dobradas. Por essa razão, a conta a ser agora investigada é a conta de apropriação. Por meio de tal investigação, não só começaremos a compreender com mais clareza a forma de fechamento do sistema, como poderemos responder, com mais propriedade, a uma pergunta que ficou no ar, qual seja, por que, na conta de produção, acontece essa situação, um tanto estranha à primeira vista, de a despesa ficar do lado do crédito enquanto o produto (ou renda) fica do lado do débito da conta.

O sentido lógico da conta de apropriação é mostrar de que maneira as famílias alocaram a renda que receberam pela cessão de seus fatores de produção. Trata-se de uma espécie de “conta-espelho” da conta de produção: se nesta os indivíduos e famílias são considerados como agentes envolvidos nas atividades produtivas (por meio das empresas), na conta de apropriação eles são tomados como unidades de dispêndio, a partir da renda recebida. Por isso, essa conta traz, do lado do débito, a rubrica poupança líquida, que indica a parcela de renda que as famílias decidiram não consumir e sim poupar.

	Quadro 2.3

Conta de apropriação – primeira versão

	Débito
	Crédito

	C Consumo Pessoal
F Poupança Líquida
	a1 salários
a2 lucros

a3 aluguéis
a4 juros

	Utilização da Renda Nacional Líquida
	Renda Nacional Líquida

Apresentada a conta, tentemos responder à questão há pouco mencionada. Considerando o sentido dessa conta, ou seja, o de ser uma conta que demonstre de que maneira uma determinada renda foi utilizada, parece bastante razoável que as remunerações recebidas pelos proprietários dos fatores de produção (ou seja, as diferentes categorias de renda) sejam lançadas a crédito, enquanto, no débito, figurem os usos e destinos dessa renda (consumo e poupança).

A conta de apropriação, portanto, funciona como uma espécie de demonstrativo de lucros e perdas, com seus correspondentes significados de receitas e despesas. Os principais agentes por trás dessa conta são as famílias (ou indivíduos). São eles que se apropriam da renda gerada na economia e a alocam da forma que melhor lhes convém. Em função disso, e em função da exigência de equilíbrio externo imposta pelo princípio das partidas dobradas, tais lançamentos a crédito na conta de apropriação aparecem como lançamentos a débito na conta de produção.

Mas a contabilização de tais lançamentos no débito da conta de produção não se explica apenas por essa exigência, digamos assim, mecânica. A idéia não é difícil de compreender. Se considerarmos que os agentes​ mais importantes por trás da conta de produção são as empresas (visto que é por meio delas que a produção se realiza), são também elas que consomem ou “gastam” os fatores de produção. Em função disso, a remuneração desses fatores aparece contabilizada do lado do débito da conta de produção (o que significa que, quanto maiores os valores ali lançados, maior terá sido o consumo