Captulo 2
31 pág.

Captulo 2

Disciplina:Contabilidade Social e Balanço de Pagamentos119 materiais1.338 seguidores
Pré-visualização13 páginas
para tanto, abrir mão da arrecadação do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS) que incidiria sobre a comercialização do leite, ou, ainda, reduzir o imposto sobre produtos industrializados (IPI) para estimular o consumo e minorar os efeitos de uma crise internacional. Assim, a concessão de subsídios mexe com os preços das mercadorias, mas mexe no sentido inverso ao provocado pela incidência de impostos indiretos (ou seja, os subsídios reduzem o preço final dos bens ao invés de elevá-los). Assim, eles podem ser considerados como impostos indiretos com o sinal trocado.

Isto posto, a primeira conseqüência importante da existência do governo sobre a contabilidade social é que ela provoca uma nova dicotomia na forma de registro dos agregados. Como acabamos de comentar, a atuação do governo via impostos indiretos e subsídios altera os preços das mercadorias relativamente aos preços que seriam observados se tais operações não existissem. Assim, por um lado, as mercadorias têm seu valor aumentado pelos impostos indiretos compensados dos subsídios, mas, por outro, esse acréscimo de valor não tem como contrapartida pagamentos a fatores de produção. Como registrar esse diferencial?

Para resolver o problema foram criados dois conceitos de produto: o produto a preços de mercado (Produtopm), que inclui o valor dos impostos indiretos compensados dos subsídios, e o produto a custo de fatores (Produtocf), que não considera esse valor adicional.

Tanto quanto nos demais casos (o bruto e o líquido, o interno e o nacional), a existência dos dois conceitos é funcional, visto que, a depender do caso, ora um ora outro mostra-se mais adequado. Cabe nesse sentido observar que, quando a mídia falada ou escrita anuncia, por exemplo, que o IBGE divulgou a taxa de crescimento do produto num determinado ano, é do PIBpm que se está falando. De fato, quando se quer ter uma idéia do resultado final do esforço de uma dada economia num determinado ano, faz sentido considerar também a contribuição prestada pelos fatores de produção de propriedade de não residentes. Ao mesmo tempo, parece também bastante razoável tomar o produto bruto e não o líquido, já que a produção de valores que vão apenas repor o capital fixo desgastado também demandou esforços, consumiu fatores de produção e gerou renda. Finalmente, a consideração do PIB em seu conceito de preços de mercado justifica-se porque também é valor adicionado (renda gerada) aquilo que se arrecada sob a forma de impostos indiretos (líquidos de subsídios).

 Feitas essas considerações, vejamos como fica a estrutura do sistema, agora que o modelo está completo, ou seja, trata-se de uma economia aberta e com governo. Para tanto, apresentaremos a seguir a versão final de cada uma das contas para, na seqüência, explicar como se dá o fechamento do sistema.

	Quadro 2.9
Conta de produção

	Débito
	Crédito

	I importações de bens e serviços não fatores
J-H renda líquida enviada (+) ou recebida (-) do exterior
a1 salários
a2 lucros

a3 aluguéis
a4 juros

A renda ou produto nacional líquido
(A = a1 + a2 + a3 + a4)

B depreciação
Q-N impostos indiretos líquidos de subsídios
	G exportações de bens e serviços não fatores
C consumo pessoal

L consumo do governo
D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo

	Oferta Total de Bens e Serviços
	Demanda Total por Bens e Serviços

	Quadro 2.10
Conta de apropriação

	Débito
	Crédito

	C consumo pessoal
P-M impostos diretos líquidos de transferências

R outras receitas correntes líquidas
F poupança privada líquida
	a1 salários
a2 lucros

a3 aluguéis
a4 juros

	Utilização da Renda Nacional Líquida
	Renda Nacional Líquida

	Quadro 2.11
Conta do Governo

	Débito
	Crédito

	L consumo do Governo

M transferências

N subsídios

O saldo do governo em conta corrente
	P impostos diretos

p.1 empresas

p.2 famílias

Q impostos indiretos

R outras receitas correntes líquidas

	Utilização da Receita
	Total da Receita

	Quadro 2.12
Conta do setor externo

	Débito
	Crédito

	G exportações de bens e serviços não fatores

H renda recebida do exterior

K resultado do BP em transações correntes
	I importações de bens e serviços não fatores

J renda enviada ao exterior

	Total do débito
	Total do crédito

	Quadro 2.13
Conta de capital

	Débito
	Crédito

	D variação de estoques

E formação bruta de capital fixo
	F poupança privada líquida

B depreciação
K resultado do BP em transações correntes

O saldo do governo em conta corrente

	Investimento Bruto Total
	Poupança Bruta Total

Apresentadas as cinco contas em sua versão final, tratemos de entender as modificações provocadas pela introdução da conta do governo. A conta de produção é o espaço no qual vamos encontrar a maior parte dos lançamentos compensatórios exigidos pela introdução da conta do governo. Relativamente à versão anterior, encontramos, do lado do débito dessa conta, o lançamento adicional Q – N, que compensa igual lançamento a crédito na conta do governo. Esse lançamento deve-se ao fato de o valor do produto ficar alterado quando da introdução do governo por conta da tributação via impostos indiretos. Em outras palavras, como a conta de produto tem que registrar o PIB a preços de mercado, é preciso lançar no lado do débito o valor dos impostos indiretos líquidos de subsídios. Em contrapartida, temos agora também que lançar do lado do crédito o consumo do governo (rubrica L), compensando assim o lançamento a débito na conta do governo. De fato, além de coletar tributos o governo surge também como um agente adicional de demanda, além daquelas que já existiam, quais sejam, consumo pessoal, investimentos (formação bruta de capital fixo mais varia​ção de estoques) e exportações.
Já a conta de apropriação, que, nesta nossa versão, apresenta a renda na versão nacional líquida a custo de fatores, vai trazer do lado do débito os lançamentos adicionais P-M e R. o primeiro justifica-se porque, de posse da renda, a decisão sobre consumir ou poupar não pode se dar sobre sua totalidade, mas tem que preservar a parte destinada ao pagamento dos impostos diretos. Com o lançamento a débito de P, compensa-se então o lançamento a crédito dessa mesma rubrica na conta do governo. Contudo, o valor a ser preservado deve ser líquido das transferências que, como vimos, funciona como um imposto direto com sinal negativo. Assim, apesar de estar lançada do mesmo lado em que aparece na conta do governo, a rubrica M garante aí o equilíbrio externo do sistema, pois aparece com sinal negativo. Finalmente, a rubrica R também tem de ser lançada no lado do débito da conta de apropriação (compensando lançamento idêntico a crédito na conta do governo), uma vez que os detentores de renda também fazem diretamente, além dos impostos diretos propriamente ditos, outros tipos de pagamento ao governo (como por exemplo, o pagamento de taxas, contribuições previdenciárias, multas ou aluguéis em função do uso de propriedades do Estado), os quais vêm a constituir as outras receitas do governo.
O sistema se fecha por completo quando percebemos que o lançamento a débito na conta do governo da rubrica O (saldo em conta corrente), vai encontrar um lançamento a crédito na conta de capital. Sua justificativa é simples: uma vez introduzido no sistema, o governo torna-se também uma fonte geradora de poupança e, portanto, de investimento. Assim, a identidade entre investimento e poupança fica garantida pelo fato de que, do lado direito da conta de capital aparecem, além da depreciação, as três fontes geradoras de poupança (setor privado, setor externo e governo), enquanto que, em seu lado esquerdo aparece a formação bruta de capital, ou seja, o investimento total que envolve a formação bruta de capital fixo e a variação de estoques. Evidentemente, se o resultado da conta corrente do governo for negativo, ou seja, se houver um déficit do governo ao invés de um saldo positivo, esse registro deve ser efetuado com o sinal negativo (o mesmo, aliás, é válido também para