Captulo 2
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Captulo 2


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com isso o sistema, visto que encontramos todos os lançamentos inversos necessários para compensar a entrada da quarta conta referente ao registro das transações com o setor externo. Nesse modelo de economia aberta e sem governo, a conta de apropriação permanece tal como a apresentamos em sua primeira versão.
Economia Aberta e com Governo
Com o modelo anterior relaxamos uma de nossas hipóteses simplificadoras iniciais e admitimos que a economia realiza transações com o exterior. Para completarmos o modelo é preciso agora abrir mão de uma segunda hipótese simplificadora e introduzir um elemento muito importante no funcionamento de qualquer economia e que até o momento não foi contemplado: o governo.
Como se sabe, o governo interfere significativamente na vida econômica de um país. Além de arrecadar impostos e consumir bens e serviços para poder fornecer à população outros bens e serviços \u2014 como segurança e educação \u2014, ele também realiza transferências e subsidia determinados\u200b setores. Dependendo do tipo de imposto e dos subsídios que o governo fornece, ele pode ainda interferir nos preços das mercadorias. Para dar conta de todas essas operações e tendo em vista sua especificidade, uma alternativa é introduzir no sistema uma quinta conta, chamada conta do governo. Os impostos e outras receitas correntes do governo vão aparecer no lado do crédito dessa conta, enquanto o consumo, as transferências e os subsídios vão figurar do lado do débito. Vejamos:
	Quadro 2.8
Conta do Governo 
	Débito
	Crédito
	L consumo do Governo 
M transferências
N subsídios
O saldo do governo em conta corrente
	P impostos diretos
Q impostos indiretos
R outras receitas correntes líquidas
	Utilização da Receita
	Total da Receita
A conta do governo é, em muitos sentidos, semelhante à conta de apropriação. Assim como esta busca mostrar qual é o destino que as famílias (ou indivíduos) dão às rendas que recebem pelo fato de serem proprietários de fatores de produção, a conta do governo busca mostrar:
a)	qual foi o valor da receita total do governo num determinado período de tempo; e
b)	como o governo a alocou ou, em outras palavras, o que fez com ela.
A igualdade entre o débito e o crédito da conta, exigida pelo seu equilíbrio interno, requer o lançamento do saldo do governo em conta corrente\ufffd no lado do débito. 
A estrutura da conta pode então ser entendida da seguinte forma: o governo recebe, sob a forma de impostos e outras receitas líquidas (por exemplo, taxas e contribuições), uma determinada parcela da renda gerada na economia. Com essa quantia, em primeiro lugar, o governo sustenta suas próprias atividades, ou seja, paga salários a seus funcionários e adquire bens e serviços do setor privado \u2014 como, por exemplo, material de escritório, computadores, remédios e alimentos para merenda escolar. 
Além disso, ele utiliza essa receita para fazer transferências ao setor privado. As duas categorias mais importantes de transferência são, por um lado, as pensões e aposentadorias e, por outro, os juros da dívida pública. Por último, ele pode utilizar sua receita para conceder subsídios a determinados setores julgados importantes (algum setor cuja produção se queira estimular ou cujos preços se queira influenciar). Mais à frente retomaremos a discussão sobre as transferências e subsídios para esclarecer melhor sua natureza e suas conseqüências.
Do cotejo entre a receita que o governo arrecada e os gastos que tem com salários, bens e serviços, transferências e subsídios, surge um saldo que tanto pode ser positivo quanto negativo. Se for positivo, significa que, no período em questão, o governo arrecadou mais do que gastou, gerando uma poupança do governo; se for negativo, ou seja, se ele tiver um déficit, isso significa que ele gastou mais do que arrecadou e foi financiado por poupança do setor privado (interna ou externa). Evidentemente, no caso de um déficit, o saldo deve aparecer registrado com sinal negativo. Na Seção 9.3 do Capítulo 9 discutiremos com mais detalhes a questão do déficit público e de seu significado.
Quais são as conseqüências que a introdução da conta do governo traz para a forma de registro dos agregados e para a estrutura das contas? Para responder a essas questões é preciso, inicialmente, retomar alguns pontos já colocados. Dissemos anteriormente, e a conta do governo assim o demonstra, que o governo não só arrecada impostos e outros tipos de tributos,\ufffd mas também devolve parte deles sob a forma de transferências e subsídios. 
Os impostos que ele arrecada podem ser classificados em impostos diretos e impostos indiretos. Os impostos diretos incidem sobre a renda ou a propriedade e são recolhidos e pagos como impostos. O exemplo mais importante dessa categoria é o imposto de renda, que, no Brasil, como em vários outros países, é um tributo federal. Mas há outros igualmente importantes como o IPTU (imposto sobre a propriedade territorial urbana) e o IPVA (imposto sobre a propriedade de veículos automotores), ambos tributos municipais. 
Já os impostos indiretos não são pagos como impostos, mas como parte do preço das mercadorias (daí serem indiretos). Os exemplos mais conhecidos no Brasil são o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que é um tributo federal, e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é um tributo estadual. Por serem pagos indiretamente, ou seja, por meio dos preços dos bens e serviços, eles alteram esses preços relativamente a uma situação hipotética em que tais impostos não existissem. 
Levando em conta essa distinção entre impostos diretos e indiretos, torna-se mais fácil compreender a natureza das devoluções que o governo faz. Tomemos inicialmente aquele grupo de devoluções englobadas na rubrica transferências. O que é uma transferência? Teoricamente considera-se transferência aquele tipo de operação que só tem um sentido: um dá e o outro recebe, sem dar nada em troca. Nesse sentido, é relativamente fácil compreender por que as pensões do tipo auxílio-doença, auxílio-maternidade ou auxílio-velhice, ou programas como bolsa-família, são considerados transferências. Realmente, nesses casos, há simplesmente uma transferência de recursos das mãos do governo para as dos beneficiários, sem nenhum tipo de contrapartida. 
No caso das aposentadorias, já não é tão fácil de compreender, visto que se pode, com razão, alegar que quem recebe uma aposentadoria pode não estar dando nada em troca hoje, mas já o deu ao longo de sua vida economicamente ativa, quando pagou sua previdência. De fato, as contribuições destinadas à previdência são computadas, para efeitos do sistema de contas nacionais, como tributos diretos. Contudo, como as operações são descasadas no tempo (paga-se num determinado período, recebe-se em outro) e as contas nacionais são apuradas considerando-se um dado período de tempo (normalmente um ano), o pagamento de aposentadorias mostra-se de fato como uma transferência. De certa forma, o mesmo pode ser dito quanto aos juros da dívida pública, já que quem recebe esse tipo de transferência o faz porque, em algum momento anterior, emprestou dinheiro ao governo. Por razões semelhantes, porém, o pagamento desses juros é igualmente considerado como transferência. 
Mas, seja como for, com maior ou menor propriedade, todas essas operações assemelham-se no seguinte ponto: em todas elas há um efetivo deslocamento de recursos monetários das mãos do governo para as mãos dos beneficiários. O governo, assim, devolve ao setor privado parte daquilo que ele recolhe como tributos. Nessa medida, tais operações podem ser consideradas uma espécie de imposto direto com sinal trocado. 
Tomemos agora os subsídios. Na maior parte das vezes os subsídios não significam propriamente a redistribuição de uma receita coletada por meio de impostos, mas simplesmente a abdicação, por parte do governo, de uma receita à qual ele teria direito. O governo pode, por exemplo, em função de objetivos sociais, querer reduzir o preço do leite aos consumidores finais e,