elogio_loucura
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elogio_loucura

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a miserabilíssima condição
do gênero humano, não poderá, decerto, deixar de aprovar o exemplo das virgens de Mileto
(57), embora seja um exemplo digno de toda a compaixão.
 Quais foram os mais célebres desgostosos da vida que procuraram espontaneamente a
morte? Não foram, porventura, os amigos mais próximos da sabedoria? Para não falar de
Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, lembro apenas o famoso Quirão (58), que
preferiu a morte à imortalidade. Já sei que logo compreendereis quanto o mundo duraria
pouco, se a sabedoria fosse comum entre os mortais. Sou mesmo de opinião que, em breve,
haveria necessidade de uma nova argila e de um novo Prometeu (59). Mas, também nesse
caso, sou eu quem providencia, mantendo os homens na ignorância, na irreflexão, no
esquecimento dos males passados e na esperança de um futuro melhor. Misturando as
minhas doçuras com as da volúpia, eu amenizo o rigor do seu destino. Amam a vida não só
quase todos os homens, como até aqueles cujo fio da existência está prestes a ser cortado
pela morte, aqueles que devem deixar a vida depois de um bom número de anos. Eles não

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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mostram nenhuma pressa de passar para o número dos mortos. Quanto mais motivos têm os
homens para viver contra a própria vontade, tanto menos se enojam da vida, evidenciando
que não acham excessivamente longos os seus dias. São um efeito da minha bondade esses
velhos que vedes alcançar a nestória decrepitude e que de humano só possuem a figura. Por
isso é que são gagos, delirantes, desdentados, encanecidos, calvos, ou, para descrevê-los
melhor, com as palavras de Aristófanes, enrugados, corcundas, sem nenhum resto de
virilidade. E, não obstante, amam com transporte a vida. Não se limitam esses velhotes
insensatos aos prazeres da existência, mas se esforçam ainda por imitar, o quanto podem, a
juventude: um enegrece os cabelos brancos; outro esconde com uma cabeleira a cabeça
calva; outro põe dentes tomados de empréstimo de algum porco; outro se apaixona
loucamente por uma moça e faz por ela loucuras que envergonhariam um rapazinho.
Estamos tão habituados a ver um homem todo curvado ao peso dos anos e que já não
enxerga a terra em que está para descer, a vê-lo, repito, casar-se com uma mocinha sem
dote, e casar-se, certamente, mais para o de outrem do que para o próprio uso, que isso se
torna quase um motivo de louvor.
 Eis, porém, um quadro ainda mais divertido: aquelas velhas apaixonadas, aqueles
cadáveres semivivos que parecem ter saído do Érebo e já estão fedendo à carniça, ainda
sentem arder o coração. Lascivas como cadelas no cio, só respiram uma porca sensualidade
e dizem descaradamente que sem volúpia a vida não vale nada. Essas velhas cabras ainda
fazem o amor e, quando encontram algum Faão (60), costumam remunerar generosamente a
repugnância que causam. Então, mais do que nunca, se esmeram na pintura do rosto, passam
a vida diante do espelho, arrancam fios brancos de barba, ostentam dois seios flácidos e
enrugados, cantam com voz rouquenha e hesitante para despertar a lânguida concupiscência,
bebem à grande, intrometem-se nas danças das moças, escrevem cartas amorosas, — eis os
meios que essas velhas raposas empregam para dar coragem aos seus custosos campeões.
Enquanto isso, a sociedade exclama: — Que velhas malucas! Que velhas malucas! — Mas,
se a sociedade tem razão, elas se riem e, imersas nos prazeres, aproveitam a felicidade que
lhes proporciono. Eu desejaria que esses censores indiscretos soubessem dizer-me o que será
mais estúpido: viver alegre e satisfeito, ou eternamente desesperado até se enforcar com
uma corda. Poderão dizer-me que é uma verdadeira infâmia a vida desses velhos e dessas
velhas. Não o nego; mas, que importa isso aos meus loucos? Ou são inteiramente insensíveis
à desonra, ou então, quando a sentem, sufocam facilmente o remorso. Os meus bons e fiéis
súditos têm uma filosofia especial, que lhes faz distinguir muito bem os males imaginários
dos males reais. Cai-vos uma pedra na cabeça? Oh! isso, sim, é na realidade um mal! Mas, a
desonra, a infâmia, as censuras, as maldições só nos fazem mal quando queremos sentir:
desde que não pensemos nisso, deixam de ser um mal. Que mal pode fazer o que murmura a
sociedade, quando é certo que intimamente vos aplaudis? Ora, somente eu tenho a virtude
de sublimar os homens a esse alto grau de perfeição, e é esse um dos meus maiores
predicados. Parece-me, contudo, ouvir alguns filósofos dizerem que uma das maiores
desgraças para um homem consiste em ficar louco, em viver no erro, na ilusão e na
ignorância. Oh! como estão redondamente enganados! Respondo-lhes, ao contrário, que é
justamente nisso que consiste ser homem. Confesso-vos que não sei explicar como podem
tratar de infelizes os meus loucos, sendo a loucura, como é, patrimônio universal da
humanidade, e quando todos os mortais nascem, educam-se e se conformam com ela.
 Parece-me bastante ridículo lastimar um ser que se acha no seu estado normal.

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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Considerareis deplorável o fato do homem não ter asas para voar como os pássaros, ou
quatro pés como os quadrúpedes, ou a fronte armada de chifres como o touro? Lamentareis
a sorte de um belo cavalo, pelo fato de não ter aprendido gramática ou de não comer bem?
Deplorareis um touro, pelo fato de não ser adestrado na palestra? Portanto, assim como o
cavalo não é infeliz por ignorar a gramática, assim também não o é o louco, pois a loucura é
natural no homem. Mas, os sutis disputadores meus antagonistas continuam a perseguir-me
com novos sofismas. Dentre todos os animais — dizem eles — só o homem goza do
privilégio de aprender as artes e as ciências, a fim de suprir com os seus conhecimentos às
lacunas da natureza. Como se houvesse sombra de verdade em que a natureza, tão
previdente e vigilante quanto ao pernilongo e até quanto às ervas ou às florzinhas do campo,
fosse esquecer-se unicamente do homem, deixando de lhe fornecer tudo aquilo de que
precisa! Oh! que absurdo! Não! As ciências e as artes que tanto decantais não são obra da
natureza: foi um certo gênio chamado Teuto (61), grande inimigo do gênero humano, que,
por cúmulo da desventura dos homens, as inventou. Eis porque, muito longe de
contribuírem para essa felicidade que se pretende apresentar como razão de sua descoberta,
as ciências são, ao contrário, extremamente nocivas. Tinha decerto bom faro aquele sábio e
prudente rei (62) que, com tanta finura, segundo Platão, reprovou a invenção do alfabeto.
 Digamos, pois, francamente, que a ciência e a indústria se introduziram no mundo com
todas as outras pestes da vida humana, tendo sido inventadas pelos mesmos espíritos que
deram origem a todos os males, isto é, pelos demônios, que por final tiraram da ciência o
seu nome (63). Nada disso se conhecia no século de ouro, em que, sem método, sem regra,
sem instrução, os homens viviam felizes, guiados pela natureza e pelo próprio instinto. Com
efeito, que utilidade teria, naquele tempo, a gramática? Havia apenas a linguagem, e, ainda
assim, só era falada para exprimir o pensamento. Não havia necessidade de lógica, porque,
tendo todos os mesmos raciocínios, as divergências de opinião não provocavam discussão
alguma. Não se conhecia a retórica naquela idade pacífica, em que não havia nem processos,
nem conflitos, nem discursos. Nessa época, os legisladores eram inúteis, porque, reinando os
bons costumes, não havia necessidade de leis (64). Além disso, aqueles mortais eram
religiosíssimos, motivo por que não ansiavam por investigar com ímpia curiosidade os
segredos da natureza. Convencidos de que a um pequeno inseto como o homem não é lícito
ultrapassar os estreitos limites de sua capacidade, não quebravam a cabeça com a pesquisa